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Sab, Fev

“Foi gratificante ouvirmos o Santo Padre afirmar que a Fé não rebaixa a dignidade do homem” - Zezinha Alfama

Entrevistas
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A Igreja de Cabo Verde está a celebrar o 30º aniversário da histórica visita do Papa João Paulo II a Cabo Verde de 25 a 27 de janeiro de 1990. O Papa que beijou o “solo árido” das nossas ilhas marcou de forma indelével a nossa história e memória comum. O Terra Nova falou com Zezinha Alfama, na altura Secretária Geral da Juventude da Ação Católica que fez o discurso ao Santo Padre em nome de todos os jovens. Confira: 

Completaram-se agora 30 anos sobre a visita do Papa João Paulo II a Cabo Verde. Que recordações?

Imensas… Foram dias extraordinários. Os de preparação, os de vivência do acolhimento de alguém tão especial e os que se sucederam, porque era preciso levar a alegria, a mensagem e o nosso testemunho aos que não tinham tido a oportunidade de estar no encontro com o Papa.

Recordo, com emoção, o meu coração acelerado a ler a mensagem de saudação e a vontade de terminar rapidamente e abraçar aquele homem tão simpático, com um olhar tão profundo e que me transmitia, pelas suas expressões mil coisas: paz, serenidade, confiança, perseverança, enfim, muita força para mudar o mundo, apesar das limitações próprias da idade que ele tinha.

Lembro-me da nossa força para correr e acompanhar o Papa-móvel sem nunca ter participado em nenhuma maratona. 

Foram tantos os ensaios nos quais participei, sejam os de preparação do Grupo Coral para a Grande Celebração em Quebra Canela, sejam os de apresentação da dramatização do “Poema da manhã”, no encontro do Papa com os jovens. A declamação do poema foi feita por mim. E haviam também os cânticos de animação dos jovens. No dia tudo saiu lindamente. Foram momentos sublimes.

E ainda guardo as muitas imagens das multidões nas várias Celebrações e nas ruas, das ovações dos jovens no Gimnodesportivo “Vavá Duarte”, então chamado pela organização da visita de “Palácio dos Desportos”. Achamos interessante, na altura, esta designação.

Como foram os dias de preparação? Tinham noção da dimensão daquela visita?

A preparação foi tranquila, mas sempre rodeada de alguma preocupação do como fazer melhor para que nada falhasse. O Secretariado Diocesano da Juventude participou em algumas reuniões de preparação nas quais, para além de se definir o que seria o encontro com o Santo Padre, o papel de cada interveniente e o tempo destinado a cada etapa, também se fazia o ponto de situação dos preparativos. A maior parte das vezes fomos representados nos encontros a nível da Diocese pelo Assistente da Pastoral da Juventude Diocesana, o Padre Fidalgo de Barros. 

Sim. Tínhamos a noção de que algo fenomenal estava para acontecer em Cabo Verde. Então havia naturalmente um enorme entusiasmo nos preparativos, seja no grupo de jovens na Praia, como também em S. Domingos, que fez a apresentação da dança “Cabo Verde sta di parabéns cu visita honrosa di nos Papa”.

Nos grupos de jovens, um pouco por todo o Cabo Verde, houve momentos de preparação com reflexões sobre o Papa e o papel que ele desempenha na Igreja e no Mundo e se aprendeu o hino “Benvindo João Paulo II”. Também na Paróquia de Nossa Senhora da Graça, apoiamos na produção de todo o material de ornamentação dos espaços onde iam acontecer os encontros. Apoiamos também a preparação de crachás para os participantes dos encontros. Enfim, foi muito trabalho mas valeu tudo muito a pena esse empenho.

Teve o privilégio de dirigir-se ao Santo Padre em nome dos jovens. Sintetiza-nos o seu discurso

O discurso, elaborado pelo Secretariado Diocesano da Juventude, foi dividido em duas partes: a primeira, focada numa breve saudação ao ilustre visitante, lida por mim e a segunda, de apresentação das inquietações dos jovens Cabo-verdianos, lida pelo meu colega Olavo Delgado. 

O que dissemos, na altura, ao Santo Padre?

Primeiro foi agradecer o que ele tinha sido e continuou a ser para a juventude do mundo inteiro e pela felicidade de tê-lo no meio de nós e de poder escutá-lo. Perguntávamos então pelo caminho: “mostre-nos o caminho, fale-nos de Cristo e isto nos basta”. Este era o nosso maior desejo.

Também fizemos uma breve apresentação de quem éramos: a “nova geração de Cabo-verdianos empenhados na tarefa da reconstrução nacional” e que estávamos inquietos, à procura do próprio futuro. Apresentamos também o nosso País e os principais desafios: seca, insegurança e emigração/peregrinação pelo mundo à procura duma vida digna. 

