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Qui, Jun

“Retiremos as máscaras do coração, para vivermos com mais transparência e amor!” - Dom Ildo Fortes

Entrevistas
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Este é o apelo que o Bispo de Mindelo, Dom Ildo Fortes, faz aos católicos e pessoas de boa vontade neste tempo de Natal que vivemos em meio a uma pandemia. Nesta grande entrevista exclusiva para o Terra Nova, o prelado reconhece que 2020 foi um ano “atípico” e que foi uma “surpresa inimaginável”. Contudo, não deixa de ser “um ano de graça” visto que Deus “nos assistiu com a sua graça e ternura infinita”. Para Dom Ildo, 2020 foi um ano que “nos fez viver com um coração apertado e numa tentativa de maior solidariedade possível”. Confira!  

 

Como é que o Sr. Bispo viveu pessoalmente este ano de 2020 com a pandemia? 

Este ano, temos de admitir, foi um ano «ímpar», único, atípico, e surgiu como uma surpresa inimaginável. Não significa isto que interiormente não o tenha vivido com muita paz, serenidade e confiança. Em todo o tempo, faço a experiência de sempre ser acompanhado por Deus, digo eu e digo a humanidade inteira. Temos o antigo hábito de usar a expressão: Ano da graça de Deus! E sem dúvida que neste ano que agora termina, Ele nos assistiu com a sua graça e ternura infinita. As lentes que usamos condicionam muito a nossa percepção da realidade. E muitos leem ou hão-de olhar para este ano como uma sombra que pairou sobre nossa história presente. 

Não quer dizer que não tenha sentido este ano como um ano de muitos sofrimentos e sacrifícios para muitos irmãos nossos e de muita apreensão e aflição. Basta pensar para os milhares de idosos cuja vida foi ceifada inesperadamente, seus familiares a sofrer de perto ou de longe quando não puderam chegar a eles, devido ao distanciamento físico obrigatório. Penso também nas inúmeras famílias que de repente viram as suas vidas e suas economias viradas do avesso (perda de emprego, negócios cancelados ou perdidos, etc.). E porque não falar mesmo dos muitos programas que pessoalmente, em família ou em comunidade se tinham desenhado com expectativa e alegria (a nível de lazer, profissional, cultural, solidário, etc.) e que foram por água abaixo.

Isto tudo fez-nos viver com um coração apertado e numa tentativa de maior solidariedade possível. Como diz o Concílio Vaticano II: «As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo; e não há realidade alguma verdadeiramente humana que não encontre eco no seu coração» (Gaudium et Spes, 1).

A pandemia também afetou as atividades da Igreja. Como é que a sua diocese tem reagido e tem adaptado a sua ação ao novo contexto? 

Fazendo parte desta sociedade e sujeita às vicissitudes do tempo e do espaço, obviamente que a Igreja não escapou aos efeitos nefastos desta pandemia que tocou os quatro cantos do mundo. Parece-me que a primeira atitude da nossa Igreja deve ser oferecer aquilo que de melhor ela tem: a esperança que radica no Evangelho de Jesus Cristo. Os discípulos de Cristo, a Igreja está no mundo para ser luz do mundo e sal da terra; ai de nós se perdemos a confiança em Deus e se deixamos de anunciar com toda a veemência que Deus está no meio de nós. Não importa tanto o que estamos a viver nem quanto vai durar a tempestade, mas sim saber que Ele caminha connosco, é a nossa força e cuida de nós. Ele está na barca, e é juntos que nos podemos salvar, como muito tem afirmado o Papa Francisco, desde o início da pandemia.

A adaptação foi necessária e foi preciso sermos criativos e inventar caminhos novos para fazer chegar Cristo e as suas graças junto dos fiéis. Neste capítulo, foi importante servirmo-nos de todos os meios modernos de comunicação, tais como as redes sociais, para nos fazermos presente com uma palavra amiga, para ajudar a fazer oração em família, para dinamizar para a Evangelização que deve ser uma constante em todos os tempos e circunstâncias.

