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Sex, Dez

Há uma grande diferença entre criticar, ofender e mentir

Opinião
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Num vídeo difundido no Facebook em Agosto do corrente ano, dirigido especialmente aos emigrantes cabo-verdianos espalhado por este mundo fora (“tudo canto di mundo”), o Sr. Alexandre Évora, que afirma ser parente de Amílcar Cabral, diz peremptoriamente ter sido chamado por Deus para enviar uma mensagem muito importante a todos os cabo-verdianos sobre, inter alia, o status quo da política administrativa e económica de Cabo Verde.

 

O Sr. Évora critica incompassivelmente a maioria dos Presidentes da República, primeiros-ministros e deputados que têm governado Cabo Verde desde 1975 até hoje. Ele exclui o Sr. António Mascarenhas Monteiro e o Sr. Pedro Pires da sua crítica, na qual chama de corruptos os governantes, inclusive os deputados do Parlamento cabo-verdiano. Por achar que o Sr. Alexandre não só critica mas também ofende alguns dos criticados, é oportuno esclarecer os seguintes conceitos – e a diferença entre eles –, que devem ser seriamente considerados por todo e qualquer crítico que almeja um diálogo sério, pacífico e frutífero com os seus interlocutores ou seja leitores e ouvintes. Quem não aceita um diálogo, uma crítica ou contra-crítica é, para mim, uma voz a gritar no deserto, mesmo que esteja convencido de ser um profeta de Deus. 

O conceito de crítica

De uma maneira geral, criticar pode ser definido com «apontar defeitos; dizer mal de (obra, alguém, costume, etc.); depreciar, censurar». Num discurso sério, quer seja sobre a vida quotidiana, quer sobre assuntos científicos, filosóficos, políticos, jurídicos, éticos ou morais e religiosos ou espirituais, criticar deve ser definido como apresentar uma opinião contrária em termos de argumentos sustentáveis, isto é, argumentos baseados em factos, intuição lógica ou pensamentos plausíveis dentro de um certo contexto ou universo de discurso. Quero também precisar que criticar uma pessoa deve consistir em argumentar contra o que a pessoa faz (actos ou omissões como defeitos morais), o que ela diz ou escreve, e não apontar os seus defeitos físicos (cor, fisionomia, altura, sexo, cegueira, feiura, paralisia, etc., a sua origem ou descendência, ou suas falhas mentais (doença mental como a loucura, a depressão, a demência, a psicose, a hipocondria, a paranóia, etc.). À luz deste esclarecimento, considero ser uma ofensa e não uma crítica quando o Sr. Alexandre Évora diz, no referido vídeo, que o Sr. José Maria Neves não sabe quem é seu pai.

O conceito de ofensa

Ofender uma pessoa é uma maneira de a “aborrecer, magoar, injuriar, desgostar, transgredir, pecar, desrespeitar», insultar, afrontar e envergonhar. A título de exemplo, num dos seus vídeo-programas dirigidos aos emigrantes cabo-verdianos, no mundo inteiro, no qual critica os governantes cabo-verdianos, afirma terminantemente que o senhor José Maria Neves não sabe quem é o seu pai. O Sr. Évora devia saber que esta sua afirmação é uma maneira de provocar, aborrecer, magoar, injuriar e desrespeitar o Sr. JMN. Por outras palavras, não é uma crítica, mas una ofensa, porquanto a falta de certos conhecimentos não é uma indicação de um defeito do carácter ou da integridade moral expresso em palavras, obras e omissões. Na sua presunçosa grandiloquência sobre os defeitos morais (corrupção e má governação) do Sr. JMN, o Sr. Évora também ofende moral e categoricamente o Sr. JMN. Ao proceder assim, o Sr. A. Évora vai além da crítica e pode estar a ofender não só o Sr. JMN como também a mãe deste, irmãos e talvez o próprio pai. Uma pergunta pertinente aqui é: O que é que a função e execução de um cargo político tem a ver com o conhecimento que o executor devia ter da sua ascendência e não tem? O Sr. A. Évora afirma no referido vídeo que António Mascarenhas Monteiro e Pedro Pires foram bons presidentes (rosa entre espinhos). Se foram, acho que não foi por causa do conhecimento que eles tinham ou não da sua ascendência, mas antes por causa da sua integridade moral traduzida ou expressa nas suas presumíveis boas obras.

O conceito da mentira, da falsidade e da verdade

Mentir é fazer uma afirmação falsa com a intenção de enganar uma ou mais pessoas ou o público, ou o acto de ocultar factos a quem tem o direito de os conhecer. Quem que por incúria, má-fé ou falta de conhecimento de factos faz uma afirmação falsa não está necessariamente a mentir. Por exemplo, Nicolau Copérnico (1473-1543) “com a sua teoria do heliocentrismo, colocou o Sol como o centro do Sistema Solar, contrariando a então vigente teoria geocêntrica que considerava a Terra como o centro”. Os que até então ou depois acreditavam na teoria geocêntrica não estavam necessariamente a mentir, embora estivessem a fazer uma afirmação cientificamente falsa. 

