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Seg, Nov

Conspirar uma Maioria Qualificada

Opinião
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Essa crise que temos hoje no PAICV, foi devidamente planeada e orquestrada, porque a quem no PAICV que tem interesse que haja uma profunda crise interna no partido, achando ser esse o melhor caminho para fragilizar e derrubar a atual direção do PAICV, não entendendo, no entanto, que esse caminho só leva a fragilização do próprio partido.

 

Opinião de Walter Évora*, deputado nacional do PAICV

Infelizmente, la se vai o tempo em que as questões de regime eram objeto de um amplo debate entre os partidos políticos, cada virgula era consensualizada até a exaustão e antes de agendar e votar as mudanças que se pretendiam fazer, as forças políticas efetuavam uma radiografia profunda dos diplomas de modo a garantir um único aspeto: as mudanças propostas tinham de servir único e exclusivamente aos interesses do país e não nenhum interesse egoísta de qualquer partido político. 

Quando assim era, Cabo Verde saia sempre a ganhar.

Hoje, ficou claro, com está governação do MPD, que para se efetuar mudanças estruturais na nossa organização política, mudanças essas que a Constituição obriga os partidos a estarem todos de acordo, é dispensável o debate, a construção de consenso, o aproximar de posições e a defesa dos superiores interesses de Cabo Verde.

Com esta maioria, as mudanças de fundo no sistema político são cozinhadas a socapa, sendo, de um lado, os ingredientes base a arrogância e o autoritarismo e, de outro lado, o ódio, a sede de poder, a sede de vingança e a pobreza de espírito os temperos especiais para um prato cheio de maioria qualificada.

Quando o MPD agendou o seu diploma que cria a regiões administrativas, duas teorias surgiram no seio do grupo parlamentar do PAICV: A primeira era de que o MPD tinha agendado esse diploma com a única intensão de ser chumbado pelo PAICV, pois não tinham ainda discutido e consensualizado suficientemente o assunto com o PAICV e sabiam que precisavam dos votos do PAICV para a sua aprovação, para depois poderem fazer uma ampla campanha contra o PAICV, acusando-o de ser contra a regionalização e assim tirar alguns dividendos políticos imediatos, principalmente na ilha de São Vicente. A segunda teoria que surgiu foi a de que o MPD agendou esse diploma precisamente porque já tinha garantias que teria o número suficiente de votos para sua aprovação.

Confesso que eu era defensor da primeira teoria, pois recusava-me liminarmente a acreditar que Deputados do PAICV dariam uma maioria qualificada aos nossos adversários políticos de sempre. Dizia eu a um camarada mais experiente, que isso era simplesmente impossível, porque por mais divergências internas que possamos ter, nunca que camaradas nossos agiriam de tal forma de modo a, deliberadamente, fragilizar o PAICV e fortalecer o MPD.

Esse camarada me respondeu: “hum, cuidado, fictha corpu bu spera”.

Depois do sentido de voto ser discutido por duas vezes pelo plenário do grupo parlamentar do PAICV, em que apenas um Deputado defendeu que se devia votar a favor do diploma, e esse Deputado não participou da sessão por ter viajado, e que a esmagadora maioria dos Deputados defenderam que o voto devia ser abstenção, eu pensei para comigo mesmo “que o risco de confirmação  da segunda teoria não existe”, porque ninguém informou que iria votar num sentido contrário, tendo todos aceitado a decisão da maioria de votar abstenção.

Quando o diploma foi votado e aprovado, com os dois votos estratégicos dos dois Deputados do PAICV, não havia nenhuma falsidade nos festejos do MPD, esses festejos na sala de sessão eram genuínos, eram festejos de conquista de quem conseguiu comprimir uma missão, de quem teve uma grande vitória. 

Era a confirmação que o MPD queria e estava seguro que o diploma seria aprovado por maioria qualificada e conseguia assim urdir nos corredores aquilo que não conseguiu nas urnas.

Só depois de consumado a votação que consegui perceber o que significava “a votação histórica” que uma Deputada do MPD anunciou dias antes na imprensa em São Vicente e consegui também entender o porquê que dois destacados militantes do PAICV de São Vicente se deslocaram para Cidade da Praia para participarem desse momento “histórico”.

A maioria qualificada já tinha sido muito bem cozinhada.

Logo a seguir a votação começou uma chuva de justificações nas redes sociais, tí­pico de quem está de consciência pesada.

O primeiro grande argumento que começaram a defender, foi o de apontar o dedo a direção da bancada do grupo parlamentar do PAICV, acusando-o de incompetência por não ter “apercebido”que faltavam oito Deputados na sala.

É um bocado estranho ouvir, precisamente, aqueles que saí­ram da sala sem avisar ninguém, acusar a direção da bancada de não ter reparado que eles mesmos tinham saído da sala. Um deles em particular, saiu precisamente antes de fecharem as portas e entrou imediatamente depois da votação, e agora é o principal a apontar o dedo a direção da bancada pela sua ausência. (Vejam o vídeo dessa sessão)

Fica no ar a pergunta se a direção da bancada devia e tinha poderes para mantê-lo na sala a força, mesmo contra sua vontade.

Um outro argumento fortemente defendido por aqueles que se juntaram ao MPD para tentar humilhar o PAICV, foi o de que os Deputados não estão sujeitos a nenhuma disciplina de voto e que cada um deve votar como bem entender, de acordo com a sua consciência, livremente e sem avisar ninguém, pois, uma vez eleito, o Deputado não se deve submeter a nenhum tipo orientação política de nenhum partido.

Eu poderia até fazer um esforço para tentar entender esse argumento se o mesmo viesse de Deputados que nunca tiveram responsabilidades no partido e na direção da bancada do grupo parlamentar do PAICV.

Agora, ouvir esse argumento da parte de Deputados que já foram vices presidentes da bancada, líder da bancada, que na legislatura passada defendiam a disciplina de voto com todas as suas forças (e ai de quem defendesse o contrário), eu não entendo e considero ser uma grande falta de coerência e honestidade política.

Começaram rapidamente a procurar exemplos de Deputados que no passado votaram em sentido contrário a sua bancada, tentando mostrar que isso é “normal”, apontando o dedo em particular a minha pessoa. 

Até parece que o facto desse diploma carecer de uma maioria qualificada para a sua aprovação, não faz diferença nenhuma.

Não tenho agora comigo toda historia da nossa jovem democracia, mas creio que nunca nenhum Deputado, de qualquer uma das bancadas, viabilizou um diploma que exige maioria qualificada, em sentido contrário a votação da sua bancada.

Uma vez que estamos em maré de cada um falar a sua verdade, eu deixo aqui a minha:

Essa crise que temos hoje no PAICV, foi devidamente planeada e orquestrada, porque a quem no PAICV que tem interesse que haja uma profunda crise interna no partido, achando ser esse o melhor caminho para fragilizar e derrubar a atual direção do PAICV, não entendendo, no entanto, que esse caminho só leva a fragilização do próprio partido.

Essa é a verdade.

 

*Opinião expressa através do seu perfil de Facebook 

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