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Seg, Jun

Ultrapassar a mentalidade do “parâ n pobu”

Opinião
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Na ilha do Fogo existe uma expressão que os novos, se calhar, já não usam. É a do “parâ, n pobu”. Quando alguém, podendo fazer, nada faz e se limita a receber ou está sempre na atitude de espera para receber, é chamado de “parâ n pobu”. Estás que nem um “parâ n pobu”.

 

Estamos a viver uma seca desoladora, como há muito não se via. O governo anunciou um plano de emergência de mais de oito milhões de euros. Seguiram-se as reacções. Este partido clama por celeridade na implementação do plano. Aquele outro diz que é muito pouco dinheiro. Observadores independentes dizem que está na hora de se institucionalizar um plano de emergência sem esperar que haja uma seca para o organizar.

A verdade é que nós só falamos de seca em períodos de seca. Vem um ano de muita chuva e nem o governo, nem a oposição se lembram de que o ano a seguir poderá ser um ano sem chuvas. 

Em situações de calamidade, o povo é capaz de se comportar ou de ser tratado como um “parâ n pobu”. A política assistencialista é capaz de voltar a fazer escola e as pessoas podem esquecer de que elas próprias podem e devem também buscar uma solução para os seus problemas.

Gosto das páginas do Evangelho em que Jesus, encontrando um paralítico lhe diz: “levanta-te e caminha”. Ou então, “levanta-te e põe-te de pé, aí no meio”. Numa outra ocasião: “queres ficar curado?”. E numa outra ainda: “que queres que eu te faça?” Ou seja, Jesus não quer fazer milagre sem a cooperação da pessoa. Estas têm de participar. 

Lembro-me da Cáritas dos anos 80 e 90, aqui em Cabo Verde. Vínhamos dos tempos do chamado “trabalhos de Apoio”, da década de 70, que a Independência encontrou mas foi difícil de ultrapassar. A Cáritas, estribando-se no Evangelho, ajudou as pessoas a tomarem consciência de que, se queriam sair a pobreza não deviam limitar-se a esperar apoios.

O lema era: pôr o homem e a mulher de pé. As pessoas deviam criar a sua própria actividade e teriam então… apoio. Não se tratava simplesmente de aplicar o ditado “não dar o peixe, mas ensinar a pescar”, porque o apoio aos idosos sem amparo ou aos incapacitados do ponto de vista físico ou mental tinha de continuar, mas era preciso ultrapassar a mentalidade assistencialista que tinha, dum modo geral, tomado conta das mentes.

Em períodos como o que estamos a atravessar, é normal que os partidos da oposição levantem a sua voz para denunciar retardos ou esquecimentos. Mas, ao contactarem as populações para se inteirarem da situação em que se encontram, seria bom que não se limitassem a ouvir queixas, mas despertassem também as pessoas para a necessidade de não esperarem tudo do governo. Isso, em nome da dignidade e dignificação do ser humano.

Que trabalhos vocês gostariam de fazer, caso encontrassem condições para os fazer? Este é o tipo de pergunta que se devia fazer às famílias afectadas pelos males da seca. Aliás, actualmente, impressiona o número de pessoas que já ganharam essa consciência de que é bom não viver na dependência. 

 

Para terminar, lembrar que o Estado tem uma função subsidiária e não a do fomento da mentalidade do “parâ n pobu”.  A doutrina social da Igreja Católica defende esse princípio que coincide com o que eu li numa das edições do jornal “Público”: “O que diz o princípio da subsidiariedade? Diz uma coisa muito equilibrada e sensata. Em primeiro lugar, diz que o Estado deve fazer, para satisfazer as necessidades fundamentais da comunidade (liberdade, segurança, justiça, solidariedade, bem-estar), tudo quanto os cidadãos, só por si, individual ou colectivamente (sociedade civil) não são capazes de fazer.

O Estado aparece, neste sentido, como um serviço necessário, indispensável, insubstituível. Em segundo lugar, o princípio da subsidiariedade diz, logicamente, que o Estado não deve fazer nada que os cidadãos sejam capazes de fazer (por si, ou com apenas um apoio do Estado). Evidentemente, nesta hipótese, não é necessário que o Estado se substitua aos cidadãos, retirando-lhes iniciativa, liberdade, responsabilidade.

Mais do que dispensável, a intervenção do Estado é aqui ilegítima e tem efeitos perversos, pois combate contra a vida própria da sociedade civil, e aliena as liberdades individuais que tem o dever de garantir e promover. (Mário Pinto na edição do jornal “Público” de 12 de Fevereiro de 2001).

 

Por António Fidalgo de Barros 

 

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