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Qui, Jun

Dom Ildo Fortes: "Temos uma Igreja que vive muito dependente do padre"

Entrevistas
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Por ocasião do décimo aniversário da tomada de posse de D. Ildo Augusto dos Santos Lopes Fortes como Bispo da Diocese de Mindelo, aquele prelado concedeu na sua residência, uma grande entrevista ao Jornal Terra Nova e à Rádio Nova .

A 25 de Janeiro de 2011, o Santo Padre Bento XVI nomeou-o como bispo da Diocese de Mindelo. No dia 3 de Abril de 2011, na Igreja de S. Vicente de Fora, em Lisboa, recebeu a ordenação episcopal e entrou solenemente na Diocese no dia 9 do mesmo mês, sucedendo a D. Arlindo Furtado, que esteve à frente da diocese durante 6 anos. 

Dom Ildo, de 57 anos, repercorre connosco alguns marcos e dasafios da sua Diocese e considera que “quem conduz isto tudo é o Espírito Santo”. Confira: 

 

Sr. Bispo 10 anos se passaram desde que tomou posse desta Diocese de Mindelo. Que balanço faz? 

Olhe o que tenho a salientar é que quem conduz isto tudo é o Espírito Santo. Cada vez mais me convenço de que nós não passamos de instrumentos e que, sem dúvidas, temos que pôr a render tudo aquilo que Deus nos concede.

Gostava de salientar o seguinte: após estes 10 anos em que estou à frente da Diocese, (diocese que já celebra 16 anos da sua existência), dou-me conta de que isto é como uma carruagem que vai andando e cada um entra na sua estação. Dos ganhos que sinto que temos, salientava o aparecimento das vocações e concretamente as sacerdotais. Ainda me lembro que quando cheguei, no tempo de D. Arlindo, os nossos padres diocesanos eram três ou quatro, não mais. De lá para cá já vamos em 10 ou 12 padres diocesanos e temos um grupo de seminaristas em Lisboa, Roma, Brasil, Sevilha e Évora, o que é uma grande esperança, o que é muito bom e que significa que a juventude da Diocese continua. Uma Igreja que reza é uma Igreja que tem vocações. Mas isso tudo não é matemático. Nós conhecemos comunidades verdadeiramente generosas, com pastores dedicadíssimos e nunca tiveram nenhuma vocação e, às vezes, acontece noutra paróquia onde não há este historial e, de repente, as vocações brotam. Portanto, acho que são graça de Deus e nós temos que agradecer. Não tenho dúvidas nenhumas de que uma Diocese nova, com a sua dinâmica nova, com muitos sacerdotes novos, diocesanos e religiosos acabe por despertar na juventude esta inquietação: “porque não eu?”. Porque nós precisamos de ver que aqueles que vão à frente estão realizados e que são felizes, seja uma religiosa, um religioso, um padre. Isto atrai. 

Outra coisa que nós temos vindo a fazer (ainda que esteja numa fase inicial) é estruturar-mo-nos. Se é verdade que é o Espírito que conduz a Igreja, também é verdade que ela tem que estar organizada. Nós vamos criando serviços mas ainda nos faltam alguns, bastantes. Mas muitos foram aparecendo de lá para cá, por exemplo, a Pastoral da Saúde, a Comissão para os emigrantes, estruturar ainda mais alguns movimentos. O Conselho Presbiteral que já foi aprovado e que em breve começará a dar alguns passos, um vigário geral que nós não tínhamos. Portanto, há diversos serviços que uma Diocese deve ter, mas a nossa vai ao ritmo que tem que ir e vamos estruturando. 

Que principais desafios a Diocese tem pela frente? 

