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Ter, Jan

Eugénio Inocêncio lança o seu livro “Depois das Mangas vêm os Abacates”

Cultura
Tipografia

No próximo dia 10 de janeiro em Lisboa, na sede da Associação Cabo-verdiana,  Eugénio Inocêncio fará o lançamento do seu novo livro - Depois das Mangas vêm os Abacates. 

Segundo o autor o livro é uma homenagem aos seus próprios antepassados escravos. 

“A superação da escravatura começa por ação do escravo, enquanto escravo. Esta superação é a matriz da construção da nossa cultura crioula e humanista. Poderia eu próprio ser feito escravo hoje, neste momento. Ficaria limitado na minha liberdade, mas ontologicamente seria a mesma pessoa. E a superação dessa minha condição começaria imediatamente.  É uma das características da humanidade”, escreve o autor numa nota que o Terra Nova teve acesso.  

Inocêncio considera que “para dar corpo a este desafio, na sua forma, hesitei entre uma tragédia e um drama. Optei pelo drama crioulo”.  

A história decorre na Cidade Velha, ilha de Santiago, no século XVIII, em 1726.

O enquadramento histórico

Em 1724, a ilha de Santo Antão foi arrendada, pelo seu donatário, a mercadores ingleses, por um período de 27 anos. A Coroa portuguesa viria a denunciar o contrato assinado entre o donatário e os referidos mercadores, por temer a ocupação da ilha, bem como da vizinha ilha de S. Vicente, pelos ingleses. Estas duas ilhas poderiam vir a desempenhar o mesmo papel que a ilha de Santiago tão eficientemente desempenhava, na globalização do mundo, pondo em perigo os interesses da Coroa portuguesa. 

Em 1726, era Governador de Cabo Verde Francisco Manuel da Nóbrega e Vasconcelos (recém-empossado), em Conselho de Guerra, foi decidido «…que vá logo uma embarcação a dita ilha de Santo Antão, ao referido efeito de dar-se a execução a ordem real e evitar com a brevidade desta diligência maiores danos que se podem seguir, se os ingleses meterem nesta ilha famílias inglesas e fazerem fortificações e montarem artilharias…» «… por se temer a ocupação da ilha e a de S. Vicente, vizinha de Santo Antão, a qual não era ainda habitada, mas já possuidora de um porto muito cómodo e abrigado, com ancoradouro capaz de receber grande número de navios… portanto poderiam estas ilhas servir de base de apoio para os ingleses … se fazerem inteiramente senhores do comércio das Costas da Guiné e Minas…».  

Alguns excertos da narrativa

«(...) Nesse dia, João S. e os demais participantes ouviram Sólido Seguro dizer o seguinte: 

Ouvi! Ouvi!

Às mangas sucedem-se os abacates, 

São diferentes! Nem melhores nem piores! Nem piores nem melhores! 

São diferentes e são a chave da alma; tornam longa a curta vida. 

Com sabores opostos permitem pesar ou medir, tanto faz, o suspiro que nos mantém.

O que nos aconselha a dizer: São melhores, porque diferentes! 

Ah! É assim, neste quintal! 

Ouvi! Ouvi! 

Evitai a dúzia, o alqueire e o moio, Porque a seguir à dúzia, vem a dízima, que mata e esfarela. 

Evitai tudo o que puderdes evitar, naquilo que os dedos contam.

[...] 

João S. desprendeu-se do encanto criado por Sólido Seguro e resolveu continuar a sua caminhada em direção à Estalagem Rossio e, ensimesmado, afastou-se, deixando a turba buliçosa e ávida das palavras de Sólido Seguro ou dos outros mistérios do Pelourinho. 

Reteve, do Açoite do dia, a ideia de que às mangas se sucedem os abacates e que estes nem eram melhores nem piores. Apenas diferentes. Haveria, na ilha de Santo Antão, tais frutos? A uma tão grande distância, de dezoito dias de viagem, continuaria a haver condições para se darem tão bem como na ilha de Santiago? 

João S. tivera já, por diversas ocasiões, o privilégio de visitar, em serviço de segurança, navios aportados à cidade, e vira frutos de outros continentes que, muitos, não se tinham adaptado à ilha de Santiago. Autoridades locais e particulares, como ele, haviam tentado fazer a sua cultura, sem sucesso. Contudo, muitos havia, que resultaram. Talvez as mangas e os abacates estivessem nesta categoria e resultassem em todos os sítios. 

E ele, João S., resultaria, em tão distante território? Sentiu-se muito pequeno e encolheu-se mais do que a norma impunha. Um frio intenso, vindo de dentro e do mais longínquo exterior percorreu-o e sentiu-se, a um tempo, vulnerável e conquistador do insondável e do desconhecido. Sentiu-se conquistador, mas diferente de todos os que antes dele, temerários, haviam enfrentado o acaso. 

Sabia e sentia, com muita força, que o seu lugar era único e aguardava-o, ansioso e reservado, para partilhar segredos que só a ele se revelariam. Um lugar, nem melhor nem pior, como dizia Sólido Seguro, por isso, o melhor de todos, o seu lugar. Diferente. 

Estugou o passo, como se estivesse a pressionar a decisão que deveria tomar e apercebeu-se de uma personagem, à sua frente, que respondia pelo nome de Fépu e que parecia orientar-se para o mesmo destino.  

Fépu era uma das figuras mais conhecidas da cidade e, quiçá, do território. Não poucos eram os viajantes que, à chegada ao território, perguntavam, ansiosos, pelo Escravo das Três Cabeças, querendo referir-se a Fépu. Com os mais variados estados de espírito: para uns, proveniente da mágica que governava o mundo, para outros, da mitologia que mergulhava no passado mais longínquo, para outros, ainda, numa interpretação física e literal, no encalço de mais um ser especial, escondido nesta nova fronteira do insondável planeta. Fépu era o resultado de uma transação de escravos, no continente, que correra mal.»

 

TN - Redação

 

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