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Ter, Dez

Azáguas neste ano de 2018 e o renovar da esperança no mundo rural agrícola e familiar cabo-verdiano

Opinião
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Que este novo ano de “AZÁGUAS” continue, no mesmo ritmo e moldes, até ao fim do ciclo e que seja sempre igual a boa realidade atmosférica de precipitações pluviais, registadas, em todas as ilhas, que vivemos, desde os primeiros dias de Setembro 2018 até este dia dez de Setembro, segunda-feira, data da redação desta reflexão.

 

É a esperança dos que vivem e esperam que se renova nos nossos agricultores-criadores e suas famílias em todos os cantos e cutelos deste arquipélago e, seguramente, não vão esquecer, facilmente, a má experiência vivida por esta classe do sector primário, como resultante e constrangimento proporcionado pelo “muito mau ano agrícola de 2017”.  

Um episódio quase extremo que mergulhou as famílias rurais cabo-verdianas mais intensamente que os outras dos extractos sociais da população na “crise social” quase que endêmica que afecta e fustiga injustamente a maioria dos cidadãos nestas nove ilhas habitadas.

Pagamos todos, directa ou indirectamente, com a subida (por falta de controle!) de preços de produtos alimentares básicos de primeira necessidade... a realidade socioeconômica vindo da falta de chuva, atingiu duramente os agricultores-criadores que viveram: falências, vendas de seus animais ao desbarato, empobrecimento, desemprego... e felizmente que não ouvimos falar de suicídios...

Entre chuva que vem ou persistência da seca, a realidade climática e geoestratégica que é a nossa, obriga-nos a refletir sobre “que modelo agrícola para Cabo Verde nesta era moderna e em pleno século XXI”. O certo é que a resposta tem de vir de especialistas da área. Mas não é uma aventura, se perguntarmos porquê continuar, sem conseguir bons resultados, nem atingir objetivos, o modelo agrícola tradicional (já cultural)! 

As instituições públicas e governamentais da área, devem orientar as famílias rurais que laboram para a própria sobrevivência, a inovar e abandonar práticas que não criam valores e empobrecem, segundo informações de especialistas, o solo arável e o próprio agricultor que procura solução á questão fundamental, já mais acima mencionada, a da sua própria sobrevivência e saída da situação de pobreza e dependência...

Novas práticas agrícolas, nestas ilhas, deverão garantir a salvaguarda da biodiversidade, proteção do meio ambiente, e implantação de culturas agrícolas que demandam menos água e de resultados cíclicos de curto prazo, criando valor, com impacto na segurança alimentar e insistimos, traduzindo-se em resultados reais, de saída da pobreza.

Constatamos ganhos com a instalação quase generalizada do sistema de rega gota-a-gota, mas os técnicos e profissionais da agricultura devem ir mais longe e posicionar-se mais perto dos agricultores com o objetivo de inverter a rota da fatalidade, herança colonial, e apostar em resultados adequados para se poder transformar, talvez de maneira profunda a agricultura cabo-verdiana, para podermos responder á demanda interna, atingir os novos nichos criados pela indústria turística nacional sobretudo nas ilhas da Boavista e Sal.

O tratamento e reutilização de águas usadas deveria generalizada em todas as ilhas.

O cabo-verdiano actor do seu próprio percurso existencialista de vida, é homem impregnado de cultura e está integrado no seu meio ambiente geográfico e climático, assumindo mudanças de atitudes e transformações no seu quotidiano.  E o residente no campo como o morador da urbe deverá viver em harmonia com e respeitando a natureza e o meio ambiente. Ao agricultor caberá a responsabilidade de praticar uma nova agricultura na ótica de criação de valores, com produtos saudáveis, com o objetivo de se poder alcançar segurança alimentar a toda a população destas ilhas e operando práticas agrícolas que garantam respeito e preservação da nossa biodiversidade. Estamos noutra era, com a cara sempre voltada para a frente e para o progresso. Vamos todos dizer não ao fatalismo e nunca mais,  “...as cabras não irão  ensinar-nos a comer pedras...”. Com mais ou menos chuva temos de garantir produção agrícola local para todos os cidadãos, deixando para trás e tempo de má memória, da irresponsabilidade colonial que deixava os naturais destas boas nove ilhas habitadas perecer vergonhosamente de fome ou a embarcar para o sul, sob a forma de escravatura moderna chamada de “contratados” nas roças de algodão, café e cacau. Tenho familiares que sabem melhor que a minha pessoa o que isso significa.

Todas estas nove ilhas habitadas, são ilhas agrícolas de Santo Antão à Brava. Em São Vicente, há uma boa rede organizada de produtores agropecuários, do Madeiral á Ribeira Vinha, em passando por Calhau e Mato Inglês. A Associação Comunitária da Ribeira Vinha (ACRV) tem brindado os são vicentinos com feiras agrícolas e culturais há já vários anos e festejarão em Outubro próximo mais um aniversário de existência as feiras organizadas no próprio local tem sempre sucesso garantido e é sempre organizado em parceria com associações agrícolas da ilha vizinha de Santo Antão. A ACRV aliou-se também com uma associação agrícola da ilha de São Nicolau que marcará presença nas futuras feiras a realizar-se em São Vicente.

A Feira Agrícola da Ribeira Vinha tem vínculo cultural forte: musica, teatro, dança, exposição e venda de gado caprino, suíno e bovino, exposição de artesanato, venda de produtos agrícolas a preço promocional, serviços de restauração para todos os gostos e bolsos (almoço self-service, pratos a peso, petiscos e fritos, grogue, pontche), exposição de aves e outros animais, sorteios, palestras, etc.

A Feira acontece sempre num domingo, reunindo em bom convívio sãovicentinos, turistas e outros de passagem na ilha, de manhã até ao anoitecer. Aguardamos ansiosamente a reinstalação da Rede de Produtores Agropecuárias Locais de São Vicente (REPAL-SV), que a partir da Central de Actividades, em Cham de Críquete (Mindelo), irá promover de maneira moderna e profissional a concentração, comercialização e distribuição dos produtos agropecuários, agroalimentares ou transformados, retomando o fornecimento de gêneros alimentícios para escolas, hospital, hotéis e fortalecendo a união entre produtores agrícolas e pecuários, com ações e campanhas de formação e capacitação continua dos agricultores de São Vicente. A FICASE sabe muito bem do que estamos falando.

Por José Valdemiro Lopes

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