Há diversas ordens. Falemos da ordem humana que é aquilo que tem ocupado a nossa atenção nestes três últimos anos, isto é, a questão das família. A Diocese não pode ignorar de forma nenhuma onde é que se encontra e nós estamos numa sociedade que é o que é mas onde a família está em grande déficit. Quando falo de família, falo daquela constituída, estável, onde haja amor e o mínimo de equilíbrio para que as gerações que vão vindo, as crianças e os jovens, possam crescer com alguma harmonia. Isso está faltando muito em Cabo Verde, ao mesmo tempo que o número de casamentos cresce entre nós. Um trabalho que temos feito tem sido cuidar dos noivos, criar CPM (Curso de Preparação para o Matrimónio), alguns movimentos como as equipas de casais de Nossa Senhora e que têm vindo a crescer a um ritmo galopante em todas as ilhas, tudo isto tem faz com que se desperte para a importância do matrimónio. 

Mas ainda há preocupação em relação às famílias desestruturadas? 

Sim. Uma grande maioria das famílias da nossa sociedade está desestruturada. Nós vemos cada vez mais pais que são quase crianças. Gente inconsciente, sem estabilidade na vida que nem tem a sua estrutura humana bem consolidada e, de repente, já tem filhos nos braços e perguntamos: “quais são os valores que vão transmitir?”. 

Preocupa-me muito o descalabro que tem vindo da violência no nosso país. A violência doméstica. Não só violência baseada no género mas também pais que desrespeitam os seus filhos nas suas dignidades, os abusos sexuais que são muitos entre os membros da família, filhos que desrespeitam os pais, filhos que matam os pais como aconteceu recentemente em Santo Antão. Portanto há um drama enorme e um desrespeito ao valor da vida. Falta-nos muito cuidar da família porque a educação básica tem que acontecer na família. 

Um outro desafio grande da Igreja em Cabo Verde e não só da Diocese d Mindelo é o desafio da caridade. E agora a pandemia deixou, mais uma vez, a descoberto que há grandes assimetrias sociais, que nós temos um leque de pessoas que vivem muito bem no nosso país. O país tem gente rica mas temos gente muito pobre e temos cada vez mais pobres. Essa assimetria num país novo não é justificável. Precisamos muito de ter uma política, uma forma de organizar a sociedade capaz de dar oportunidades a todos. A nossa Igreja precisa consolidar o seu serviço de caridade. A nossa Caritas está a ser chamada neste tempo da pandemia a estar à frente para socorrer aquelas famílias que vivem em grandes dificuldades de toda a ordem quer no ambiente rural quer no ambiente urbano. 

Um outro desafio que continua para nós tem a ver com as infraestruturas. A Diocese de Mindelo continua a precisar de espaços materiais para desenvolver a sua ação. Centros Paroquiais, espaços para caridade, seminário, as igrejas precisavam ser restauradas porque em muito lugares ainda o lugar de culto é na rua, num lugar improvisado. Certo, não é o mais importante mas também isso faz parte para termos um bocadinho de desafogo para podermos pensar noutras coisas.  

Parece que precisamos passar de uma pastoral familiar de eventos para uma pastoral mais coesa e mais perto das famílias. 

Não creio que a questão dos eventos seja assim primordial. Há momentos desses mas podemos pensar nas equipas de Nossa Senhora que juntam, nesse momento, centenas e centenas de casais. São seis ou sete casais que se encontram todos os meses que rezam, discutem um tema, fazem uma análise do que foi o seu mês, pensam na questão dos filhos e coisas dessas vão acontecendo sem que a gente saiba. Eventos há alguns, sim, como o caso do encontro nacional, como é o caso de uma assembleia da família, como foi o caso, há meses, estive no Juncalinho em São Nicolau a celebrar a festa da família. Só esses momentos não chegam. Esses momentos têm que ser momentos de chegada e ponto de partida mas isto depende da pastoral local. Os momentos de eventos de massa são muito importantes quer a nível mundial, basta reparar em eventos que têm dado muitos frutos, por exemplo, a Jornada Mundial da Juventude que junta milhões de jovens. Bom, não é ali que se faz a pastoral juvenil para aquele momento é fundamental para sentirmos que estamos vivos porque a fé também vem pelo contágio. Quando participamos num encontro desses, seja de família, seja de jovens e vemos que somos tantos, isso motiva-nos a voltar para casa e prosseguir o nosso caminho. Daí que as duas coisas são necessárias. Um trabalho de campo, de formiga, que é ajudar as famílias através de cursos, formações e esses encontros grandes que também dão motivação. 

