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Seg, Mai

A disputa entre Itália e França nos 500 anos da morte de Da Vinci

Cultura
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Museu do Louvre planeava exposição com ‘o maior número de obras possível’. Para a subsecretária do Patrimônio Cultural italiano, franceses fazem ‘supermercado’ cultural 

 

A 2 de maio de 2019, a morte do pintor italiano Leonardo Da Vinci completa 500 anos. Leonardo Di Ser Piero Da Vinci nasceu em 1452, nos arredores de Florença, na Itália. E morreu na cidade de Amboise, na região do Vale do Loire, na França.

Em homenagem a ele, o museu parisiense Louvre planeava uma grande exposição para o ano e contava com o empréstimo de obras de museus italianos. O objetivo do diretor do Louvre, Jean-Luc Martinez, era “unir o maior número [possível] de obras de Leonardo” na exposição. As expectativas, porém, foram postas em xeque com o posicionamento da  subsecretária italiana do Ministério do Património Cultural e Atividades, Lucia Borgonzoni, que vê a iniciativa francesa como uma “falta de respeito”. Ela também afirmou que, ao pedir as obras emprestadas, a França tratou a Itália como um “supermercado” cultural.

Borgonzoni é do partido de extrema direita italiano Liga, do qual o vice-primeiro ministro e ministro do Interior Matteo Salvini é líder. A Liga tem um viés ultranacionalista e, a partir de uma coligação com o partido também antissistema Movimento 5 Estrelas, conquistou a maioria dos votos nas eleições parlamentares de março de 2018.

A subsecretária disse que busca revigorar o orgulho cultural italiano e que se preocupa que uma exposição sobre Da Vinci em Paris vá ofuscar eventuais celebrações italianas – que, por sua vez, não estão sendo organizadas em porte similar – ao atrair turistas e estudantes para a França e contribuir para a noção não-difundida de que Da Vinci era francês.

O futuro do empréstimo das obras, porém, é incerto. Há informações de que um acordo foi firmado entre o então governo de centro-esquerda italiano e o Louvre em 2017. Mas, com os pronunciamentos de Borgonzoni, surgiram controvérsias sobre a efetividade do acordo, que obras serão de fato enviadas ao Louvre e quais museus italianos são adeptos dos empréstimos.

A única grande obra de Da Vinci que está confirmada por ora é o quadro Cabeça de Mulher, que hoje está na Galeria Nacional de Parma, na Itália. As negociações até então Já em 2015, na expectativa de uma reciprocidade futura, o Louvre contribuiu com duas obras de Da Vinci para uma exposição em Milão.

O Louvre também agendou sua exposição de Da Vinci para outubro de 2019, cerca de cinco meses depois da data oficial da morte do pintor, para dar aos museus italianos a oportunidade de sediar eventos em homenagem à data no início do ano. Desenvolveu-se, então, uma relação de cooperação entre a França e o governo de centro-esquerda italiano anterior ao atual, cujo ministro da Cultura era Dario Franceschini.

Segundo o jornal francês Le Monde e a agência de notícias francesa France-Press, em 2017, um acordo foi firmado entre o governo italiano e o Louvre. Nele, o museu francês solicitou todas as pinturas e os desenhos de Da Vinci de propriedade do Estado italiano. A única exceção seria a obra Adoração dos Magos, que está no museu Uffizi, em Florença, por uma questão de conservação. Em contrapartida, o Louvre emprestaria obras do pintor renascentista Rafael, cuja morte completará 500 anos em 2020, ao museu Scuderie Del Quirinale, em Roma.

Franceschini, quando em atividade, enfatizou a importância da exposição de Rafael e a intenção italiana de “colaborar ativamente” com o Louvre e não competir com ele. Entre as 15 obras de Da Vinci que sobreviveram ao longo dos anos, cinco são do Louvre, incluindo a Mona Lisa, sua obra de maior prestígio. Em comparação a todos os museus no mundo, o Louvre é o que mais concentra obras de Da Vinci. Inicialmente, segundo a Rádio França Internacional, as obras que deveriam ser emprestadas da Itália ao Louvre são os quadros Cabeça de Mulher, O Músico, Anunciação, e os desenhos Homem Vitruviano, da Batalha de Anghiari, além do Código Atlântico – um conjunto de 1.119 desenhos e notas em que Da Vinci aborda diversos temas, desde pesquisas matemáticas e projetos de engenharia até meditações filosóficas, fábulas e receitas gastronômicas.