Constatamos que o impedimento da presença física em algumas ou muitas acções que tínhamos programado, traduziu-se em alguns casos em novas oportunidades. Por exemplo, há já alguns anos que vínhamos administrando uma formação teológica para os leigos, mas esta restringia-se muito às pessoas que vivem em São Vicente. Este novo ano pastoral, a nossa Escola de Formação Teológica conta com alunos de várias ilhas e com professores de várias ilhas e até mesmo de fora do país, porque recorremos aos meios de lecionação online e à distância. Como se costuma dizer: há males que vêm por bem!

Há quem fale que para a Igreja essa pode ser uma oportunidade de acelerar a chamada nova evangelização. O que pensa sobre isso? 

Estou totalmente de acordo e a minha primeira leitura destes acontecimentos e o modo como nos apanhou, é que temos muito que fazer em termos de evangelização e no nosso modo de organizar a nossa pastoral. O modelo de pastoral e as nossas acções (tradicionais) que temos levado a cabo precisam ser revistos, actualizados e adaptados aos nossos dias; o tempo pede uma nova e urgente evangelização; muito dos nossos fiéis, e por culpa nossa (pastores), são consumidores das coisas sagradas que lhes damos: missas, sacramentos, procissões, etc. Precisamos de leigos conscientes da sua vocação e missão no mundo, leigos formados pela Palavra de Deus, que com pandemia ou sem pandemia, está sempre ao seu alcance e não precisam de ficar desorientados quando por alguma razão se veem privados de aceder a uma Igreja para celebrar a sua fé. Isso não é um convite a uma vivência da fé isolada, mas um desafio a uma vivência mais pessoal e consciente da fé. Verificamos com frequência que, onde a Igreja é mais pobre, mais perseguida e enfrenta dificuldades de toda a ordem, é onde a fé se renova mais e o compromisso dos cristãos é mais efectivo.

Uma das grandes consequências da pandemia é o agravar das condições de vida de tantas famílias. O que é que a sua diocese fez e o que pensa fazer no campo social? 

É verdade, sentimos de perto a aflição de muitas famílias que neste quadro, se encontram em condições muito difíceis de subsistência.  Ainda no passado dia 19 de Dezembro fiz uma conferência em São Vicente precisamente sobre o assunto. O tema era A proximidade da Igreja junto às famílias em tempo de Covid-19. E nada melhor que deixar aqui um pouco do que aí apresentei.

De salientar que para além das inúmeras iniciativas espontâneas e belas que foram surgindo um pouco por toda a parte, a Igreja, através do seu organismo Caritas, cuja finalidade é mesmo promover e exercer a caridade, tem levado a cabo diversas campanhas de solidariedade para ajudar as pessoas mais afetadas em termos sociais, particularmente neste tempo de pandemia.  A Caritas é o organismo da Igreja Católica responsável pela ação social, cuja missão está baseada nos princípios da caridade cristã e justiça social. Criada em 1976, a Caritas cabo-verdiana tem por missão planificar e coordenar as atividades sociais e programas de apoio às famílias, bem como as emergências a nível nacional. Na sua opção preferencial pelos e com os mais pobres a Caritas cabo-verdiana tem contribuído para a criação de uma vida mais digna para muitas famílias mais vulneráveis do país, e nos momentos de grandes dificuldades (secas persistentes, erupção vulcânica, inundações, e agora Covid-19) tem tido uma presença importante ao lado das mesmas, através das suas organizações paroquiais. 

A primeira grande acção, de dimensão nacional (ou seja, envolvendo as duas dioceses), foi a Campanha de solidariedade da rede Caritas: EM TUA CASA QUERO CELEBRAR A PÁSCOA, (MT 26,18) – UMA CESTA SOLIDÁRIA - UM GESTO A PARTILHAR. De imediato foi colocado à disposição das Caritas Paroquiais um fundo, ainda que modesto, para ajudar as pessoas mais vulneráveis que devido ao confinamento obrigatório ficaram sem a garantia do seu sustento. Este fundo de um milhão e quinhentos e cinquenta e dois mil escudos, repartido a todas as Caritas paroquiais, permitiu-lhes dar respostas imediatas. O fundo que se mandou seria um fundo flexível, a ser concedido conforme as necessidades (alimento, produtos de higiene e limpeza, ou outros bens essenciais que achassem conveniente). 

