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Qui, Jul

Responsabilidade, espada de dois gumes

Editorial
Tipografia

Este é o título de um editorial que escrevera há já alguns anos em relação a uma certa situação que se vivia em Cabo Verde. Na altura, esperava-se que alguém assumisse as responsabilidades e serenamente se demitisse.  Tal, então, não aconteceu porque achou-se simplesmente que não. 

 

Naquele editorial, vindo à luz do dia por causa de certos fundos que se afundavam escrevia: “neste país por mais nobre que seja uma individualidade ninguém espere que, eventualmente, se demita porque está de consciência tranquila e vai aguardar os inquéritos (cujos resultados ninguém nunca conhece) sem perturbar as investigações. Como fez, por exemplo, Miguel Macedo em Portugal por causa dos vistos gold. O Ministro português demitira, não porque se reconhecia culpado mas porque o responsável máximo era ele e para deixar que se apurasse tudo com a máxima serenidade. Aqui hombridade do tipo nunca nem jamais”.

Ora, passaram-se os anos e, inclusive, mudaram-se os atores principais, eis que, porém, não houve, a tal “nova forma de fazer política”. Ao menos no caso dos novos manuais. 

Esperava-se, que diante dos erros (e não gralhas) dos novos manuais, mesmo que sejam experimentais, alguém explicasse com simplicidade onde houve a falha num processo que, acredita-se, tem os seus custos e nunca é feito sobre os joelhos. Não vale a pena, entre nós ninguém assume as suas responsabilidades. Ficou mais uma vez evidente com o discurso ontem da Diretora Nacional da Educação e com o silêncio da Ministra da Educação. 

Ora, a responsabilidade é uma palavra com muitos significados. O seu primeiro e mais importante é positivo e está ligado à representação de empenho e de seriedade misturados com uma boa dose de bom senso e, muitas vezes, também de prudência. 

Mas existe um segundo significado - que em Cabo Verde ganha força a cada dia - com uma conotação negativa, quase um sinónimo de sentido de culpa mais do que o seu contrário, a irresponsabilidade. 

Todos, como nós o fazemos agora, apelam à responsabilidade dos outros. Mas o conceito tornou-se, entre nós, uma espécie de grande tormento. Quando se espera que tal fulano, pela sua postura irá marcar a diferença eis que se escuda em expedientes e erros do passado, quase legitimando a sua incompetência porque outros também o foram ou o são. O resultado é que, no fim, depois desta embriaguez de responsabilidades, ninguém seja mais responsável por nada e por ninguém. 

O major Walter Reder que foi um oficial alemão durante a segunda Guerra Mundial, considerado responsável (culpado) do massacre de Marzabotto defendeu-se dizendo que ele sempre foi um combatente, um militar pronto a executar ordens superiores. Assim também se defendeu o tenente-coronel Kappler condenado pelo massacre das Fossas Ardeatinas e chefes dos nazistas em Nuremberg. Quando os vencedores processaram os vencidos a sentença era inevitável: todos responsáveis mas também  todos irresponsáveis, porque o único responsável (aqui parece o caso do navio Vicente) tinha sido morto no bunker. Assim nunca mais a democracia amadurece e nunca mais uma sociedade de paz e bem. Corações ao alto! 

Frei Gilson Frede