Porém, segundo reportagem publicada em 27 de dezembro de 2018 pelo jornal americano The New York Times, não está claro como foi realizado o diálogo entre o Ministério da Cultura da Itália do governo anterior e os museus italianos que detém as obras. O jornal americano põe em dúvida, inclusive, a existência do acordo.

A então diretora do museu Galeria da Academia, de Veneza, por exemplo, concordou com o empréstimo de seis desenhos ao Louvre, mas afirmou ao jornal que os curadores do museu não são a favor de ceder o Homem Vitruviano. O diretor do Uffizi Eike Schmidt disse que não houve consenso e que a dimensão política da negociação, em vez de um acordo de museu para museu, é extremamente rara para empréstimos do tipo.

A afirmação de Schmidt evidencia um momento atípico nas relações internacionais italianas. Com a mudança de governo, a ascensão da Liga e do Movimento 5 Estrelas ao poder e as declarações de Borgonzoni, é incerto afirmar qual o futuro dos empréstimos das obras ao Louvre. 

As tensões diplomáticas já existentes

Do lado francês, segundo o jornal Le Monde, tem-se evitado atos oficiais e esperado que “as boas relações” entre as direções dos museus permitam encontrar uma solução para que pelo menos algumas das obras hoje em solo italiano façam parte da exposição.

Mas a solução silenciosa encontrada pela França à princípio não condiz com as já tensas relações diplomáticas que desenvolveu com a Itália em 2018. Em junho, o presidente francês Emmanuel Macron e o ministro do Interior Matteo Salvini protagonizaram um embate público em torno do tema da imigração, após a Itália ter recusado receber a embarcação Aquarius, que tinha 630 imigrantes a bordo.

Na ocasião, Macron afirmou que a política imigratória da Itália como “cínica” e “irresponsável”, enquanto Salvini se referiu a posturas como a do presidente francês como “hipócritas”. O episódio levou a consequências concretas, como o cancelamento de um encontro entre os ministros da Economia dos dois países.

Apesar do acirramento das diferenças entre os países vizinhos, há um certo esforço diplomático por parte da França devido ao seu posicionamento pró-União Europeia. Os partidos ultranacionalistas como a Liga de Salvini e Borgonzoni criticam a convivência entre os países do bloco europeu, comprometendo a estabilidade e até mesmo a existência futura do bloco.

A ofensiva italiana em relação aos empréstimos de Da Vinci para o Louvre vem pouco antes das eleições para o Parlamento Europeu, que ocorrerão em maio. E afirmar seus ideais nacionalistas nesse momento é interessante para o partido, mesmo que por meio da cultura.

Quem foi Leonardo Da Vinci

Leonardo Di Ser Piero Da Vinci nasceu em 1452, em Anchiano, nos arredores de Florença. Naquela época, a Itália era fragmentada e consistia em vários reinos e cidades-Estado.

A Itália só foi unificada em 1861, séculos depois da morte de Da Vinci, que faleceu em 2 de maio de 1519, em Amboise, na França. Da Vinci era um polímata, ou seja, não tinha conhecimentos restritos a uma só área do saber – o que era uma característica desejável e presente no Renascimento, período em que viveu.

Além de seu renome como pintor, ele se destacou como cientista, matemático, engenheiro, anatomista, escultor, arquiteto, botânico, poeta e músico. Da Vinci também é conhecido como o precursor da aviação e da balística.

A polêmica entre França e Itália em relação a Da Vinci é antiga. Há historiadores que afirmam que ele deixou a Itália por se sentir incompreendido, tendo escolhido viver seus três últimos anos de vida na França. E, apesar de ter pintado a Mona Lisa na Itália, ele levou o quadro para a França e o vendeu para o rei francês Francisco 1º de Orleans, em 1516.

Em 1911, a Mona Lisa foi roubada pelo italiano Vincenzo Peruggia que, à época, afirmou tê-la furtado por patriotismo.

 

 

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