Lá onde foi possível, as outras forças vivas da paróquia participaram e colaboraram. 

Assim, foram distribuídas até à data de 12.05.2020, 4356 Cestas Solidárias, sendo 1818 na diocese de Mindelo e 2.538 na diocese de Santiago. 

Para que se pudesse distribuir estas cestas solidárias, foram disponibilizados cerca de 3.400.407,00 (três milhões quatrocentos mil e quatrocentos e sete escudos), dinheiro esse mobilizado através da rede Caritas a nível nacional, diocesano e paroquial.

Ainda no atual contexto da pandemia, a Caritas diocesana de Mindelo sente-se desafiada a dar resposta e acompanhar as situações atuais vividas, assim a Caritas diocesana e as Caritas paroquiais depois da campanha têm vindo a distribuir cestas básicas às famílias mais vulneráveis e afetadas pela pandemia. Até este momento distribuiu-se um total de 3840 Cestas básicas.

No mês de Agosto, em parceria com a Associação Cap-Vert l’avenir, de Marselha, França e de amigos nos EUA, distribuímos roupas e materiais escolares a 60 famílias afetadas pelo COVID 19.

Algumas paróquias têm distribuído refeições quentes a idosos, deficientes e pessoas acamadas e em outras paroquias estão a implementar o mesmo sistema.

Para o Natal das famílias vulneráveis, idosos, deficientes, pessoas acamadas e afetadas pelo COVID 19, estamos a organizar a distribuição de cestas básicas, roupas e brinquedos. Prevemos entregar 2000 cestas básicas.

Está a ser implementada a campanha “Uma Estrela pela justiça e pela paz” inspirada na Caritas França – 10 milhões de Estrelas, retomada por Portugal, Brasil e várias outras caritas pelo mundo. 

Esta campanha, com um gesto simples de comprar e acender uma vela em formato de estrela, é uma oportunidade de as famílias agradecerem pelo dom da vida, pedir a luz divina para continuar a caminhada rumo a mais justiça social e paz. O acender da vela representa a conexão com a nossa comunidade eclesial e por essa razão sugerimos que ela seja feita na vigília do final do ano. O fundo arrecadado com a venda das velas será para ação social nas paroquias e dioceses e visa beneficiar as pessoas vítimas de violência.

Encontra-se ainda, em fase de implementação do projeto de assistência a 500 famílias afectadas pela inundação decorrente da tempestade tropical René, uma parceria entre a CRS (Catholic Relief Services – Organização da Conferência dos Bispos dos USA)  e a Caritas cabo-verdiana. 450 destas famílias são da Ilha de Santiago e 50 de São Vicente. Este projecto terá a duração de três meses e consiste em fornecimentos de 4 kits, sendo os kits únicos de higiene, cozinha e quarto e de alimentos.

Na sua carta pastoral para este ano insistiu muito na necessidade de as famílias redescobrirem o amor e a solidariedade. Como fazer isso? 

Essa interpelação decorre do facto de sabermos e estarmos convictos que a família é fundamental na transmissão de valores em qualquer sociedade. Assistimos a uma crise de valores sem precedentes na nossa terra: relativismo e relaxamento moral, egoísmo acérrimo, violência gratuita, ganância, injustiça social, falta de responsabilidade e de respeito uns pelos outros e pelas instituições, vazio espiritual, corrupção descarada ou subtil nos demais sectores da vida pública, insensibilidade perante os pobres e mais frágeis, descarte da vida humana, atropelos à liberdade e à consciência das pessoas, etc. E isso não nos edifica em nada nem nos prestigia. A Igreja e as famílias sólidas e conscientes do seu papel insubstituível na sociedade são importantes na inversão desta marcha que vamos tomando.