A família é a base. Dali vem a catequese, juventude e toda uma vida que gira à volta da família. Uma família não estruturada não tem futuro?

Penso verdadeiramente que aqui há milagres. Olhando para a história de alguns jovens e do seu contexto familiar nefasto em que praticamente o pai os rejeitou, que têm uma relação dramática, outros não conheceram a mãe e cresceram com algum familiar, outros passaram por penúrias e necessidades materiais diversas e pergunto: como é que conseguem chegar ao estádio da juventude e até de estarem na posição de servir, servir a Igreja e até alguns vão para o seminário? Felizmente que nós não estamos sós, que Deus tem esta capacidade de trabalhar os corações humanos independentemente da sua história. Mas que é verdade que fica muito em cheque um maior desenvolvimento da nossa sociedade por falta de uma família mais sólida. Como disse antes, a quantidade de desequilíbrios que encontramos na sociedade, de desrespeito… Por exemplo, agora estamos na pandemia e era suposto haver a colaboração de todos para a não propagação da doença de covid 19. Mas estamos a ver que as pessoas ou porque estão muito ligadas a interesses particulares, os seus negócios, outras porque quer divertir-se, vemos prevaricação em muitos momentos. Portanto a educação, o respeito se não vêm de casa não se apanham na rua. Para mim, muitas coisas que não funcionam bem no nosso país, quer a nível das estruturas políticas, quer a nível das estruturas sociais, dos serviços públicos onde era preciso ter responsabilidade, respeito uns pelos outros, espírito de dedicação, de trabalho, de produção, existem porque falta ou faltou em casa toda essa dinâmica.

A juventude contínua muito longe da Igreja? 

A juventude é um fenómeno muito oscilante. Temos momentos em que parece que está de vento em popa e momentos em que parece que tudo declina muito. Parece-me que, aqui na Diocese de Mindelo, já conhecemos melhores fases da juventude. Eu fui pastor aqui durante muitos anos e, olhando para as paróquias onde estive, parece-me que havia mais aptidão de alguns jovens para as coisas da Igreja e para a própria religião. Hoje em dia, temos algo que não joga a nosso favor: as propostas do mundo são muito aliciantes. Um exemplo concreto: muitos catequistas dizem que agora as crianças não vêm para catequese porque àquela hora têm o futebol e outros desportos. Portanto, há aqui uma arte do mundo, já conhecemos isso no nosso passado e no nosso país, que é uma foram de fragilizar a Igreja. Hoje está a acontecer, de forma até subtil, porque o desporto é uma coisa boa, mas faz-se isso de forma a atropelar a vida religiosa de alguém e se as pessoas não têm critérios bem definidos e se não têm uma escala de prioridades bem clara, entre escolher ir à Missa às 10 da manhã e o futebol que é à mesma hora, se calhar vão ao futebol. 

Como dar volta a esta situação?

Penso que não é por imposição de leis, não pode ser por fazer guerras às instituições. Uma Igreja que faça guerra com a sociedade não vai muito longe. Trata-se de fazer um trabalho de base. Devemos falar com os pais cristãos acerca da educação dos seus filhos e sobre as prioridades porque se desde cedo o filho ganhe o sentido do sagrado na sua vida é susceptível que na sua juventude ele continue firme mas se andar um bocadinho sem grandes convicções e grandes testemunhos é normal que quando cresce perca a consistência. Falta-nos uma autêntica evangelização. Penso que o problema maior que é preciso ter com a juventude, com as crianças e com a família é a evangelização. A nossa gente está verdadeiramente evangelizada ou tem uma certa dose de religião. Penso que é muito mais religião. As pessoas vêm à festa de São Vicente, Nossa Senhora da Luz mas no dia-a-dia, a oração em família, o preceito dominical parece que fica muito aquém. 

Falou em catequese. Tendo em conta este tempo desafiante que vivemos, a Diocese vai acompanhando a catequese que não se pode fazer em qualquer lugar? 

