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Qui, Jul

A “camarotização” do carnaval na Praia e no Mindelo

Editorial
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Em todas as cidades de Cabo Verde, mormente em Mindelo, é o povo que carrega nas veias as festa do Carnaval. Festa popular, aberta e gratuita, festa do e para o povo. 

 

A festa é um microcosmo variado e com um certo grau de complexidade cultural, antropológica e  tradicional nela contida. Resulta um momento da vida social de duração variável, que interrompe a sequência normal das atividades quotidianas opondo-se-lhes como período de particular efervescência.

A festa se carateriza, em relação ao resto do tempo pela interrupção do trabalho produtivo e através de momentos recomeços, regeneração, encontros. Mas também momentos de excessos, da transgressão e infrações de normas pré-constituídas. 

O carnaval entra nesta definição que acabamos de explicitar. É uma festa de rua que incentiva á criatividade e o convívio e entra no leque daquelas festas que permitem a transgressão. Entretanto, numa sociedade consumista, pensa-se que ela deve render lucro para alguém e deve perder o caracter lúdica e de liberdade que a deviam caracterizar para ser industrializada.  

Em todas as cidades de Cabo Verde, mormente em Mindelo, é o povo que carrega nas veias as festa do Carnaval. Festa popular, aberta e gratuita, festa do e para o povo. 

Entretanto, o carnaval de rua de algumas cidades, como Praia e Mindelo, é atravessado por um movimento inverso: a criação de camarotes pagos, muitos deles ocupando os lugares melhores onde passam os grupos e onde os grupos dão melhor de si no desfile. Há camarotes com oferecimento de bebidas, comidas e outras comodidades, além de uma visão privilegiada da folia. 

É o que estamos a chamar de “camarotização”. Ela aparece agora no Carnaval mas já é forte em outros espaços, como os destinos turísticos, e alguém a chama de “desejo de distinção” de quem tem mais dinheiro numa sociedade cada vez mais “marcada por uma grande estratificação social". 

Criam-se espaços pagos, ocupando os melhores locais com capacidade para um certo número de pessoas com ingressos a partir de 250$00 (ao menos na Praia).

Há também uma discussão mais ampla sobre a segregação por renda que o camarote e o “pay per use” implicam. Além de atestar a desigualdade e o desejo de distinção pelo consumo, a “camarotização” não faz bem à democracia ao eliminar o convívio entre pessoas de classes sociais  diferentes. É o que afirma o filósofo político Michael Sandel, professor da Universidade de Harvard e autor do livro “O que o dinheiro não compra: os limites morais do mercado”, de 2012, no qual trabalha o conceito da camarotização (“skyboxification”, em inglês) da vida americana. “A democracia não requer perfeita igualdade [entre as pessoas e classes sociais], mas necessita que os cidadãos compartilhem uma vida comum, ao menos nas festas como o Carnaval.

O que importa é que pessoas de diferentes contextos e posições sociais se encontrem e convivam na vida quaotidiana, pois é assim que aprendemos a negociar e a respeitar as diferenças ao cuidar do bem comum”, escreveu Sandel e estamos de acordo. 

 

TN - Redação