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Por que acabar com as suas redes sociais, segundo este autor

Arte e tecnologia
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Jaron Lanier, cientista da computação entrevistado no documentário ‘O dilema das redes’, é autor de livro que critica as plataformas digitais.

Você deve acabar com as suas redes sociais. Agora. É o que diz Jaron Lanier, cientista da computação, membro da equipa de pesquisas de inovações da Microsoft, pesquisador na Universidade do Sul da Califórnia e um dos entrevistados do documentário “O dilema das redes”, lançado pela Netflix no dia 9 de setembro e um dos títulos mais vistos na plataforma desde então.

Em 2018, Lanier lançou o livro “10 argumentos para você deletar agora suas redes sociais”. 

Desde o início de sua carreira, na década de 1980, Lanier se coloca como alguém preocupado com as possíveis consequências negativas do amplo uso das tecnologias nas sociedades. Para ele, as redes sociais podem ser comparadas com drogas de efeitos devastadores.

Abaixo, o Terra Nova apresenta os principais pontos do livro “10 argumentos para você deletar agora suas redes sociais”.

1. Retomar o controle

Logo na introdução do livro, Lanier apresenta uma metáfora envolvendo cães e gatos.

Segundo ele, os cachorros podem ser facilmente adestrados para responder a certos tipos de estímulos, enquanto os gatos, na maioria das vezes, não respondem aos comandos de seus tutores e fazem aquilo que bem entender.

Lanier afirma que o livro tem como objetivo fazer com que as pessoas sejam mais como os gatos em suas relações com a tecnologia. “Como permanecer independente em um mundo onde você está sob vigilância contínua e é constantemente estimulado por algoritmos operados por algumas das corporações mais ricas da história? [...] Como ser um gato, apesar de tudo isso?”, questiona.

2. Retomar a liberdade

Para Lanier, as mídias sociais são uma gaiola que acompanha os usuários onde quer que eles vão.

Segundo o autor, a lógica dos algoritmos das redes reduz o livre arbítrio do usuário. A plataformas coletam dados pessoais e municiam os anunciantes com informações para construir propagandas individualizadas, das quais é muito difícil fugir.

“O que antes podia ser chamado de propaganda deve agora ser entendido como uma modificação de comportamento permanente e em escala gigantesca”, afirma.

Lanier argumenta que um dos benefícios de acabar com as redes sociais é retomar a própria liberdade de escolha e não se submeter às estratégias de negócios de grandes corporações. Estratégias que se aproveitam de vulnerabilidades psicológicas inerentes a todos nós, e que são estruturadas para viciar os usuários.

“Os danos à sociedade ocorrem porque o vício enlouquece as pessoas. O viciado vai perdendo gradualmente o contato com o mundo e as pessoas reais. Quando muitos estão viciados em esquemas manipuladores, o mundo fica obscuro e louco”, diz.

3. Retomar o debate político saudável

“As redes sociais estão a tornar-lhe um babaca”, diz Lanier na introdução do terceiro capítulo do livro.

Nesse trecho, ele argumenta que a forma com que as redes são construídas – com algoritmos que valorizam as publicações que estão a ser mais comentadas e partilhadas – faz com que conteúdos que gerem algum tipo de indignação sejam mais difundidos.

Isso, por sua vez, faz com que os usuários desenvolvam “uma arrogância, um fetiche pelo exagero”.

Seis capítulos depois, essa análise é retomada para falar de política. Citando o exemplo da Primavera Árabe, ele diz:

“O que as redes sociais fizeram na época, e o que sempre fazem, foi criar ilusões: de que é possível melhorar a sociedade apenas pela vontade; de que as pessoas mais sãs serão favorecidas em disputas difíceis; e de que, de algum modo, o bem-estar material simplesmente surgirá”.

O autor afirma que as grandes empresas do Vale do Silício não se importam em promover um debate político saudável, já que ganham mais dinheiro quando os usuários estão “irritados, obcecados, divididos e com raiva”, já que nesse estado, se engajam mais com a plataforma, juntando mais dados que podem ser repassados pelos anunciantes.

Para Lanier, é impossível se fazer boa política ou se discutir política de maneira saudável nas redes, já que a própria lógica dos algoritmos faz com que opiniões – mesmo que sem embasamento – sejam mais valorizadas do que fatos.

4. Melhorar a saúde mental

“As redes sociais deixam-lhe infeliz”, diz Lanier na abertura do sétimo capítulo.

O marketing das plataformas diz que o mundo ficou mais conectado. Na verdade, argumenta o autor, as pessoas se sentem cada vez mais isoladas – como apontou uma pesquisa publicada em 2018 pela Revista de Medicina Preventiva dos EUA, que descobriu que pessoas que passam mais tempo nas redes são duas vezes mais suscetíveis a se sentirem mais isoladas e solitárias.

Para Lanier, as tendências que surgem nas redes formam ondas de homogeneização nos conteúdos publicados, bem como um ambiente onde usuários julgam uns aos outros. Essa seria a fonte da infelicidade propiciada pelas plataformas.

“Como encontrar felicidade sem uma autoestima autêntica? Como ser autêntico se tudo o que você lê, diz ou faz está alimentando uma máquina de julgamento?”, questiona.

 

TN com Nexo

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