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Sab, Abr

Pandemia, violência e religião: o tripé da visita do papa ao Iraque

Igreja
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 Em visita de três dias ao país do Oriente Médio, Francisco encara o desafio da pandemia, da violência e da construção de pontes com o Islão. 

 

O Papa Francisco deu início ontem, sexta-feira (5), a uma visita de três dias ao Iraque. A deslocação é considerada a mais arriscada desde que ele assumiu, em 2013, o cargo de autoridade máxima para o 1,3 bilhão de fiéis da Igreja Católica em todo o mundo.

O risco dessa viagem repousa num tripé. Dois dos fatores representam ameaças diretas à segurança do papa e dos fiéis que o acompanham: a pandemia da covid-19 e a violência armada na região.

O terceiro representa um risco mais complexo. Ele está ligado à própria tentativa do sumo pontífice de estabelecer pontes de contato com o mundo islâmico. A oposição ao mundo cristão ocidental é base do discurso de muitos grupos terroristas originados no Oriente Médio, como o Estado Islâmico, que alegam agir sob preceitos muçulmanos, ainda que isso seja rechaçado por líderes influentes dessa religião.

O sucesso da empreitada de Francisco deve elevar seu pontificado a um novo patamar. Seus dois antecessores, o Papa João Paulo 2º e o Papa Bento 16, quiseram fazer essa mesma viagem, mas terminaram seus pontificados sem realizar esse desejo.

O risco da pandemia

O papa não faz viagens internacionais desde que regressou do Japão, em novembro de 2019. Ele chega ao Iraque num momento sanitário complicado. Francisco tem 84 anos e já foi vacinado, mas a maioria dos iraquianos, não.

O país registra 4.000 novas contaminações por dia. No dia da chegada do Papa a Bagdad, o Iraque somava 33,58 mortos por grupos de 100 mil habitantes. São 13.507 mortes no total, e quase 714 mil contaminados. O número não está entre os mais altos, mas o sistema de saúde pode facilmente ficar sobrecarregado. O investimento per capita em saúde no Iraque é de US$ 239. Além disso, não há dados conhecidos sobre o andamento da vacinação no Iraque.

O núncio apostólico (embaixador do Vaticano) em Bagdad, Mitja Leskovar, que organizou os detalhes da visita, foi contaminado dias antes da chegada de Francisco. No domingo (7), o papa fará missa num estádio de Erbil que tem capacidade para 28 mil pessoas. Dez mil convites foram distribuídos.

As aglomerações aumentam o risco de contaminação. O governo iraquiano pediu que não haja celebrações que reúnam muitas pessoas. O próprio Papa deve se deslocar em veículo fechado.

O risco da violência

O Papa chega num momento de recrudescimento da violência no Iraque. Um duplo atentado reivindicado pelo grupo terrorista Estado Islâmico deixou 32 mortos num mercado de Bagdá no dia 21 de janeiro. Esse foi o ataque mais mortífero em três anos no país.

Nas últimas semanas, morteiros foram disparados contra a base aérea de Aïn Al-Assad, usada pelos americanos. Por precaução, Francisco deve se deslocar dentro de um veículo blindado.

O atual primeiro-ministro, Mustafa Al-Kadhimi, assumiu o posto há apenas nove meses. As próximas eleições nacionais estavam marcadas para junho, mas, em janeiro, foram postergadas para 10 de outubro.

A antecipação das eleições era uma das principais demandas dos manifestantes que saíram às ruas do país entre o fim de 2019 e o começo de 2020, quando pelo menos 600 pessoas foram mortas em confrontos com a polícia.

O risco da religião

A visita é dirigida prioritariamente aos católicos perseguidos no Oriente Médio, mas não só. O papa busca também estender pontes de diálogo inter-religioso com autoridades muçulmanas.

No sábado (6), ele deve se encontrar com o aiatolá Ali Al-Sistani, maior autoridade do mundo xiita, ramo ao qual pertence 60% da população iraquiana e 16% de todos os muçulmanos do mundo.

Antes, Francisco já havia mantido encontros com o líder sunita Ahmed Al-Tayeb, que representa o ramo majoritário da religião. Em novembro de 2014, num encontro com o presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, o Papa mandou uma mensagem direta: “Seria bom que todos os líderes muçulmanos – políticos, religiosos e universitários – falassem claramente e condenassem esses atos [de terrorismo], porque isso ajudaria a maioria do povo muçulmano a dizer ‘não’”.

Francisco já se encontrou pelo menos três vezes com o líder sunita Al-Tayeb – no Cairo, no Vaticano e em Abu Dhabi – mas esta será a primeira vez que ele tem contato com o líder xiita Al-Sistani.

 

(Com informações de Agências Católicas)

 

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