Tenho dito aos padres que nós nos acomodámos a uma certa pastoral que agora a pandemia veio revelar que não serve. Não se trata de deitar fora o que a gente tem. Cuidado! Acho que é preciso ter a mínima maturidade para respeitar, as caminhadas e as mentalidades não mudam tão facilmente. Mas a pastoral de: “a igreja está aberta, venham cá consumir aquilo que vos damos” não chega. Precisamos de uma evangelização que vá de encontro às pessoas. Eu senti a aflição de muitos padres quando, de uma hora para a outra, a pandemia obrigou o distanciamento social e as igrejas tiveram que fechar-se. Muito perguntavam: “Agora, o que é que eu faço? Como chego à minha gente?”. Ou seja, não tinham pensado numa forma de chegar à sua gente, senão através daquela forma sacramental. Hoje em dia, temos ao nosso dispor tantos meios: facebook, rádio, jornais, enfim temos muitas maneiras de chegar às pessoas, porque hoje em dia é isso que as pessoas conhecem. Eu há muito tempo não comunico com a minha Diocese através de papel. As minhas mensagens e cartas coloco-as logo na minha página do Facebook e no Instagram e tenho logo dezenas ou centenas de reações. Se não formos por qui e aproveitar estes meios, não só para a propaganda barata, para aquilo que interessa, para a formação. 

A nível de catequese, faltam-nos espaços adequados apetrechados com os meios de comunicar, com um certo conforto. Acho que neste ponto a Igreja não está a acompanhar o desenvolvimento da sociedade. Portanto, a nossa catequese e muitos outros setores não estão a acompanhar. Precisamos de catequistas com outra qualidade e outra formação. Infelizmente, muitas vezes, o nosso voluntariado, deixa muito a desejar. É preciso termos critérios: nem toda a gente serve para dar catequese, por razões diversas, ou porque não tem capacidade ou porque não tem disponibilidade. 

Pastoral Social. Como é que a Caritas se tem comportado?  

A nossa Caritas, se por um lado tem gente com muita generosidade, com perspectivas bonitas, por outro lado apresenta falta de recursos. O nosso povo ou é pobre ou não se habitou a cuidar da sua própria Igreja. Isto é uma herança do passado. As pessoas procuram fazer a sua casinha, procuram dar uma educação aos filhos mas contribuir para que a sua comunidade cristã cresça fica um bocadinho a desejar. A meu ver, uma das dificuldades nossas são recursos materiais e, também se diga, que entre os países pobres que há pelo mundo Cabo Verde, infelizmente não está na mira das organizações que ajudam. Porque a imagem que se passa de Cabo Verde no exterior é a de um país desenvolvido. O governo, enquanto tal, recebe uma fatia da Europa mas isso é para os seus programas. 

Isso condiciona?

Condiciona muito porque nós como Igreja, enquanto organização não governamental com cunho religioso estamos cada vez mais de fora daquilo que são os apoios quer para os pobres quer para estudantes, etc. 

A Caritas luta muito para fazer o que pode com os seus parcos recursos. Nesta fase da pandemia, nós lançámos logo no início uma campanha em que desafiámos os nossos fiéis e pessoas de boa vontade para que pudéssemos organizar umas cestas básicas para entregar às pessoas mais necessidades. Felizmente, nessa época, houve muitas organizações e pessoas que se chegaram à frente. Então nós pensámos: como a crise vai perdurar, em vez de distribuir tudo agora, vamos aguardar passar esta fase emocional, onde muita gente vai ajudar. Nós agora continuamos com um trabalho permanente de identificar quais são os mais necessitados, para os tentarmos ajudar. A Igreja não vai só atrás da emoção ou atrás da moda. A pandemia começou a complicar-se aqui entre nós em março/abril mas o nosso trabalho com os pobres não conhece fases, é permanente. A "antena" da Caritas, que atua na base, continua atenta a ver onde que é preciso mais ajuda. A nossa caridade deve ser organizada e que seja uma ajuda não só, meramente, material, mas é preciso conhecer a pessoa e perceber como ajudá-la a pôr-se de pé. 

O número e a qualidade dos religiosos na sua Diocese correspondem às necessidades? 

