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Qui, Jul

Liceu da Várzea: as minhas memórias

Editorial
Tipografia

Tive o privilégio de fazer parte da primeira leva de alunos que transitaram da antiga Escola Asa Branca (atual Escola Secundária Pedro Gomes) para o então recém-construído Liceu da Várzea, no ano letivo 1994/1995.

Por: Vladmir Silves Ferreira

A abertura do Liceu da Várzea foi de grande importância pois veio descongestionar o Liceu Domingos Ramos que na altura albergava alunos de todos os municípios de Santiago e ilhas vizinhas. Assim permitiu-me iniciar o 5º ano dos Liceus mais perto de casa, diminuindo assim os custos de deslocação ao Platô.

Para além de salas amplas, laboratórios e espaço de lazer, o Liceu tinha duas placas desportivas, um auditório, uma cantina e um espaço recreativo que demos o nome de Pelourinho. Para os padrões da altura o Liceu da Várzea encontrava-se no Topo, pois tinha sido projetado e materializado para dar resposta aos desafios do crescimento e massificação do acesso ao ensino secundário que se despontava na altura.

Porém, mais do que a modernidade das instalações o Liceu da Várzea marcava a diferença pela excelência e qualidade do seu corpo docente e demais profissionais que o fundaram. Um grupo de jovens docentes altamente capacitados, do ponto de vista técnico e científico, mas que sobretudo souberam incorporar a nobre missão de formar cidadãos melhor preparados para servir o futuro do nosso país. Muito do que sou hoje devo-o à motivação, incentivo e gosto pelo saber que me foi transmitido pelos meus mestres, dentro e fora das salas do Liceu da Várzea.

Se as salas e os professores são importantes na materialização de qualquer processo de ensino/aprendizagem, os colegas de turma e as amizades que se fazem durante o percurso escolar são também elementos determinantes e que ajudam a criar relações que muitas vezes perduram para toda vida. Hoje, vinte e cinco anos depois de ter passado pelo Liceu da Várzea, ainda o meu núcleo duro de amigos mais próximos é constituído essencialmente por antigos colegas do liceu.  

Sempre que me encontro com antigos colegas que estão no exterior as nossas conversas acabam sempre por girar à volta do ambiente que vivenciamos no Liceu da Várzea. O professor Barbosa, que com a sua forma brincalhona e divertida, incutiu-nos o gosto pela ciência politica; a Dona Lídia, uma extraordinária Professora de história, que só mais tarde percebemos que o seu domínio da história contemporânea e a forma como nos ensinava era, sem dúvida, ao nível do que se fazia nas melhores universidades do mundo; a professora Lígia, que criou em nós o fascínio pela literatura em língua portuguesa (não é por acaso que alguns jornalistas de referencia na nossa praça tenham saído da Várzea); a professora Teresa, que foi uma autêntica mãe para muitos de nós; o professor Isidoro, que muito bem nos preparou para o complexo mundo da filosofia, e muitos outros cujos nomes não citei.

Nos meados da década de 1990 o Bairro da Várzea encontrava-se numa forte dinâmica de crescimento urbano e económico. Para além do Cemitério, Estádio da Várzea e do Clube de Ténis, a Várzea albergava ainda a Escola Francesa “Les Alizés”, o Campo do Côco, o Palácio do Governo (que havia sido inaugurado 2 ou 3 anos antes do Liceu da Várzea) e se consolidava como um bairro de residência para jovens quadros da administração pública. O complexo habitacional dos militares é um dos exemplos deste período. Portanto o Liceu surgiu dentro de um quadro mais amplo de ascensão e de afirmação da Várzea no contexto da Cidade da Praia.

Infelizmente, nos últimos anos, grande parte destas infraestruturas já foram deslocalizadas e a Várzea perdeu um pouco do seu dinamismo com a expansão da cidade e surgimento de novos bairros, apesar de ainda manter uma interessante dinâmica cultural e exercer uma certa centralidade que advém da sua localização e dos equipamentos públicos que ainda ali permanecem.

Os estudiosos da cultura definem o Património Cultural como sendo o “conjunto de bens, de natureza material ou imaterial, que guarda em si referências à identidade, a ação e a memória de uma sociedade.” É seguramente com base neste argumento que temos assistido, nos últimos tempos, a vários grupos de ex-alunos se articulando (nas redes sociais) no sentido de mobilizarem recursos para a reabilitação dos edifícios onde estudaram. Isto está acontecendo com os antigos estudantes do Liceu Amílcar Cabral, do Ludgero Lima, etc. Inclusive o próprio Estado tem procurado mobilizar meios junto da cooperação internacional para restaurar e manter o nosso património escolar. Foi assim que se conseguiu reabilitar o Liceu Domingos Ramos, há uns 5 ou 6 anos atrás, e mais recentemente reabilitou-se o antigo edifício do Liceu Gil Eanes utilizando a mesma fórmula.

Pois, assim considero que o Liceu da Várzea faz parte da memória e da história da minha geração, da mesma forma que os liceus mais antigos representam memórias de outras gerações, ou será que só vale a pena conservar o que foi construído no período colonial?