     Por vezes é difícil distinguir entre uma afirmação falsa e uma mentira. O filósofo grego Aristóteles distingue a verdade da falsidade da seguinte maneira: “Dizer do que é que não é, ou do que não é que é, é o falso: dizer do que é que é e do que não é que não é, é o verdadeiro”. Esta é uma definição da verdade segundo a teoria de conhecimento chamada teoria de correspondência (lat. “Veritas est adaequatio rei et intellectus = a verdade é expressa através da adequação entre o objeto e o intelecto” ). É fácil de aplicar esta definição da verdade, por Aristóteles e São Tomás de Aquino, em factos e fenómenos naturais com o referido exemplo. Dizer, por exemplo, que uma pessoa pesa mais que uma outra ou que uma é mais alta do que a outra é fácil de verificar tendo a referida definição da verdade na mente e um padrão de medição, o metro. Mas isto torna-se mais difícil quando fazemos juízos de valor como: o senhor primeiro-ministro “X” é corrupto. Pois, se X for meu amigo ou parente faço todo o esforço para prescindir de fazer este juízo de valor negativo a seu respeito. Pelo contrário, se X for meu adversário ou inimigo é mais fácil eu chamá-lo corrupto. Por outras palavras, se sou membro do partido liderado por X tenho a tendência de ver X como uma pessoa inteligente e com boas qualidades morais. Se X roubar ao Estado, o seu partido não o chama de ladrão, mas desviador de finanças do Estado. Pelo contrário, quem simpatiza com um outro partido ao qual vendeu a sua alma, tem a tendência de atribuir a X qualidades morais negativas como ignorante, antipático, desonesto, malandro, corrupto, ladrão, etc.

Portanto, o Sr. Alexandre Évora e outros críticos de igual mentalidade, em Cabo Verde ou na Diáspora, se estão interessados em contribuir para o progresso material, intelectual, moral e espiritual do nosso inestimável Cabo Verde, devem distinguir rigorosamente entre afirmação de factos e juízos de valor. Se não, estão a cavar a sua própria cova, na qual poderão vir cair mais cedo ou mais tarde.

A voz do falso profeta é doce, atraente e fascinante aos desprevenidos

Sem a mínima hesitação, o Sr. Alexandre Évora autoproclama-se de profeta de Deus, chamado por este para consciencializar o povo cabo-verdiano do seu sofrimento causado pela má governação do país e assim preveni-lo pelo mal que possa vir acontecer no futuro. Ora, qualquer pessoa pode reivindicar o direito de ser profeta. Mas a Bíblia faz uma distinção precisa entre o profeta verdadeiro e o falso. Infelizmente, o povo tem a tendência de escutar os falsos profetas e zombar dos verdadeiros, para a sua própria desgraça. Aqueles prometem em nome de Deus justiça, felicidade, saúde, paz, riquezas e conforto, numa palavra, um mar de rosas ao povo desprevenido. Enquanto estes últimos falam a verdade, nua e crua, sobre o que está para acontecer, o que nem sempre é a promessa de um mar de rosas mas antes uma advertência sobre o castigo de Deus por causa de injustiças e crueldades humanas. O Profeta Jeremias teve uma enorme luta com o falso profeta Ananias. Pois, enquanto Jeremias profetizava que a duração do cativeiro do povo israelita na Babilónio seria 70 anos, Ananias pregava e assegurava ao povo que o cativeiro duraria apenas dois anos, o que era uma grande mentira (Jer.28,3 e 11-17). É claro que o povo acreditou neste falso profeta e rejeitou e perseguiu Jeremias, o profeta verdadeiro (Jer. 28,1-17). Para um bom entendedor meia palavra basta! (Já agora, convém saber que Ananias, em hebraico Hananja, significa Deus é misericordioso)

Resumindo e concluindo: A crítica bem-feita, especialmente se for construtiva, é uma condição necessária (mas não suficiente) ao progresso científico, filosófico, moral, espiritual, etc. Por isso, ela deve ser distinta de qualquer ofensa à integridade moral de uma pessoa (aqui: do criticado). Pois, é inoportuno e moralmente inaceitável ofender as pessoas, quer sejam presidentes, ministros e deputados, quer sejam simples trabalhadores (ou “preguiçosos”), etc.. Portanto, caros leitores, criticar sim, e se possível construtivamente. Mas ofender não, a quem quer que seja (amigo ou adversário). Quem avisa amigo é! 

 

António Barbosa da Silva, emigrante na Noruega.

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