15
Seg, Jul

Casa do Líder, numa sociedade órfã de verdadeiros líderes

Editorial
Tipografia

Passa pela nossa televisão pública e pela internet a segunda edição do reality show completamente cabo-verdiano, Casa do Líder. Lá dentro, numa mansão de luxo, estão encurralados uns indivíduos sedentos de fama mais do que qualquer tipo de aprendizagem sobre liderança e mais do que o valor do prémio que, diga-se, não é pouco para um país como o nosso. 

 

Casa do Líder espelha bem aquilo que Paula Sibilia, pesquisadora do Departamento de Estudos Culturais e Mídia da Universidade Federal Fluminense no Brasil, disse numa recente entrevista que concedeu a um jornal católico do seu país. Isto é, confirma-se que também nós estamos a viver “um novo modelo de vida social. Uma das principais manifestações dessa nova vida social é um crescente desejo de ser visto, uma vontade de se construir como um eu visível, como um personagem que os outros podem ver e, graças a esse olhar reconfortante, confirmam a existência de quem se exibe”. Naturalmente isso não acontece somente no Casa do Líder mas também nas diversas práticas contemporâneas onde impera esse desejo desesperado de que os demais nos vejam e nos observem, para que possamos existir. Vejamos, por exemplo, o uso desregrado das redes sociais pelos adultos e pela nossa juventude. 

O pior desse reality show é a sua pretensão de ajudar a formar líderes e, pior ainda, a ideia de que estão a contribuir para a edificação da nossa juventude. Infelizmente são seguidos 24 horas por milhares de jovens que sem líderes alternativos se deixam embalar na admiração do vazio e do nada desde que apareça na televisão. Certamente, o programa Casa do Líder apresenta online e permanentemente os sintomas de uma nova época: há também entre nós sinais de que algo está a  mudar radicalmente no que entendemos por intimidade, bem como no que é público e no que é privado. Por tudo isso, cremos que essas novas formas de expressão e comunicação que agora proliferam, de fato, nada mais fazem do que amplificar certas tendências que também estão presentes fora da mídia, pois algo muito semelhante ocorre na nossa vida, espetacularizada todos os dias. 

A conclusão é, portanto, que está acontecendo um deslocamento histórico do eixo em torno do qual se constrói o que é cada sujeito, e esses novos fenómenos tão presentes na Internet atual seriam um indício dessa mutação. Pensemos que naqueles tempos modernos que já começam a ficar envelhecidos — um período cujo auge ocorreu no século XIX e na primeira metade do XX —, esse eixo se edificava em torno da “interioridade” de cada indivíduo, em volta de algo que se acreditava hospedado “dentro” de cada um e que guarnecia sua essência pessoal. Nos últimos anos, parece que esse eixo tem se deslocado em direção à superfície do corpo e, inclusive, cada vez mais, verte-se avidamente nas telas e em outras vitrines mediáticas.

O que se procura, nessas novas práticas “exibicionistas” e “confessionais” não é mergulhar no mais obscuro de si mesmo para ter acesso às próprias verdades, como acontecia na escrita do diário íntimo tradicional ou no relato vital da psicanálise, por exemplo. Agora persegue-se a visibilidade e, em certo sentido, também a celebridade. Ambas como um fim em si mesmo, não como um meio para atingir outra coisa e nem como uma consequência de algo maior. Uma via para poder “ser alguém” na sociedade atual.

De modo que não se trata mais daquele gesto introspectivo que consistia em se afundar “dentro” de si mesmo, mas o contrário: aqui são exercidos movimentos para “fora”, que buscam a valiosa possibilidade de ter um público assistente diante do qual se exibir. Embora os espectadores que constituem esse auditório sejam limitados, o importante é conquistar alguma porção de visibilidade, porque após ter se perdido aquela âncora que sustentava o que se era no interior de si mesmo, só quando alguém nos olha e nos vê, podemos ter garantias de que realmente existimos. Eis uma das premissas da nossa “sociedade do espetáculo”, tal como a definira Guy Debord em seu manifesto de 1967. 

Casa do Líder, com as suas falsas pretensões pedagógicas, tem-se, portanto, revelado o espelho evidente desta nova forma de estarmos e de vivermos em sociedade. Dispensamos tais líderes porque cegos não podem guiar nem outros cegos tão pouco quem ainda goza de perfeita visão. Corações ao alto. Paz e bem!  

 

Frei Gilson Frede