17
Sab, Abr

250 anos de Beethoven: Qual a história da Nona Sinfonia

Música
Tipografia

Escrita em momento dramático da vida do compositor, peça inovou ao dar o mesmo destaque a vozes e instrumentos.

 

Uma das músicas eruditas mais populares e importantes do ocidente, a “Sinfonia n° 9, em ré menor, Op. 125”, ou, como é mais conhecida, a “Nona Sinfonia”, de Ludwig van Beethoven, foi a última obra do tipo completada pelo compositor.

Considerada uma obra-prima, ela marca não só a transição do período clássico ao período romântico, mas a conturbada carreira do músico, cujos 250 anos de nascimento são comemorados nesta quinta-feira (17). “Nenhuma obra do repertório clássico é mais conhecida que ela”, escreveu Arthur Nestrovsky, diretor artístico da Osesp, no Nexo.

O caminho até a ‘Nona’

Nascido em Bonn, na Alemanha, e batizado no dia 17 de dezembro de 1770, Beethoven compôs suas primeiras peças aos 11 anos. Após a morte da mãe e das dificuldades financeiras vividas com o pai alcoólatra, ele se muda para Viena, na Áustria. Lá, estuda com Joseph Haydn, um dos maiores compositores do período clássico.

Beethoven começou a sentir problemas auditivos quando morava na capital austríaca, em 1796, aos 26 anos. Recebeu o diagnóstico de “congestão dos centros auditivos internos”, que foi lentamente encaminhando-o à surdez. Os tratamentos dolorosos e ineficazes e a crise criativa que sofreu a partir daí o levaram à depressão e ao isolamento.

Além disso, enfrentou diversas disputas judiciais a partir de 1815 pela guarda do sobrinho, Karl, filho de sua cunhada e enteado do seu irmão mais velho, que contribuíram para o estado psicológico do compositor. Após a morte do irmão, Beethoven, nomeado co-tutor do menino, começa uma série de batalhas pela custódia do sobrinho, por considerar a mãe dele “má” e inadequada para criá-lo.

Foi nesse contexto que Beethoven começou a compor a Nona Sinfonia. O compositor não apresentava nada novo em 12 anos quando, em 7 de maio de 1824, quase completamente surdo e com fama de misantropo e louco, levou a Nona aos palcos. Morreu três anos depois, em 1827.

O fim épico

Desde a infância em Bonn, Beethoven queria escrever um acompanhamento ao poema “Ode à Alegria”, do escritor, filósofo e médico alemão Friedrich Schiller (1759-1805), de acordo com a biografia “Beethoven - Angústia e Triunfo”, de Jan Swafford. Em versos exaltados, o poema encarnava o espírito da época, escreve o biógrafo.

O compositor era um grande entusiasta dos ideais da Revolução Francesa, que teve fim pouco mais de duas décadas antes da primeira apresentação da Nona e tinha como lema “liberdade, igualdade, fraternidade”.

“Através dos versos de Schiller, o compositor apresentava um novo ideal: a sociedade aperfeiçoada que começa na liberdade, felicidade e iluminação moral de cada um. [No poema,] Schiller falou de amor como ‘o laço que une todos os homens’ e uma lei eterna que estabelece uma correlação entre felicidade individual e a perfeição da sociedade”, afirma Swafford.

O compositor, que tinha como lema “mantenha o todo em mente”, estava determinado a fazer uma sinfonia em direção ao fim, com um coral cantando “Ode à Alegria”. “Se o final e o seu tema eram o objetivo, a música precisava prenunciá-lo desde o início. Então, antes de ir longe demais no primeiro movimento, tinha de encontrar o tema final. Nesse sentido, a sinfonia seria composta de trás para a frente, como a ‘Eroica’ e a ‘Sonata a Kreutzer’: as ideias principais do início sendo desenvolvidas a partir do tema principal do final”, escreve Swafford.

Com o objetivo da música desenhado – o coro e solistas cantando o poema de Schiller –, Beethoven queria criar uma jornada em direção à alegria. Para ele, a narrativa da obra apontava que, assim como ele havia feito em “Quinta Sinfonia”, o desespero deveria guiar a introdução.

Era a primeira vez que um grande compositor dava à voz o mesmo destaque que os instrumentos em uma sinfonia. Seu famoso quarto movimento tornou a “Nona” conhecida também como a Sinfonia Coral.

A subversão de Beethoven

As sinfonias, em geral, são divididas em quatro movimentos, ou seja, é como se a obra englobasse quatro músicas de diferentes gêneros. Esses movimentos levam nomes que indicam a velocidade, o andamento de cada canção.

A Orquestra Sinfónica de Chicago divide a “Nona” em:

Movimento 1: Allegro ma non troppo (“rápido, mas não muito”, em italiano)

Movimento 2: Scherzo: Molto vivace - Presto (“piada” ou “brincalhão”: “muito rápido e vivo”)

Movimento 3: Adagio molto e cantabile (“muito devagar e cantante”)

Movimento 4: Allegro assai (“muito rápido”)

 

Até então, o padrão clássico seguido pelas sinfonias era colocar o “scherzo” depois do movimento lento, o que foi subvertido por Beethoven.

De trilha sonora de cinema a hino europeu

Em 1985, uma versão instrumental de “Ode à Alegria” foi transformada em hino oficial da União Europeia e é entoado em cerimónias oficiais do bloco político-económico.

Antes de virar a música que representa um continente, a sinfonia guiou muitas cenas nos cinemas. Entre as mais emblemáticas estão as de “Laranja Mecânica” (1971), de Stanley Kubrick. No filme, o violento Alex DeLarge (vivido por Malcolm McDowell) é fã da sinfonia. Após ser preso, um tratamento experimental utiliza a música para traumatizá-lo e, ao ouvir o quarto movimento, ele passa a sentir dor.

Em 1988, o filme “Duro de Matar” também incorporou a música em sua trilha sonora. O quarto movimento da obra de Beethoven embala o momento em que o vilão Hans Gruber (Alan Rickman) consegue abrir o cofre do Nakatomi Plaza.

 

Fonte: Nexo Jornal

 

BLOG COMMENTS POWERED BY DISQUS