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Sab, Set

Por que o nome de um novo museu em Lisboa impede a sua abertura

Cultura
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Instituição dedicada à memória da expansão colonial do país, que ainda não saiu do papel, foi proposta em 2017.

 

A construção de um Museu dos Descobrimentos em Lisboa, dedicado à memória do período imperial português, foi uma promessa de campanha de Fernando Medina, presidente da câmara municipal da cidade desde 2017. 

No programa da candidatura de Medina, o projeto é descrito como uma “estrutura polinucleada na cidade que inclua alguns espaços/museus já existentes e outros a criar de novo, e que promova a reflexão sobre aquele período histórico [da expansão colonial portuguesa] nas suas múltiplas abordagens, de natureza económica, científica, cultural, nos seus aspectos mais e menos positivos, incluindo um núcleo dedicado à temática da escravatura.” 

A construção do museu, que ainda não saiu do papel, tem sido criticada por historiadores, agentes culturais, cientistas sociais e intelectuais negros do país. Centenas de pessoas colocaram seus nomes em diferentes abaixo-assinados contra a possibilidade de Lisboa vir a abrigar o museu. 

Mesmo prevendo uma abordagem do período que inclui a escravidão, a futura instituição é contestada pelo nome que pode vir a receber. 

Numa carta aberta, abaixo-assinada, publicada em abril de 2018 pelo jornal português Expresso, académicos especializados na história do império português defendem que a designação de “museu das descobertas” ou “dos descobrimentos” cristaliza uma incorreção histórica: refere-se apenas à percepção da realidade do ponto de vista dos povos europeus, excluindo a visão de outros povos envolvidos.

 

“Ter-se-ão os povos africanos, asiáticos e americanos, de histórias milenares, sentido 'descobertos' pelos portugueses? E como se sentirão hoje as populações oriundas desses territórios ao visitarem um espaço museológico que priva os seus antepassados de iniciativa histórica, reduzindo-os ao papel de objeto da ação descobridora, muitas vezes violenta, dos portugueses?” 

Carta aberta de académicos

Divulgada em abril de 2018

Publicado em 22 de junho pelo jornal português Público, um outro texto de protesto, assinado por cem pessoas negras, argumenta que o futuro museu “pretende manter a narrativa de glorificação da empresa colonial”, colocando-se contra a população negra de Portugal. 

O artigo questiona que o período colonial seja o referencial máximo do apogeu do país e que continue servindo “para a construção da identidade nacional contemporânea, que nele bebe a sua heroicidade”. 

O Terra Nova reproduz abaixo um trecho do artigo. 

“Elevar a ‘autoestima’ nacional quer através da veiculação de uma história facciosa e que omite parte relevante da verdade histórica, quer pela edificação comemorativa de estátuas, monumentos e museus celebradores do colonialismo e da ideologia colonial, merece toda a nossa contestação. Pois um dos efeitos imediatos do cultivar da ‘magia’ da época colonial é exatamente o alimentar do racismo histórico e estrutural e o prolongar das hierarquias de controle e repressão para com as comunidades negras no país, como o testemunham as violências policiais sistemáticas e a segregação de que somos vítimas. É intolerável (...) que o orgulho nacional seja construído à custa das feridas e da dignidade dos nossos antepassados, eternamente cativos no lugar do subalterno na narrativa oficial.”

Propostas 

A comunidade negra em Portugal exige da Câmara Municipal de Lisboa a criação de um memorial de homenagem às pessoas escravizadas, “um Museu do Colonialismo, da Escravatura ou da Resistência Negra, que descortine os aspectos essenciais e até aqui secundarizados daquilo que foram os reais impactos da empresa colonial de Portugal no mundo, suas consequências no presente e daquilo que foram os reais contributos das pessoas negras na resistência a esse sistema”. 

“Na última década, muitos museus, em vários lugares do mundo, têm sido espaços determinantes nas novas formas de pensar a história, quer através das suas instalações permanentes, quer através de exposições temporárias”, diz também a carta aberta escrita por académicos, que destacam, entre instituições desse tipo, o brasileiro Museu Afro Brasil. 

Para os académicos signatários da carta, encontrar outro nome para o museu em questão “não deixará de produzir resultados melhores do que o uso de uma expressão obsoleta, incorreta, e carregada de sentidos equívocos”. 

Apesar de acreditarem que a mudança de título pode sanar a questão, a alternativa de chamá-lo Museu da Interculturalidade de Origem Portuguesa, possibilidade levantada pela deputada socialista Matilde Sousa Franco, também lhes parece problemática.

 “A esta também subjaz uma narrativa sobre o passado português que peca por uma boa dose de mitificação”, escreveram. “Os portugueses dos séculos 15 a 18 – bem como os dos séculos 19 e 20 –nem sempre foram paladinos do diálogo intercultural. Muito frequentemente foram o contrário disto. Como se pode ver, a questão não é apenas a do nome, mas aquilo que o nome representa enquanto projeto ideológico.” 

Divisão 

Na academia, nem todos são favoráveis à revisão do termo “descobrir” e derivados para tratar da expansão marítima portuguesa. O tema divide pesquisadores de diferentes disciplinas e clivagens ideológicas. 

Em entrevista ao jornal português O Jornal Econômico, o politólogo Jaime Nogueira Pinto defendeu que “quando se faz em Portugal, em Lisboa, um ‘Museu das Descobertas’, deve precisamente pensar-se no que para nós, portugueses, e no que para os europeus foi o encontro com esses novos mundos. Foi uma ‘descoberta’. Os outros farão os seus museus”. 

Acredito que o termo ‘descobrimentos’ possa atualmente ser considerado por muitos como inadequado por possuir conotação colonial. Eu não a sinto, mas respeito quem sinta de outra forma e, por isso, aceito que talvez seja melhor encontrar terminologia mais pacificadora”, disse o presidente europeu do Conselho Internacional de Museus, Luís Raposo, ao Jornal Econômico.

 

TN - Redação (com informações da Nexo, JE, Expresso, Público)

 

 

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