Não. Se nós quisermos apenas continuar a tapar os buracos que temos podemos dizer que sim mas acho que o campo do trabalho do missionário é vasto. Inclusive, um desafio que tenho lançado muitos vezes aos religiosos é perceber que neste século em que nos encontramos os problemas não são os mesmos de há 200 ou 500 anos. Então, é preciso ver quem são os pobres do nosso tempo, qual é o necessitado do nosso tempo, para percebermos que há uma grande área que está à espera de atuação nossa. Somos todos poucos. Mas, o que nós precisamos, sobretudo, é de trabalhadores da Seara que tenham um espírito missionário muito grande. O Papa Francisco não se tem cansado de falar de uma Igreja em saída. Faz-nos falta essa Igreja em saída. Mesmo os que temos hoje em dia precisam de ser desinstalados e desacomodados e perceber que têm que olhar mais longe. 

Já João Paulo II falava de nova evangelização.

Sim, esta nova evangelização de que os papas têm falado é nova em métodos e meios e nova no ardor porque se nos falta o ardor, a motivação podemos ter excelentes meios nada é feito. O Evangelho não mudou nada e nós não temos outro Evangelho a anunciar ao mundo, nem o programa da Igreja mudou. O que nos falta são os meios, o como, a quem… isso é que muda com os tempos e culturas e portanto devemos sempre questionar como é que hoje levamos o Evangelho. 

Como é que a Igreja do Mindelo vai fazer esta renovação?

Acho que precisamos de avançar e duas frentes: precisamos de ter mais pastores porque os que nós temos, às vezes, esgotam-se nalgumas tarefas e resta-lhes pouco tempo para pensarem e quem não pára não avança e os nosso pastores não param. Precisavam de parar para refletir, para pensar, para escutar a voz do Espírito. Há lugares do mundo onde o padre já não tem que se preocupar com a economia, nem com as obras. Por isso, tem tempo para ler mais, estudar mais, participar em conferências e penso que falta isso entre os nossos pastores. A nossa Igreja é ainda herdeira de uma grande mentalidade clerical: se o padre não está, nada acontece. Há muitos lugares em que se falta o padre parece que tudo fica hipotecado. 

A segunda frente é uma aposta forte na formação do laicado. Eu penso que uma Igreja, um bispo ou padres que não valorizam os seus leigos não perceberam o que é ser Igreja. 

E os leigos têm essa consciência aqui na Diocese de Mindelo? 

Alguns vão tendo. Seria injusto se dissesse que não. Conheço alguns com essa consciência e que, às vezes, encontram grandes dificuldades, dependendo do pastor que têm. Nós precisamos valorizar os leigos, para já, para eliminar uma mentalidade que está errada que é a de pensar que o leigo é o colaborador do padre. O leigo não é colaborador do padre, mas, pela sua índole secular, pelo seu baptismo tem sua vocação específica na edificação da Igreja e não tem que estar à espera do padre. Não se trata de dispensar o padre que é o animador da comunidade e que tem o seu ministério próprio. Mas temos muitos leigos que não assumem o seu compromisso baptismal. Durante muito tempo na Igreja inteira não se formaram. Portanto, não conhecem a Bíblia, não conhecem o Evangelho e, claro, patinam à mais pequena dificuldade. A nossa catequese não está à altura. 

Quando o padre não tem tempo vão em crise os sacramentos. 

Após a Reforma, infelizmente, os católicos ficaram muito agarrados aos sacramentos e aos sacramentais em detrimento, de certa forma, da Palavra. Enquanto que os nossos irmãos protestantes acabaram por absolutizar a Palavra, e bem, mas desprezando coisas muito importantes como são os sacramentos. O ideal é ter connosco as duas tradições connosco. Há tempos, estava a ler um livro do cardeal de Boston, Seán O'Malley, que se intitula «Procura-se Amigos e Lavadores de Pés» ele citando um famoso autor diz o seguinte: “deixa uma comunidade uns 20 anos sem missa mas que tem a pregação e uma outra comunidade onde haja só missa mas sem a pregação para ver, ao fim desse tempo, onde é que a fé contínua”. A fé continua onde há a Palavra. O ideal são as duas coisas. 

