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Dom, Jul

‘Deixando Neverland’: filme que pode mudar o modo como o mundo vê Michael Jackson

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  ‘Deixando Neverland’ traz depoimentos detalhados de dois homens que dizem ter sido abusados pelo cantor quando eram crianças.

 

Parecia uma coisa natural”, afirmou James Safechuck sobre a crescente intimidade que desenvolveu com Michael Jackson no fim dos anos 1980. Ele tinha dez anos e o cantor, já o artista mais bem-sucedido da música pop mundial, estava na casa dos 30.

A declaração está no documentário “Deixando Neverland” (“Leaving Neverland”), lançado no início de 2019 nos Estados Unidos. Com duração de aproximadamente quatro horas, o filme relata em detalhes a história de dois meninos, James Safechuck e Wade Robson, que se tornaram amigos do cantor para depois, segundo eles, sofrerem abusos sexuais por anos. O filme é uma realização da produtora britânica Channel 4 em parceria com o canal americano HBO.

A produção vem provocando debate e questões em diversos campos. Uma das discussões diz respeito a como lidar agora, diante das graves acusações contidas no filme, com uma figura tão central na cultura popular dos últimos 50 anos. “Thriller”, álbum de Jackson de 1983, é o mais vendido da história, com quase 50 milhões de cópias comercializadas.

É possível “cancelar” Michael Jackson? Esta é a pergunta de muitos comentaristas. Mesmo na era pós-#MeToo, o movimento de denúncias de assédio sofridos por mulheres, em que poderosos da indústria do cinema e da música caíram em desgraça por seu comportamento, não seria o Rei do Pop um nome influente demais para ser empurrado para o esquecimento?

Alguns movimentos nessa direção já começaram. Rádios britânicas, canadenses e australianas anunciaram a remoção de músicas do cantor de suas programações. Um episódio do desenho animado Os Simpsons em que Michael Jackson aparece foi retirado de circulação.

O que há no filme

Numa entrevista à rede de televisão americana CBS, o diretor britânico Dan Reed conta que nunca teve interesse especial em Michael Jackson. Projetos anteriores seus incluem documentários sobre terrorismo e pedofilia.

Mas, numa reunião com um produtor do Channel 4, Reed discutiu pautas que “não tinham sido conclusivamente examinadas”. As acusações de abuso contra Michael Jackson era uma delas. Pesquisando, o diretor chegou aos nomes de James Safechuck e Wade Robson, que tinham recentemente entrado na Justiça contra o cantor.

O australiano Robson começou a imitar Michael Jackson aos 5 anos, reproduzindo os passos e usando as roupas que o cantor veste na capa do álbum “Bad”, de 1987. Segundo o documentário, o rapaz conheceu Jackson quando sua tuornée passou pela Austrália. Dois anos depois, parte da família de Robson mudou-se para Los Angeles para que os dois continuassem próximos.

O americano Safechuck era um ator infantil quando conheceu Michael Jackson. O filme conta que os dois encontraram-se quando Safechuck atuou numa publicidade da Pepsi com o Rei do Pop. Tornaram-se amigos íntimos, com apoio da família do garoto, em questão de meses. Aos dez anos de idade, Safechuck já viajava em tuornée com Michael Jackson.

Segundo as acusações, os abusos começaram quando Robson tinha 7 anos, e Safechuck, 10. Os dois estão hoje perto de 40 anos de idade. A narrativa é centrada nos depoimentos das duas vítimas. Os testemunhos de suas mães também contam com bastante espaço no roteiro.

No filme, há uma farta quantidade de material de arquivo para ilustrar e, em alguns casos, reforçar o que é dito pelos entrevistados. São dezenas de fotos pessoais, vídeos amadores de shows, programas de TV antigos e filmes caseiros.

O processo de envolvimento dos meninos com o cantor ocupa boa parte da primeira parte do filme. Inclui detalhes gráficos de momentos sexuais e relatos de ameaças que teriam sido feitas por Jackson caso a verdade fosse revelada.

Depois, o espectador acompanha as dificuldades das duas vítimas em lidar com as consequências do suposto abuso por parte de alguém que amavam e idolatravam. As vítimas contam sobre crises nervosas e dependência química, as famílias têm de lidar com um sentimento de culpa imenso.

“Deixando Neverland” não traz depoimentos novos de representantes de Michael Jackson. Em entrevista, o diretor Reed disse não acreditar que eles pudessem trazer novidades além do que já declararam à imprensa anteriormente. Segundo ele, a visão “do outro lado” está “amplamente representada” no documentário por meio de declarações anteriores da família Jackson.

Os representantes do cantor classificaram “Deixando Neverland” como “outra produção sensacionalista e uma tentativa ultrajante e patética de explorar e ganhar dinheiro em cima de Michael Jackson”. A produção foi chamada de “linchamento público”, sem “uma única prova ou peça de evidência física”, baseada nas palavras de “dois mentirosos confessos”.

Michael Jackson na Justiça

A primeira ação movida contra Michael Jackson por abuso aconteceu em 1993. Os pais de um menino de 13 anos acusaram o cantor de lesão corporal de caráter sexual, incluindo ter feito sexo oral e masturbação em seu filho durante visitas ao rancho Neverland, nome da supermansão onde Michael Jackson morava, em Los Olivos, na Califórnia.

Durante a investigação criminal, que durou mais de um ano, a defesa do cantor usou o testemunho de outras crianças que frequentavam Neverland como evidências de que ele era inocente. Entre essas crianças estavam Wade Robson e James Safechuck.

O caso foi resolvido com um acordo extrajudicial entre os pais do menino e Michael Jackson, que desembolsou cerca de US$ 23 milhões de indenização.

Em 2003, uma nova acusação de abuso: um menino de 13 anos, Gavin Arvizo, sobrevivente de um câncer, teria sido molestado pelo cantor. Com sete acusações na ação, a pena para Jackson neste caso poderia chegar a 20 anos de prisão. Depois de um processo de 14 meses de duração, o astro foi absolvido em 2005.

Os dois protagonistas do documentário “Deixando Neverland” entraram na Justiça depois da morte de Michael Jackson. Em 2013, Wade Robson acusou o cantor de molestá-lo por sete anos. Segundo ele, seu testemunho em favor do cantor na década de 1990 tinha sido resultado de “lavagem cerebral”. No ano seguinte, James Safechuck entrou com uma ação em que alegava ter sido abusado “centenas” de vezes entre 1988 e 1992. Ambos os casos foram rejeitados pela Justiça americana na época, mas foram retomados. 

 

TN com informações da Internet e da NEXO

 

 

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