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Sex, Jul

Como este projeto jornalístico relê o papel da escravidão na fundação dos EUA

Entrevistas
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Jornalista e pesquisadora americana Nikole Hannah-Jones, que coordenou projeto especial do New York Times, falou ao jornal brasileiro ‘Nexo’ sobre a repercussão de iniciativa que retrata a centralidade da questão racial na sociedade americana.

O ano de 1619 assinala a chegada dos primeiros africanos escravizados às colónias inglesas do continente americano. Poucos, no entanto, o reconhecem como um marco fundador da história dos Estados Unidos.

Foi por esta razão, para lembrar os 400 anos do início da escravidão no país e refletir sobre seu legado persistente na sociedade americana, que a revista do New York Times lançou, em agosto de 2019, o “Projeto 1619”: uma série de textos (que se desdobra também em um podcast e ensaios fotográficos) escritos por jornalistas, artistas e intelectuais negros que reconfigura a centralidade do evento para a história e o presente do país.

É a partir da escravidão que serão explicados diversos aspectos da nação mais poderosa do planeta, como o seu característico regime capitalista de produção, a ausência de um sistema de saúde universal e os vieses de seus mitos fundadores.

O projeto teve grande repercussão nos EUA e se tornou uma importante referência jornalística no tema. Ele foi coordenado por Nikole Hannah-Jones, jornalista e pesquisadora da MacArthur Foundation que veio ao Brasil para participar do Festival Serrote nos dias 13 e 14 de março de 2020, no IMS Paulista. O ensaio de Jones que integra o projeto foi traduzido para o português e publicado na 34ª edição da Serrote, revista de ensaios que organiza o evento. No texto, ela descreve de que maneiras a condição subalterna dos negros foi perpetuada nos EUA após o fim da escravidão e como eles lutaram por séculos pelo direito a uma cidadania plena. No processo, acabaram transformando o país em uma democracia real, não mais meramente formal.

Hannah-Jones falou ao Nexo sobre os impactos do projeto, a função do jornalismo no debate racial e o papel dos negros americanos na construção de um país mais democrático.

Como foi o processo de decisão, dentro da revista do New York Times, sobre a abordagem adotada pelo projeto?

NIKOLE HANNAH-JONES Concebi o projeto em 2018. Eu vinha estudando a questão racial e o racismo há muito tempo, em um mestrado em história e estudos afro-americanos, e muito do meu jornalismo trata de desigualdade racial. Estava pensando muito sobre o 400º aniversário dos primeiros africanos vendidos para as colônias britânicas. Muitos americanos provavelmente nunca ouviram falar do ano de 1619 - a história da escravidão é marginalizada na forma como somos ensinados sobre a história do país. Eu pensava em como eu podia usar minha plataforma no New York Times para forçar o reconhecimento do quanto a escravidão esteve na base da fundação do país e fazer com que esse aniversário tivesse atenção nacional.

Nos EUA, nos dizem que a escravidão acabou há 150 anos, que já devíamos tê-la superado a essa altura - talvez digam algo parecido no Brasil. Eu queria mostrar que o legado da escravidão perdura, que pode-se colocar fim em uma instituição praticada ao longo de 250 anos, mas que isso não acaba assim. O projeto olha para a vida americana hoje, para várias instituições, políticas, práticas, para a cultura e mostra que o legado da escravidão ainda está muito vivo, ainda impacta nossa sociedade. Esse era o aspecto mais crítico do Projeto 1619. Não se trata apenas de escrever sobre o presente, mas de mostrar como o passado ainda informa, e de muitas maneiras limita, o nosso presente.

Como a luta dos afro-americanos moldou a democracia do país?

NIKOLE HANNAH-JONES Nós não fomos fundados [enquanto país] como uma democracia, embora seja isso que os americanos são ensinados a acreditar. Sabemos que, em nossa fundação e quando a Constituição foi escrita, a maioria da população não podia votar - mulheres, pessoas escravizadas, indígenas. Então, na realidade, não éramos uma democracia. Os negros, em particular, que correspondiam a um quinto da população na época da Revolução Americana [1775-1783], não tinham qualquer cidadania e só viriam a tê-la após a Guerra Civil, em 1866.

Meu argumento é que, embora pessoas que chamamos de nossos pais fundadores tenham escrito aquelas palavras grandiosas sobre direitos universais e democracia, elas eram falsas. Mas as pessoas negras acreditaram ser verdadeiras, e acreditaram que elas se aplicavam a todas as pessoas nesse país, e não apenas a homens brancos donos de terras. Elas realmente se engajaram em uma luta de resistência que durou séculos, enfrentando seus próprios compatriotas para expandir na sociedade a ideia de direitos universais contida na lei e para democratizar nosso país.

Até 1965, a maioria dos americanos negros ainda era impedida de exercer seu direito ao voto. Foi apenas com a luta sangrenta pelos direitos civis, liderada quase exclusivamente pelos negros, que nós realmente tivemos sufrágio universal, válido não só para os negros mas para todos os americanos. É esse o papel que as pessoas negras vêm desempenhando nesse país: o de resistir no nosso próprio território na tentativa de expandir a democracia e os direitos. Mas nunca somos reconhecidos por isso.

