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Qui, Out

Dia da música: Qual é a origem histórica da afinação universal?

Música
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Até o século XIX não havia a padronização da afinação, e era comum que órgãos de igreja tivessem afinações muito diferentes entre si 

 

O lá 440, ou lá produzido por uma vibração em 440 Hertz é, por convenção, referência para a afinação de instrumentos musicais, utilizada de forma generalizada na música de matriz europeia. No piano, o lá em 440 Hz é aquele que fica após o dó ao centro das teclas. Oboístas de orquestras costumam tocar essa nota para que o resto dos musicistas verifiquem se seus instrumentos estão afinados. Teclados eletrônicos também chegam da fábrica afinados em lá em 440 Hz, seguindo a definição da ISO (sigla em inglês para Organização Internacional para Padronização). A entidade chama essa regra de ISO 16. Nem sempre foi assim. Até o século XIX, era comum que órgãos de igrejas tivessem afinações muito diversas entre si. Ao tocar músicas anotadas no passado, musicistas sabem que é necessário levar em consideração que a afinação utilizada era diferente. 

Entendendo as ondas sonoras 

A vibração das cordas de uma guitarra, das cordas de um piano, do couro de um pandeiro, ou da madeira após receber uma batida com as costas da mão causa o início de uma reação em cadeia.

As moléculas do ar ao redor desses instrumentos começam a vibrar, fazendo com que as ondas sonoras se propaguem pelo espaço, até a captação pelos ouvidos. O tom dessas ondas sonoras varia de acordo com a velocidade em que o ar é colocado em movimento, ou a quantidade de vezes que a molécula oscila para um lado e o lado contrário, em dado período de tempo.

Quanto maior a quantidade de oscilações em dado período de tempo, mais agudo o som. Quanto menor, mais grave. Quando as cordas de um instrumento, como o violão, são esticadas no processo de afinação, as vibrações se repetem mais rapidamente ao tocar o instrumento, algo visível a olho nu.

O tom resultante da afinação fica mais agudo. As notas dó, ré, mi, fá, sol, lá, si, dó se repetem em oitavas. O último dó dessa escala está uma oitava acima do primeiro, e é mais agudo do que esse. Uma corda afinada em dó uma oitava acima está mais esticada e vibra mais rápido do que uma corda afinada em dó uma oitava abaixo.

Hertz, ou sua abreviação Hz, é a medida utilizada para captar essas variações das ondas sonoras. Ela representa o número de oscilações por segundo. A afinação universal de 440 Hz é, portanto, de 440 vibrações por segundo.

Quando se diz que a afinação universal é de lá em 440, isso significa que a nota lá específica da vibração em 440 Hz é aquela usada como base para comparar instrumentos entre si e verificar se estão na mesma afinação. Diapasões são instrumentos de metal que lembram garfos com duas pontas e são utilizados como base para afinar outros instrumentos.

Em decorrência do estabelecimento da afinação universal, hoje uma parte considerável dos diapasões são fabricados de forma que, quando tocados, vibrem em lá em 440 Hz. É possível, no entanto, fabricar diapasões afinados em qualquer frequência. 

A origem 

No artigo “Um breve histórico do estabelecimento da afinação universal a=440 Hertz”, a professora de musicologia da Universidade de Regina, nos Estados Unidos, Lynn Cavanagh, escreve que até 1600, na Alemanha, os órgãos eram afinados em entre 337 Hz e 567 Hz.

Não existia uma padronização da afinação mesmo dentro dos países, e musicistas costumavam afinar seus instrumentos de corda a partir da afinação do órgão do local em que estivessem tocando. “Parece que compositores e intérpretes estavam acostumados a levar as variações locais na afinação de órgãos e outros instrumentos de teclado em conta”, escreve Cavanagh.

No decorrer do século XIX, houve uma tendência de elevação do tom dos instrumentos usados nas performances, como resultado de dois fatores, segundo a pesquisadora: o aumento do tamanho das casas de concerto e mudanças nas técnicas para produção de instrumentos.

Nesses locais, instrumentos musicais eram capazes de atingir tons mais altos e brilhantes no momento do clímax da música, especialmente quando se tocavam instrumentos afinados em tons mais altos. Fabricantes de instrumentos foram capazes de adaptar sua produção para essa necessidade estética. O efeito colateral era, no entanto, a pressão sobre as vozes dos cantores, limitadas biologicamente.

Em paralelo, a maior facilidade de locomoção entre um lugar e outro devido à popularização da locomotiva e do navio a vapor tornava mais evidente a conveniência de uma padronização que simplificasse o trabalho dos músicos.

Na primeira metade do século XIX, o negociante alemão de seda Johann Heinrich Scheibler inventou um equipamento chamado tonômetro, que nada mais era do que uma coleção de dezenas de diapasões afinados em tons.

Em viagens pela Europa, mediu o tom exato de vários diapasões utilizado por instituições dedicadas à música. Em 1834, Scheibler propôs no encontro anual da Sociedade Alemã para Naturalistas e Doutores em Stuttgart que se adotasse a afinação em lá em 440 Hertz como uma média aceitável. A

pesar de ser um marco importante, que influenciou até mesmo o tom utilizado como padrão por determinados fabricantes de piano na época, a proposta de Scheibler não se tornou uma regra internacional. Em 1859, uma comissão do governo da França decidiu estabelecer uma lei que transformava a afinação em lá em 435 Hz a regra no país.

Na falta de uma padronização internacional, óperas de outras partes da Europa passaram a adotar o mesmo padrão - “imagine todos os novos instrumentos de sopro [como órgãos e flautas] que precisaram ser feitos e comprados, e também os garfos para afinação”, escreve Cavanagh.

Em 1896, a Sociedade Filarmónica do Reino Unido estabeleceu a afinação em lá em 439 Hz como padrão para orquestras.

Em 1910, a Federação Americana de Musicistas definiu o lá em 440 Hz como padrão para afinação entre musicistas americanos, e em meados da década de 1930 a rádio WWV, mantida pelo Escritório Americano para Padronização, emitia, por uma hora diária, um som em lá em 440 Hz como base para que musicistas afinassem seus instrumentos.

Esforços internacionais no sentido de estabelecer uma afinação universal, no entanto, não deram resultado até a realização, em 1939, de uma conferência em Londres sobre o assunto, que reuniu representantes de França, Alemanha, Holanda e Itália, além de contribuições enviadas por escrito de Suíça e Estados Unidos - ela ocorreu três meses antes do início da Segunda Guerra Mundial.

Atendendo a demandas da indústria de radiodifusão, que vinha transmitindo performances ao vivo ou gravadas em várias partes do mundo, ficou decidido que a afinação universal seria em lá em 440 Hz.

Como forma de difundi-la, a rádio BBC passou a emitir um sinal da nota para afinação. Esse mesmo padrão foi reafirmado pela ISO em 1955 e em 1975. Apesar de ser uma referência importante, o estabelecimento do padrão universal não significa o desaparecimento de outras afinações alternativas.

Musicistas recorrem a elas livremente de acordo com suas preferências e objetivos. E, mesmo quando se deseja ater a um padrão, é possível que o instrumento usado como referência não esteja afinado de forma precisa.

Mais recentemente, afirma Cavanagh em seu artigo, “há um revival de instrumentos de época afinados aos outros tons históricos, o que tem levado a uma consciência maior de como o tom é uma contingência estilística e não absoluta”.

TN com informações da Nexo

 

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