14
Sex, Dez

Tráfico de seres humanos: não confundir a iniciativa do «Dia» com a resolução dos problemas

Opinião
Tipografia

Tanto quanto sei, a Organização das Nações Unidas declarou 30 de julho como Dia Mundial contra o Tráfico de seres humanos.

 

O tráfico de pessoas, e as vigentes formas de escravatura, são ainda um enorme problema nos nossos dias. Calcula-se que em qualquer momento em que paremos para pensar sobre o assunto, pelo menos 2,5 milhões de pessoas se encontram em situação de escravidão algures no mundo.

O tráfico de pessoas, muitas delas escravizadas em redes de prostituição e afins, mas também em outros «serviços» igualmente de feroz violência contra a dignidade da pessoa humana, é um «negócio» que movimenta, pelo menos, 30 mil milhões de Euros a cada ano que passa. Nas águas do mediterrâneo continuam a repetir-se tragédias sem conta, e por uma razão fundamental: seres humanos transportados como se fossem gado, ou nem isso, são vítimas de agentes mafiosos sem conta, de ações criminosas de uns e, claro, da passividade de outros.

E, como sabemos, não raro perecem no mar. Sabemos de histórias em que redes de criminosos, não raro altamente organizadas, chegam a lançar pessoas borda-fora sempre que isso seja funcional ao objetivo de chegar a algum porto europeu em que o «negócio» possa ser finalizado. As máfias que a cada dia chegam às portas da Europa, ou já circulam dentro dela, são organizações sem escrúpulos e que para todos os efeitos importa combater.

O tráfico de seres humanos é algo de profundamente abjeto, uma obscena agressão à dignidade da pessoa humana. Mas o problema não está nesses criminosos sem escrúpulos apenas; o problema está também em situações sistémicas em que pessoas são exploradas mais ou menos à margem da lei, mas frequentemente com a conivência de quem deveria velar pelo respeito devido à pessoa, imago Dei.

Não penso aqui apenas nas crianças traficadas com o fim de se tornarem «doadores» de órgãos; não me refiro apenas às jovens mulheres feitas escravas sexuais de proxenetas que, socialmente, nem sequer o nome de homens haveriam de merecer; não me refiro aos correios da droga e a outras muitas situações que bradam aos céus; de facto, refiro-me também a trabalhadores sazonais forçados a viver em condições sub-humanas, e sem pagamento adequado ao trabalho que prestam; enfim, refiro-me ainda às crianças e outras pessoas arregimentadas pelas máfias das esmolas em muitas das grandes cidades mundiais.

Em suma, o problema é extraordinariamente preocupante e a sua dimensão bem justifica a iniciativa da ONU ao declarar o dia 30 de julho como dia de luta contra o tráfico de seres humanos em todo o mundo. Apoio a iniciativa; mas também alerto para a importância de não confundir a iniciativa do «Dia» com a resolução dos problemas.

Há muito para fazer e as nações do mundo deveriam unir-se ao mais alto nível em ordem a fazer face de modo coerente, convincente, e concludente, a uma tal praga com dimensão mundial, a do tráfico de pessoas em números que, diz-me quem os conhece, são absolutamente impressionantes.

A ONU tem muitos defeitos; mas mesmo com eles ainda pode fazer algo que nenhuma outra instância está em posição de fazer. Assim, faço votos para que governos e organizações internacionais fundadas no Direito e na visão humanitária continuem, sem rodeios, a afrontar a enorme dimensão que nos nossos dias assume o tráfego de seres humanos, especialmente no que se refere a mulheres e crianças.

 

Opinião de Padre João Vila-Chã, Jesuíta português 

 

 

 

 

 

BLOG COMMENTS POWERED BY DISQUS