Como o projeto 1619 impactou o debate racial nos Estados Unidos?

NIKOLE HANNAH-JONES Ainda é difícil medir, com o projeto tendo sido lançado há apenas seis meses. O que eu posso dizer é que há debates em curso e discussões sobre o projeto. Dia sim, dia não, há um novo artigo sendo escrito sobre ele, há políticos que o mencionam - o advogado de Donald Trump citou o projeto durante o julgamento do impeachment. Ele já está sendo ensinado em todos os estados do país, foi baixado por milhares de educadores. Então, com certeza, ele teve o papel de reformular a maneira como fomos ensinados a ver os Estados Unidos, sua fundação e o papel da escravidão. Não sei qual será o impacto de longo prazo. Mas é raro que um trabalho jornalístico consiga aterrissar na consciência nacional de forma a fazer as pessoas questionarem aquilo que aprenderam.

Quais foram as reações a ele? Como você as interpreta?

NIKOLE HANNAH-JONES A reação foi enorme e surpreendentemente positiva. A versão impressa do projeto se esgotou várias vezes. Tenho viajado pelo país para falar sobre o projeto desde que ele foi lançado, e os eventos estão sempre lotados. Ele alcançou uma parcela muito ampla da população americana, pessoas de todas as raças, classes e regiões do país. Elas dizem estarem sendo apresentadas a essa história pela primeira vez, que nunca aprenderam tanto sobre como a escravidão e o racismo contra os negros foram basilares para os Estados Unidos. Mas também apreciam as conexões com o presente que o projeto faz.

A reação negativa é o que menos me surpreende. Nos EUA, gostamos muito de endeusar nossa fundação. Somos criados para acreditar que esse é um país excepcional, fundado em ideais universais de igualdade, o país mais livre que o mundo já tinha visto - realmente acreditamos nisso.

Elaborar um projeto que diz que nossa fundação foi hipócrita, que fomos fundados sobre um paradoxo de liberdade e escravidão e que a história da escravidão é tão importante para o país quanto a história da liberdade é algo profundamente desestabilizador para aqueles que querem acreditar na excepcionalidade americana. Por isso não me surpreendi que ele tenha incomodado algumas pessoas e, sinceramente, se ele não tivesse sido alvo de controvérsia, eu sentiria ter falhado em criar um projeto que desafia a narrativa que nos foi ensinada.

Na sua visão, qual o papel do jornalismo ao pautar esse debate?

NIKOLE HANNAH-JONES O papel do jornalismo é desafiar os pressupostos das pessoas e tentar corrigir os registros. É isso que deveríamos fazer: em vez de simplesmente regurgitar velhas mitologias, forçar as pessoas a confrontar verdades incômodas e fornecer a elas a informação e o conhecimento para compreender de fato o mundo e a desigualdade que vemos todos os dias.

Como, historicamente, os grandes veículos da imprensa americana lidaram com o debate racial?

NIKOLE HANNAH-JONES Esses meios refletem as pessoas que os comandam, e a grande mídia foi e segue sendo dominada por americanos brancos de classe média e alta. Eles contribuíram em grande medida para propagar a mesma mitologia contra a qual esse projeto luta.

Temos visto isso mudar à medida que mais pessoas negras entram no jornalismo e chegam às grandes redações. Mas grande parte dessas redações mantêm a mesma narrativa de sempre.

Qual o estado atual da discussão sobre a questão racial na sociedade americana?

NIKOLE HANNAH-JONES Acho que parte do problema é que estamos sempre discutindo [a questão racial] nos EUA, mas não agimos. Falamos muito sobre isso mas fazemos muito pouco para enfrentar o problema. Desde a eleição de Donald Trump, a divisão racial cresceu. A grande maioria dos americanos negros, quase 90%, acredita que Trump é racista. A maioria das pessoas negras americanas crê que estamos retrocedendo nas pautas raciais. Americanos brancos pensam muito diferente. Um grande número deles não acha que Trump é racista, nem acredita que o racismo ainda seja uma grande barreira para os americanos negros.

Somos um país profundamente dividido e essa divisão aumentou após a eleição do nosso primeiro presidente negro. Esse é o estado das relações raciais e do debate sobre raça nos EUA no momento, e não estão indo muito bem.

Quando esse país elegeu Barack Obama, havia um sentimento por parte de muitos americanos brancos de que havíamos superado o racismo, que havíamos nos tornado uma sociedade pós-racial, na qual isso não importava mais. E então, quando seu mandato foi seguido pela eleição de Donald Trump, que concorreu com uma campanha xenófoba, acho que parte da população branca americana ficou chocada, tentando entender como isso aconteceu e o que isso diz sobre quem realmente somos. Acho que o Projeto 1619 ajuda a entender que esse sempre foi um país no qual o progresso racial foi seguido por uma reação contrária, e isso é exatamente quem nós sempre fomos [enquanto país].