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Dom, Set

Giovani entregue ao abraço de Deus

Editorial
Tipografia

Eu, com o meu professor de Teologia o chamo de esperança que não engana e, é ao abraço deste OUTRO que confio o nosso Luís. Dai-lhe, Senhor, o eterno descanso. 

O caso do jovem Giovani tem suscitado debates, revoltas e também algum ódio em quase todos os que ouvem a sua história. Entretanto, os que conviveram, ainda que por pouco tempo, com ele, os que o amaram ou se sentiram amados por ele, os que conheciam a sua fé em Jesus Cristo  a sua dedicação a Ele podem correr o risco de, diante da visita precoce  e violenta da nossa irmã morte ao jovem Luís Giovani, questionar as razões da vida e do crer. Onde estava aquele Senhor que ele tão deficientemente, embora por pouco tempo, serviu? 

Curiosamente, antes de receber a trágica e indesejável notícia tinha lido um texto de um meu caro professor de Teologia sobre a morte. O meu professor o escreveu no seu perfil de Facebook em memória de um seu ente querido que morrera uns anos antes, ceifado pela doença. Penso que o que o meu professor escreve se adequa perfeitamente ao que estamos a viver em relação ao jovem Giovani. Com a devida vénia partilho a reflexão que faço integramente minha, curvado à memória de Giovani. 

Diz assim o texto que estou a citar: 

“Diante de uma tragédia como essa, parece claro que a morte não chega para fazer nada, mas apenas, mais ou menos repentina ou repentinamente, para interromper um percurso de vida, condenando-o a permanecer suspenso como uma ponte cujo um arco arruinou.

Uma tal interrupção tão perturbadora lança uma sombra indelével sobre a existência daqueles que permanecem. É a sombra de uma precariedade inevitável, como uma sensação de fragilidade perturbadora, que lança a suspeita do caráter enganoso de qualquer plano de vida a médio ou longo prazo.

Vem à mente a pergunta cortante que Deus dirige ao homem rico - protagonista de uma parábola contada no evangelho de Lucas (12, 13-21) - iludido por ter à sua frente todo o tempo necessário para construir celeiros maiores, capazes de conter a colheita abundante da estação: «Tolo, nesta mesma noite sua vida será tomada. E o que preparaste, para quem será?

É uma pergunta ambivalente, porque poderia levar-nos a uma resignação desencantada diante da futilidade de qualquer iniciativa, quase incentivando-nos a deslizar na encosta de um cinismo niilista. Ou poderia despertar-nos para a consciência lúcida da própria inegável finitude, descerrando o realismo criativo daqueles que reconhecem que sua verdade está num “não-tudo”, está na coragem de confiar num “além” sempre excedente e não programável.

Talvez, na verdade,  a salvação de Deus acontece sempre após "Um tempo, dois tempos e metade de um tempo", como lembra a Escritura Judaico-Cristã (Daniel 12, 7; Apocalipse 12, 14). Em outras palavras, a salvação se apoia sempre sobre uma interrupção, na fratura daquele tempo, que nós humanos conseguimos dispor, no bem e no mal. Então, definitivamente, trata-se uma questão de aprender a sentir e reconhecer o formar-se de tal  fissura  sob nossos passos, para evitar permanecer à mercê do delírio da omnipotência e da consequente frustração inevitável, entregando-nos ao abraço confiável de um Outro capaz de realizar o que ele prometeu.

Se quiserdes, chamai isso de ilusão.

Eu prefiro chamá-la de esperança”. 

Eu, com o meu professor de Teologia o chamo de esperança que não engana e, é ao abraço deste OUTRO que confio o nosso Luís. Dai-lhe, Senhor, o eterno descanso.  

Frei Gilson Frede, capuchinho