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Ter, Dez

"A violência do género tem colocado fim à vida de muitas mulheres" - Marilene Pereira

Entrevistas
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Ao considerar as diferenças sociais produzidas pela divisão de género e levantar seus dados, fica evidente as mil faces da violência. “As políticas de género, que em Cabo Verde têm se traduzido apenas no empoderamento da mulher. Isso porque a mulher tem, claramente, avançado rumo a conquistas importantes e o homem não tem acompanhado esse processo, fica para trás, inclusive financeiramente”, considera Marilene Pereira em entrevista por e-mail ao Terra Nova Ideias concedida em maio último. 

Há também um lado da violência que é ainda socialmente  pouco discutida mas que tem preocupado a nossa entrevistada: trata-se da violência no namoro. Até porque, segundo ela, “há uma espécie de aceitação por parte das meninas”. Muito além de questões policiais e burocráticas em relação à violência, as cicatrizes psicológicas são permanentes e trazem efeitos em várias dimensões da vida. A violência tem um impacto emocional muito grande na vida das mulheres, pois afeta sua autoestima, percepção de sua própria identidade, desejos e necessidades. Suga as energias das mulheres, que utilizam diversas estratégias para enfrentar a violência, inclusive através do silêncio. Para Pereira, porém é muito mais do que isto: “mais que marcar a vida da mulher, a violência do género tem colocado fim à vida de muitas mulheres”. Confira a entrevista.  

Como entender o crescimento do recrudescimento da violência em Cabo Verde? 

Será que há mesmo um recrudescimento da violência ou há mais publicitação dos casos? Não haverá mais consciência por parte das pessoas e, logo, mais denúncias? Lembro-me de que, quando cheguei aqui, há 30 anos, as pessoas diziam, relativamente às festas, que uma festa não tinha sido boa porque não tinha havido nenhuma facada. Mas, voltando à pergunta, sabemos que Cabo Verde foi concebido com base na violência, de homens retirados de sua terra para serem explorados aqui, de mulheres que serviam como animais reprodutores. Portanto, sociologicamente falando, a origem tem como base a violência. Entretanto, não temos dados comparativos para falar, cientificamente, de aumento ou não da violência. O que temos é o nosso olhar, e o que sai nos media.

Como a violência de género marca a vida de uma mulher? Quais são os aspectos subjetivos envolvidos? 

Na verdade, os dados mostram, mais que marcar a vida da mulher, a violência do género tem colocado fim à vida de muitas mulheres. Marcando o presente e comprometendo o futuro. E há aspectos culturais atrás disso, para além do machismo. Há, no caso de Santiago, por exemplo, aquela lógica do “amor di badiu”, relacionado com violência física, há, ainda, algo que ultrapassa a nossa sociedade, de que “um tapinha não dói”. Há, ainda, mais grave, aquela afirmação que a mulher gosta de apanhar. E ainda, a nível dos media mundiais, através da publicidade, uma coisificação da mulher. Até, por exemplo, para incontinência urinária, que é também um problema do homem a partir de certa idade, o que se mostra é o corpo da mulher. 

Por outro lado, e de mais longa data, há a questão de nossa cultura judaico cristã, que é a nossa, na qual a mulher, a partir de Eva, virou culpada. E isso nem a existência de Maria, mãe do Salvador, e, logo, salvadora também, conseguiu alterar. Ainda há mais marketing do pecado da Eva do que da presença salvadora de Maria.

Tem aumentado o número de crimes passionais onde o homem mata a mulher e depois de suicida. Há alguma explicação para isso? 

Também não posso falar em aumento, porque não tenho estatística. Mas a verdade é que  tenho pensado muito sobre isso. E venho falando, nos últimos três, quatro anos, que a violência do homem contra a mulher vai aumentar. E por que? No meu ponto de vista, as políticas de género, que em Cabo Verde têm se traduzido apenas no empoderamento da mulher, são uma das causas. Isso porque a mulher tem, claramente, avançado rumo a conquistas importantes e o homem não tem acompanhado esse processo, fica para trás, inclusive financeiramente. E ele não foi preparado para essa nova realidade. Assim, a única coisa que resta a esse homem, com escolaridade mais baixa que a mulher, com menos oportunidade de trabalho, em decorrência também da baixa escolaridade, é a força física. Isso tudo caldeado por uma educação machista.

