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Sex, Dez

Repensar a Forma de Fazer Política e Inovar

Opinião
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Na minha aula de hoje, Política Externa Caboverdiana I, a discussão foi em torno de questões políticas nacionais que têm reflexo nas relações externas. Vieram à tona a construção da Embaixada dos Estados Unidos no terreno contíguo ao Palácio do Governo e a deslocalização do Liceu da Várzea.

As opiniões dos estudantes são díspares, uns apoiando a decisão das autoridades nacionais, outros nem tanto, mas todos com argumentos mais ou menos sólidos.

Ficou para mim patente o grande descontentamento dos jovens universitários com os políticos e os governantes, entre os quais evidentemente me incluo.

Não fujo às minhas responsabilidades, orgulho-me de ter sido político, dirigente partidário e governante. Orgulho-me do que fiz, o melhor que pude, tudo o que era possível, no limite das minhas capacidades físicas e intelectuais e nos termos das possibilidades e dos constrangimentos de Cabo Verde. Estou, por isso, de consciência tranquila.

Todavia, não me sinto tranquilo com a avaliação que os referidos jovens fazem dos políticos. Consideram que o país cresceu muito nos 44 anos de independência, questionam se não se podia fazer melhor - sempre se pode -, e duvidam se os políticos e governantes atuais estão à altura dos desafios que se colocam ao país.

Para alguns os políticos só se preocupam com os seus interesses e, por isso mesmo, as 10 pessoas mais ricas do país são políticos (foram publicadas fake news recentemente num site fictício sobre isso e, pelos vistos, convenceu muito boa gente).

Há uma predisposição desses jovens para acusar os políticos de apropriação indébita de bens públicos: os políticos têm boas casas, vivem bem e não passam por dificuldades dizem com evidente sarcasmo.

Na verdade, há algum cansaço da imagem dos políticos. As manchas significativas da pobreza e as desigualdades sociais estão a gerar ressentimentos e descontentamentos que podem ser corrosivos para a democracia.

Cada vez maior número de pessoas acredita que os poderes públicos são incapazes de resolver os seus problemas. Essa descrença leva ao desgaste das instituições democráticas, maxime dos partidos.

As disputas “sangrentas” pelo poder e a expansão do ultraliberalismo têm levado ao recuo da democracia liberal e ao cansaço das instituições democráticas no mundo. Há cada vez mais promessas não cumpridas da democracia. As liberdades civis e políticas estão em recessão, enquanto o estado é capturado por grandes grupos económicos que ditam as suas próprias regras do jogo. A globalização permite-nos, à vista desarmada, ver a desregulamentação e a expansão das liberdades económicas, a enorme concentração da riqueza, e o aumento das desigualdades sociais. Tem havido uma substancial redução da qualidade de vida e do bem estar de segmentos importantes da classe média dos países industrializados e desenvolvidos.

Se antes, as políticas públicas nesses países ocidentais eram para contrariar o campo socialista, o grande inimigo comum, após a queda da Muro de Berlim e o fim da guerra fria, o inimigo passa a ser os imigrantes, as excessivas liberdades civis e políticas, a livre circulação de pessoas e as minorias.

A ideia ultraliberal do estado mínimo, da mão invisível e da livre concorrência tem tido efeitos políticos e sociais catastróficos e as desigualdades não param de aumentar. As portas estão abertas à xenofobia, à demagogia e ao populismo. As forças progressistas e de esquerda têm se sucumbido às políticas económicas ultraliberais e não tem havido um pensamento económico de esquerda para contrariar a degradação das instituições económicas e a captura do Estado pelos grupos de interesses.

No que se refere a Cabo Verde, os partidos políticos têm que repensar a forma de fazer política e inovar substancialmente. O desgaste instituições democráticas já está a assumir contornos preocupantes.

É fundamental o reforço da confiança mútua entre os partidos, o apelo aos princípios e valores da tolerância, da amizade e do bem comum, ao diálogo interpartidário e à pedagogia política.

A construção de consensos sobre os principais desígnios nacionais, o respeito pelas regras do jogo democrático e a busca do bem comum são mais necessários do nunca, adentro de uma estratégia de resgate da nobreza da política.

Não conseguiremos qualificar a nossa democracia, pelo contrário abriremos caminhos aos seus “inimigos íntimos”, se os políticos continuarem a falar mal da política e dos políticos, se a disputa pelo poder continuar a ser feita num quadro de terror e de assassínio dos adversários, se a política for capturada por grupos de interesses, se os partidos não refinarem o desempenho da sua função representativa e aprofundarem a sua função pedagógica.

 Estamos ainda a tempo de mudar e mudar radicalmente, com inteligência e ousadia. O que fizemos no passado já não é suficiente para legitimar o presente e alimentar esperanças de um país muito melhor para todos no futuro.

 

Opinião de José Maria Neves - Publicado no nosso Jornal com a sua permissão.

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