Quando falava de uma Igreja clerical é porque temos uma Igreja que vive muito dependente do padre e do padre que lhe dispensa os sacramentos. Claro que a Eucaristia é o centro da nossa vida cristã mas a Igreja tem os elementos todos: anúncio da Palavra, Liturgia, Caridade, etc. A nossa gente ficou muito agarrada ao sacramento, a consumir sacramento. A prova disso é que, durante a pandemia em que não houve sacramento parece que não tínhamos nada. Mas temos a família, a oração.  

A Diocese de Santiago prepara-se para celebrar os 500 anos de evangelização, em 2033. Que contributo a Diocese de Mindelo poderá dar a essa celebração? 

Se falarmos da realidade cristã em Cabo Verde, não é preciso falar das dioceses porque todo o Cabo Verde está envolvido nessa dinâmica. Nós não nos sentámos ainda para falar sobre isso. Mas todos nos sentimos envolvidos por esse acontecimento porque é a nação cabo-verdiana, é o povo cabo-verdiano e os cristãos de Cabo Verde que irão celebrar os 500 anos da chegada da fé a estas ilhas. Será, portanto, de bom tom nos associarmos, a esse grande acontecimento. 

Como tem sido a sua relação com o Governo de Cabo Verde?

A minha é uma relação institucional. Desde que cheguei a Cabo Verde devo dizer, com satisfação, que o clima de diálogo e colaboração é muito grande. Penso que vivemos nesses tempos, talvez, uma fase ímpar. Nem sempre foi assim em Cabo Verde. Todos sabemos que houve momentos de tensão, para não falar de incompreensão e hostilidade. Neste momento a tensão não existe. A prova disso, por exemplo, é que há poucos anos foi assinado um acordo jurídico entre a Santa Sé e a República de Cabo Verde. Portanto, o espírito para se levar avante um projeto dessa envergadura só pode ser à base de parceria e colaboração. Oficialmente, o Governo não só reconhece a Igreja, o seu estatuto e o lugar que esta ocupa em Cabo Verde, como reconhece a Igreja como parceira para o desenvolvimento deste país a nível de educação, formação humana, a nível social. É de bom tom que o estado de direito democrático reconheça as diversas forças que estão presentes na sociedade, sem confundir os papéis porque acho também importante garantir a autonomia e a liberdade da Igreja para o desenvolvimento da sua atividade sob o plano pastoral que também estão garantidas. Neste momento, portanto, só tenho a salientar a boa relação que existe entre a Diocese de Mindelo e o Governo de Cabo Verde. 

A Igreja em todo o mundo tem feito frente à pedofilia entre o clero. E na Diocese de Mindelo? 

Na Diocese de Mindelo, por indicação superior todos os bispos receberam orientações da Santa Sé para sermos preventivos e para termos uma comissão diocesana que deve estar atenta e possa acompanhar algum caso que possa aparecer. Nós temos uma comissão já criada com o seu estatuto que está em Roma para a provação. O que devo dizer com satisfação é que nós, na Diocese de Mindelo e em todo Cabo Verde, não temos nenhum caso de abusos de menores que a gente saiba. Mas temos que estar prevenidos. O que sabemos que temos é casos de abusos no nosso povo e temos paróquias que têm estado na linha da frente na luta contra esse problema, por exemplo a Paróquia de Santo António das Pombas em Paul. O Paul é um dos lugares, infelizmente, onde há muito abuso de menores e que não se sabe. Há casos que chegam a tribunais mas há muitos outros casos acabam por ser camuflados e a Igreja, com ajuda de juristas e de uma rede que se criou está a promover e a despertar para esse cancro da sociedade. Nós não estamos livres de as nossas instalações serem mal usadas como já aconteceu aqui em São Vicente de alguém que tinha essa prática e que se aproveitou da propria instalação da Igreja para essa prática. Tratava-se de um leigo e não de ninguém “da igreja” como se quis fazer passar. Temos de estar atentos. Aliás naquele caso fomos nós que apercebendo-nos do que se estava a passar, demos o alerta.   

 

TN e Rádio Nova