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Ter, Dez

Sejamos o que somos: país de fortes e profundas raízes cristãs

Opinião
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Tempos atrás, alguém emitiu uma estranha opinião de sabor requintadamente laico-comunista: dever-se-ia eliminar e substituir os nomes cristãos das nossas freguesias! Parece que o indivíduo estava incomodado com o facto de a divisão administrativa das ilhas coincidir com a divisão eclesial.

Se calhar, preconceitos em relação à religião, bebidos, quiçá, em algumas latitudes soviéticas, queriam levantar a cabeça. Se foi isso, a cabeça deve ter-se logo abaixado, tal foi o desdém e frieza com que a opinião foi acolhida.

Está na hora de começarmos a defender descomplexadamente essas notas cristãs que enfeitam a nossa terra, em vez de estarmos a nutrir desconsideração por elas. Fazem parte da nossa identidade e despirmo-nos delas é como pisar e esmagar o próprio pé. Tomemos a Europa como exemplo a não seguir neste ponto. As suas raízes estão praticamente suspensas no ar, os muçulmanos conseguiram fazer hoje o que os seus antepassados mouros não conseguiram fazer, sobretudo a partir da península ibérica. A Europa cristã não deve fechar as suas fronteiras aos muçulmanos. Só que, ao abri-las, deve cuidar bem do que é seu e da sua alma.

Por não tê-lo feito, temos agora o que temos. Hoje é normal, como me dizia alguém recentemente, encontrar na rua um casal muçulmano, rodeado de quatro ou cinco filhos, e um casal francês levando o seu cãozinho preso a uma corda. Partidos políticos houve, na Europa que, em vez de protegerem os sãos valores em que cresceu o povo europeu, hostilizaram-nos e votaram leis anti-cristãs, abrindo assim brechas para a entrada de anti-valores. Segundo o site de notícias alemão PI-News, 1.063 ataques a igrejas ou profanações de símbolos cristãos (crucifixos, figuras, estátuas) foram registrados na França em 2018. Os emigrantes são acusados de perpetrarem esses crimes. Mas, antes de eles chegarem, quem é que se insurgia contra os símbolos e valores cristãos? Em Cabo Verde, cuidemos do que é nosso, sejamos o que somos, tenhamos orgulho das nossas raízes cristãs, promovamo-los e defendamo-los. Recentemente, o cumprimento do dever levou-me ao Burkina Faso.

Uma semana em Ouagadougou serviu-me para ver como o Evangelho é, de facto, a esperança do mundo. Tinha chegado poucos dias depois da Páscoa. Fiquei a saber que na vigília pascal, na paróquia assistida pelos capuchinhos e dedicada ao S. Francisco de Assis, foram baptizados 400 cristãos adultos. Esses cristãos descobriram o Evangelho da Paz e passaram a conhecer também Francisco de Assis, o cantor da fraternidade universal e da Paz num país que caminhava, até há pouco tempo, com muita esperança de ser um lugar de paz, não obstante os sucessivos golpes militares. Agora surge uma ameaça muito grave.

A Boko Haram, grupo terrorista islâmico surgido na Nigéria e que considera toda a educação não islâmica como pecado, passando a atacar regularmente o norte da Burkina. Durante os dias em que permaneci no país, houve um ataque contra uma igreja protestante, que deixou seis vítimas entre os quais o pastor. Uma semana após o meu regresso, terroristas mataram um sacerdote e cinco fiéis durante a celebração da missa matinal e depois incendiaram o edifício. Há um propósito mundial de aniquilar o cristianismo, a tal ponto que analistas sérios já concluíram que nunca a fé cristã foi tão perseguida como hoje.

Esse propósito está sendo levado a cabo por três frentes ou forças aparentemente desconectadas entre si: governos comunistas, que continuam de pedra e cal em países como a China, Coreia do Norte, Nicarágua e China, Eritreia, governos islâmicos como Irão, Arábia Saudita, Paquistão, Indonésia, Irã, Sudão, e a imprensa internacional que faz silêncio sobre esse desígnio tenebroso ou então utiliza o seu poder informativo para noticiar tudo quanto é desfavorável à Igreja Católica (alvo principal a abater no mundo cristão) e ignorar todos os actos de terrorismo e de perseguição que se levam a cabo contra ela.

povo cabo-verdiano cresceu à sombra da cruz que sempre mais se ergue qual grito silencioso contra a violência e em favor da paz e da liberdade. Das dez ilhas, cinco têm nomes de santos. Se formos ver quais são os motivos que levam o nosso o povo a congregar-se e a festejar ao longo do ano, concluiremos facilmente que esses motivos, na sua maioria, estão ligados à religião cristã, embora muitos tirem proveito, de modo nem sempre honesto, desses factores.

É por isso que insisto: valorizemos o que somos, promovamos os valores da fé cristã, não tenhamos medo de que as nossas crianças conheçam a beleza do que Cristo ensinou. Apraz-me concluir citando o cientista ateu Richard Dawkins. Ele advertiu, na sua conta Twitter, que “não se deve celebrar uma Europa menos cristã”. O mesmo se deveria dizer àqueles que em Cabo Verde parecem estar felizes por verem sempre mais gente menos influenciada pela religião cristã. Se não queremos ver coisa pior amanhã, não exultemos com a descristianização da nossa sociedade.

Opinião de Frei António Fidalgo de Barros - Custódio dos Capuchinhos de Cabo Verde

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