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Seg, Jun

Perder e perder-se

Editorial
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Já se disse e se ouviu por aí, vindo de várias direcções, que em Democracia, esse regime que desde a queda do artigo 4 temos vindo a construir, ninguém perde. Isto é, quando o povo livremente e sem condicionalismo de nenhuma ordem fala tem sempre razão e fala sempre bem.

Por Frei Gilson Frede, diretor

 

Na Democracia, sendo sacrossanto o voto livre do povo, os grupos organizados desse mesmo povo deverão assumir, sem se e sem mas, o papel que o voto da maioria lhe reservou e serão, de tempo em tempo, chamados a prestar contas da sua administração. Em suma, as eleições de março, de setembro e de outubro, embora não se possa dizer tout court que não houve condicionalismo de várias ordens, puseram, sem dó nem piedade e sem margem para desculpas e especulações, o PAICV na oposição.

Naturalmente, nenhuma humilhação porque, embora, nenhum partido que preze viva para a oposição, ela, a oposição, faz parte do jogo democrático e sem ela, sem ela forte e com ideias, a Democracia não existe ou não subsiste. Ter ideias e alternativas, porém, não deve ser a todo custo a repetição e a defesa das políticas adoptadas a quando poder e que o povo, que ordena, coordena e condena, condenou nas urnas. Ou seja, a oposição deve reinventar-se e repropor-se como sendo outra vez a solução dos novos problemas que, entretanto vão surgindo. 

Ora, se é verdade que, na linha do que estamos a dissertar, a Democracia não é um regime que humilha os outros, criando perdedores, é igualmente verdade que qualquer força política por mais vigorosa que tenha sido e determinante no desenvolvimento de um país ou região, pode perder-se. Pode, dito de outra forma, desencontrar-se e descaminhar-se. Pode até não resistir e morrer.

Depois  de todas essas eleições em que o PAICV não conseguiu, nem de perto, nem de longe, os seus objectivos, primeiro de renovar o mandato e ficar mais no poder, depois de eleger mais do que 8 câmaras municipais evitando que os ovos acabem todos no mesmo cesto e depois ainda no derradeiro embate, embora não oficial, evitar o poder único, parece um partido perdido. Parece um partido sem norte e um discurso e uma prática convincente. A culpa não é da Democracia. Nem a interna que ditou a nova liderança com as manobras denunciadas, nem a Democracia popular que ditou novas soluções. Parece óbvio, mas, é que no PAICV reside e resiste ainda “mentalidades únicas”. Mentalidades, isto é, nostálgicas do tempo em que o povo não ordenava mas sim o camarada de serviço. (Camaradas que, embora, tenha desempenhado o mais alto cargo desta nação  não percebe que desempenhando aquele cargo, o cidadão torna-se uma reserva moral para todos e não deve passar de campanha em campanha a auxiliar camaradas. Ele é de todos! Devia ser… ).

Ora, um partido que se perde na sequência de umas eleições, que não são as últimas deste país, com resultados menos bons, e não tem a serenidade e seriedade de reorientar-se rapidamente, pode estar a preparar uma implosão que não beneficia nem o partido em si com a sua história e o seu percurso, nem a sociedade que deseja um PAICV forte e alternativo não porque militante ou amante da ideologia que forja este partido, mas simplesmente porque um povo democrata sabe que mesmo a oposição deve ser vigoroso e forte. 

O tempo que se abre diante de nós é demasiado importante e ingente para ficarmos a ver um partido que nos governou (bem ou mal) até bem pouco tempo e que tem responsabilidades no que vamos viver ainda por largos anos, perdido, em lutas internas que começaram algures no tempo mas que nenhum tempo consegue resolver. A Democracia não produz perdedores, é certo, mas os partidos podem fazer com que a Democracia de empobreça e saia a perder. O povo pode rejeitar um partido mas nunca a sua Democracia. 

Viva a Democracia! viva Cabo Verde!

Corações ao alto! Paz e bem!