Os desafios da juventude de então foram sintetizados e associados às novas tecnologias que estavam a avançar rapidamente, à alienação cultural, à falta de Paz no coração, ao aumento incalculável de tudo quanto se opunha à vida e à desafeição pela prática religiosa.

E como, na altura, aos jovens estavam associadas as palavras amor, sexo e educação sexual, pedimos ao Santo Padre uma palavra iluminadora sobre esta matéria.

Estávamos preocupados com o nosso desempenho na construção da Igreja, da sociedade e do mundo. Sobretudo quisemos ouvir da boca do Santo Padre o que a Igreja esperava de nós.

Do teu discurso de há 30 anos o que mudaria se fosse hoje?

Pouca coisa… há desafios, que a meu ver, se mantêm. Por exemplo, a falta de paz e a desafeição pela prática religiosa da parte dos jovens, consequência da educação que recebemos, do défice de referência ou de testemunhos credíveis dos adultos para os mais jovens, ainda persistem.

Em relação aos demais desafios então apontados, acho que sofreram uma complexificação com o passar do tempo. A chegada das novas tecnologias trouxe sérias questões relativas ao seu uso. Há mais informação, mas falta saber fazer a filtragem das mesmas, falta discernimento para se fazer o seu bom uso. A maioria dos jovens Cabo-Verdianos conhece mais a Cristo, quer pelo caminho que muitos fazem enquanto crianças e adolescentes participantes das Celebrações e das formações/catequese e inclusive através dos meios digitais. Mas, o dia a dia é feito geralmente de opções que envolvem sérios riscos para a vida dos jovens e que comprometem, de certo modo, o futuro dos mesmos.  O desrespeito pela vida humana continuou a agravar-se, do meu ponto de vista. Pelo grau de educação e de desenvolvimento do nosso País não era de se esperar o agravamento das várias formas de violência, por exemplo. Apesar das medidas que foram tomadas pelos sucessivos Governos de Cabo Verde, no sentido de se combater as várias formas de violência, ainda hoje, é uma preocupação para todos nós.

Introduziria no discurso hoje questões mais recentes e que têm dado que falar em alguns ambientes, nomeadamente a inclusão social, as questões de género e de aceitação/rejeição da orientação sexual.     

O que lembra da mensagem do Papa aos jovens?

Alguma coisa… Pelo tempo que vivíamos, tocou-me ele ter trazido à nossa reflexão a mensagem de S. Paulo aos Gálatas: “irmãos, fostes chamados à liberdade”. Ele lembrou que a mesma dava resposta às interrogações que colocávamos e quem se assume como filho de Deus e acolhe Cristo já não é escravo.

“Em Cristo, vós podeis ser livres” - afirmou com entusiasmo. E incentivou-nos a acolhermos Cristo na nossa vida. A caminharmos com Ele. A optarmos por valores autênticos, “sobre os quais se funda a verdadeira liberdade”. Foi a partir deste encontro que nós, os jovens, passamos a usar e a pensar mais na expressão “ser mais”. E que vale mais do que “ter mais”.

Foi gratificante ouvirmos o Santo Padre afirmar que a Fé não rebaixa a dignidade do homem nem nos afasta do mundo. Encheu o meu coração escutar estas palavras. Deu-me mais força na minha caminhada enquanto jovem e mais tarde enquanto adulta.

Uma das recomendações que mais me marcou foi a de permanecermos firmes na Fé e de nos deixarmos guiar pelo Espírito.   

Vale para os jovens de hoje?

Creio que sim! Hoje, mais do que nunca, é preciso descobrir ou redescobrir o significado de liberdade, de “em Cristo, podeis ser livres”. Têm surgido, a meu ver, novos conceitos de liberdade, muito baseados na subjectividade e que interessa a determinados grupos sociais e que acabam por ferir a dignidade da pessoa humana. O egoísmo doentio e a indiferença em relação ao próximo são males que invadiram o mundo. E Cabo Verde não está imune a estas patologias. Constituem desafios a ser tidos em conta pelos educadores, sejam eclesiais ou de outras organizações que lidam com a formação do carater, sobretudo das crianças e dos adolescentes. O Papa Francisco tem dado continuidade ao aprofundamento destas temáticas.

Ao cumprimentá-lo tinha a noção de estar a cumprimentar um Santo?

Eu tinha a noção clara que ele era um homem de Deus. Um ungido. Um grande pastor do povo de Deus. Alguém que era testemunho vivo do amor de Deus pelos homens e que era, e é, exemplo a seguir. Um homem de coração jovem e com um cantinho especial para a juventude. Alguém de confiança, que nos acolhia tal como éramos, com as nossas fraquezas e limitações mas também com a nossa sede de ser mais e de ultrapassar tudo o que pretendia impedir o nosso sonho de homens da amanhã. Não tinha a noção de que um dia ele seria declarado santo. É bom saber que podemos contar com este grande intercessor junto de Deus.