O caminho da Igreja é sempre a do amor e da solidariedade. E como a Igreja é uma comunidade de comunidades, são as famílias que ajudam a dar corpo e consistência a esta sua vocação de amar e fazer o bem sempre. A família tem ocupado um lugar privilegiado na programação da nossa Igreja. Desde há três anos para cá que o nosso lema pastoral gravita à volta desta – porque sabemos que a família é um tesouro da humanidade. Assim, tarefa muito importante é ajudar a família a tomar consciência e a ser ela mesma, a realizar a sua vocação e missão neste mundo: Família torna-te naquilo que és, afirmava o Papa São João Paulo II. Nos últimos anos, temos feito uma aposta grande nas famílias, apoiando os movimentos que têm como único objectivo ajudar as famílias (os esposos) a realizarem a sua missão, servindo mais e melhor a humanidade. É o caso das equipas de casais de Nossa Senhora que felizmente crescem de dia para dia e estão já implementadas em todas as nossas ilhas, envolvendo centenas e centenas de casais que regularmente buscam formar-se e trabalhar para uma maior santidade de vida, influenciando assim a nossa sociedade com uma onda de amor e solidariedade. Por todas as paróquias, se intensifica a promoção e organização dos secretariados das famílias e a articulação com os diversos grupo e movimentos que trabalham com as famílias.

Na Carta Pastoral dizia que: A Família -  Igreja doméstica - é chamada a ocupar o seu lugar central e decisivo para a recuperação da humanidade no nosso coração humano. Humanidade no sentido de recuperar os valores mais genuínos que o Criador semeou no nosso coração de todos os homens e mulheres: o amor, a verdade, a justiça, a solidariedade, o respeito pelo outro chamado como eu a existir com liberdade e dignidade sobre a mesma terra; humanidade também no sentido de fazer emergir uma nova humanidade, uma nova maneira de viver em sociedade.   

Que mensagem envia aos crentes neste período de Natal em tempos de pandemia?

Muitos me têm procurado, querendo saber o que tenho a dizer às pessoas, neste Natal em dias de pandemia. Obviamente que o Natal se tem revestido nos nossos dias de características e modos de celebrar que muito pouco ou nada tem a ver com o Natal cristão e a maneira como ele devia ser comemorado na fé. Natal, passou a ser na nossa cultura e sociedade uma quadra festiva generalizada, mas muito reduzida a uma dimensão humana e material, ofuscada pelo brilho do consumismo e açambarcamento material. Aguarda-se com mais ansiedade e expectativa, o Pai-Natal que tem de trazer prendas, do que o Menino Jesus que deseja trazer vida, ternura e paz! E, se é verdade que o Natal é uma boa e bela oportunidade para a família se encontrar para partilhar a ternura e a alegria, também é verdade que para muitos ele é tão somente isso! Natal tem de ser muito mais que uma festa da família e muito mais que um clima ou momento fugaz de boas intenções e votos de muita saúde e prosperidade. Natal, Natal é Deus a morar no meio de nós. E onde Deus não tem lugar ou onde Ele não entra, não pode haver Natal de verdade. Ele é fonte da verdadeira alegria, Ele é a razão da nossa esperança, Ele é a Paz (que nasceu em Belém), Ele é a Vida de que tanto precisamos. Assim, queira Deus que neste Natal, onde certamente nos havemos de estar privados de alguma coisa, às vezes nada importante, os nossos olhos de voltem para Aquele que é mesmo importante e essencial. Quer estejamos na dor ou na dificuldade, com problemas ou na solidão, perto ou longe dos entes queridos, O Menino – Deus Salvador sempre vêm. Feliz de quem O espera confiante e O acolhe, porque nesse a paz e a plenitude não desaparecerão jamais. Também faço um apelo a que pelo menos neste tempo forte da nossa fé, nos possamos esmerar ainda mais em matéria de solidariedade para com aqueles que mais precisam do nosso apoio e carinho. Não deixemos ninguém confinado nem afastado, e apesar de estarmos com máscaras na cara, retiremos as máscaras do coração, para vivermos com mais transparência e amor!

Quer acrescentar algo?  

Enquanto há esperança, há vida! Que enquanto durar esta tempestade, saibamos permanecer unidos e solidários na barca, que é esta aventura da vida em sociedade, porque sozinho ninguém se salva! Este tempo será um mau bocado da nossa história se não aprendermos nada com ele e sobretudo se não nos convertermos a uma vida mais humana. Nada tem tanto valor na nossa vida como os outros que Deus colocou ao nosso lado para exercitarmos a fraternidade e amizade! A felicidade consiste mais em dar do que em receber, disse Jesus. Esta lição, o mundo precisa de aprender.