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Dom, Set

“Sou feliz a escrever poemas”: Margarida Fontes sobre ‘Confidências do Tempo’, o seu novo livro de poemas

Cultura
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Depois de lançar em 2014 o “De Lírios”, a jornalista Margarida Fontes acaba de dar á estampa o seu segundo livro de poesias “Confidências do Tempo” editado pela Livraria Pedro Cardoso.

Ao Terra Nova a poetisa falou sobre esse novo livro que considera uma obra “com princípio, meio e fim” e que revela “uma mulher forte, mas que não esconde as suas fragilidades perante as contradições do tempo”. Confira a entrevista: 

“Confidências do Tempo” é  sua segunda obra poética. Que Margarida Fontes encontramos nesta segunda obra?

A mesma Margarida Fontes (risos), mas com uma poesia mais madura, versos mais libertos e seguros. Versos que ousam desafiar o tempo, a sua lógica, os seus propósitos, as suas regras, e estabelecer as suas próprias gramáticas existenciais. Penso que ler este livro é encarar o tempo, numa perspectiva bastante feminina.

Quais são as características mais marcantes do conjunto de poemas presente em “confidências do Tempo”?

É um livro com princípio, meio e fim, e está dividido em seis partes. Uma obra fechada, o que dá algum trabalho fazer em poesia. Mostra, a abrir, uma mulher forte, mas que não esconde as suas fragilidades perante as contradições do tempo. Um dia temos uma coisa, outro dia não a temos, hoje somos felizes, amanhã choramos, o ir e vir constante. Uma mulher que encara a vida como uma viagem, e um belo dia faz um balanço da transformação que isso causou nela. Os poemas retratam os lugares, as pessoas, e os sentimentos dessa viagem.

O que lhe inspira enquanto poetisa? Coisas concretas ou deixa-se viajar pela imaginação?  

Sou uma observadora atenta e reflexiva. Reflito sobre os lugares, as pessoas, o amor, a desilusão, a esperança. A natureza humana é o leitmotiv da minha poesia. Parto sempre da existência, para a retratar como ela é ou para escrever sobre aquilo que poderia ser. Reflito muito antes de escrever. Tudo me inspira, quando me toca. Mas as coisas têm de me tocar antes. Quando me tocam, ficam em mim, como uma tatuagem, e um dia escrevo sobre elas.

Margarida também é jornalista. Que relação existe, ou não, entre a sua poesia e esse mundo das imagens e (in)formações, entre seus poemas e elementos da linguagem televisiva? 

O jornalismo que mais pratico, o televisivo, é plástico, vivo, e eu sou, antes de tudo, uma repórter, alguém que gosta de contar histórias, de pegar em vários elementos e montar uma narrativa. Preocupo-me com a estética até quando faço uma notícia: quero que seja curta, com boas imagens, boas declarações. Os meus documentários (um outro formato que prezo muito) sempre vão beber na poesia. Há diferenças óbvias entre o jornalismo e a literatura, mas tento aproximar essas áreas, sempre que possível. Por outro lado, também sou muito racional e objectiva, quando o assunto e a abordagem assim o exigem. Mudo de registo, sem dificuldade.

Se alguém tivesse tempo de ler só três poemas do seu livro, quais recomendaria? 

Este é um pedido complicado. Mas recomendaria o primeiro poema “Mulher a todo o instante”, e particularmente para este jornal, sugeria também “Ode aos versos” que é uma homenagem ao nosso saudoso Padre Camilo Torassa. O terceiro, seria “Divino verbo”, um poema desafiador.

É a sua segunda obra poética. Já pensou em escrever em prosas?

Todos me fazem esta pergunta. Sou feliz a escrever poemas, mas sinto-me, sim, muito desafiada a dividir a minha estrada com a prosa, e será prosa poética. Um caminho natural, creio. Tenho muita coisa escrita (contos, principalmente), e há um daqueles contos, particularmente, que tem cara de romance. (risos)

 

 

Divino verbo

Me julgue pela astúcia

Me torture pelo pecado da ira

Me condene à morte 

 

Nem o feitiço do templo de vossa majestade 

Me fará mudar

Recuso qualquer guia

Daqui não saio 

 

Os meus versos irão por mim

Hão-de beijar a face de Deus 

E reinar no mundo dos verbos

 

Me amaldiçoe pela blasfémia 

Mas um dia 

Estes punhais em palavra serão

O próprio Deus.

 

Julgue-me por servir a 

Tantos senhores 

E não ser fiel 

A nenhum deles.

 

Destruirei com as mesmas armas

Os meus próprios versos 

E serei eu a divindade!

(Margarida Fontes)

 

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