Além disso, estando uma parte significativa desses crimes envolvendo relações afetivas – a velha e doentia relação entre amor e ódio – penso que, muitas vezes, ao se dar conta que perdeu para sempre o ser amado o homem não vê outra saída senão terminar com a própria vida. Isso revela, duplamente, a fragilidade emocional do homem, que na sociedade machista não é preparado para gerir emoções, não é preparado para se colocar no lugar do outro, não é preparado para ter compaixão porque sempre, historicamente, foi colocado num pedestal. Paradoxalmente, esse pedestal não se traduz de mais atenção dentro de casa, visto que a vida desse homem decorre, maioritariamente, na rua.

Considera que as mulheres cabo-verdianas são também violentas? 

De certa forma sim, na sua relação com os filhos. Ainda é muito comum bater, às vezes de forma violenta, nas crianças. Assim as mulheres, que são a maioria dos chefes de família do país, acabam por reforçar e reproduzir a violência, isso porque é lógico que quem apanha, quando puder vai bater. 

A que se deve essa violência feminina? 

Ao ciclo da própria vida das mulheres. Cresceram vítima de violência física, psicológica, econômica....

Ultimamente fala-se também de violência no namoro. Há razões para se preocupar? 

Com certeza. E isso parece ser um fenómeno global. E, o mais grave, é que há uma espécie de aceitação por parte das meninas, que consideram – já há estudos a provar isso – uma certa violência do namorado (no começo quase sempre psicológica, com excesso de ciúmes e controlo do telemóvel, do email) como um sinal de amor. 

Muitas vezes, nos últimos anos, os jovens da periferia dos centros urbanos, na sua afirmação identitária, tomam como valor a questão da violência e do armamento. O fato de Cabo Verde ser um país um pouco machista agrava a situação? 

Agrava a situação o fato de não haver uma educação de qualidade, que integre os rapazes. O que tenho notado, desde a época em que dava aulas no ensino secundário, é uma erosão de jovens do sexo masculino do sistema de ensino a partir do nono ano. Sem escola, sem trabalho, sem nada para fazer...cabeça vazia é morada do diabo, como é comum dizer-se. Se o machismo agrava essa situação? Em parte, visto que na lógica machista o homem já nasce pronto e completo. Não precisa aprender nada nem apoio de ninguém. E isso já não funciona num mundo de política de direitos e deveres iguais entre homens e mulheres. 

De que forma essas ocorrências ilustram algum cenário de violência interior? 

Não vejo como um cenário de violência interior, vejo um cenário de confusão interior – numa sociedade forjada na violência - num mundo que procura combater essas posturas, com campanhas de promoção dos direitos humanos, de respeito pelo outro, da solidariedade. E, por outro lado, quando os jovens, sobretudo, consomem produtos televisivos, como filmes e séries que hoje, na sua maioria, são praticamente instrumentos de promoção da violência. 

Que papel podem desempenhar as escolas? 

Em muitos casos as escolas não estão conseguindo desempenhar nem o papel que devem ter, como ensinar, com qualidade, as quatro disciplinas básicas. E noutros é a própria escola, através de práticas condenáveis de certos professores, a reproduzir violência. Há professores em escolas da cidade da Praia que ainda utilizam a palmatória. Esses dias encontrei com uma criança vizinha que se mostrava cansado e revoltado porque ficou de castigo, numa escola privada, uma hora porque tinha se esquecido de copiar um parágrafo numa lição. Além disso ela foi obrigada a copiar em casa o parágrafo uma série de vezes quando já tinha excesso de TPC. Isso não é violência? Que tipo de educação contra violência uma escola assim pode dar? 

 

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Marilene Pereira é Professora e jornalista com incursões na literatura infantil e juvenil. É atualmente a Diretora do Centro Cultural Brasil-Cabo Verde.

Esta entrevista foi concedida no âmbito da publicação do Terra Nova Ideias, suplemento online do Jornal Terra Nova de maio de 2019. Confira aqui a edição completa.