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Ter, Jan

Dom Teodoro Tavares: “Ser missionário na Amazónia tem sido uma das maiores bênçãos de Deus na minha vida”

Entrevistas
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No início do Sínodo sobre o Amazónia que decorre no vaticano de hoje, 6, até o dia 26  o jornal Terra Nova falou com o Bispo Dom Teodoro Tavares que trabalha na região de Amazónia desde há vários anos e é ali bispo na Diocese de Ponta de Pedras. 

Dom Teodoro fala nesta entrevista sobre a iniciativa do Papa em Convocar o Sínodo considerando que ele “acolheu o desejo da Igreja nos nove países da Pan-Amazónia”. Para aquele prelado cabo-verdiano que vive a trabalha em Amazónia desde 1995 ser missionário naquela terra “tem sido uma das maiores bênçãos de Deus” na sua vida. Confira:

 

O Sr. Bispo foi missionário e agora é pastor na região do Amazónia. Como é que particularmente viveu no passado mas sobretudo agora o seu progresso desmatamento?

Ouso dizer que desde tempos antigos houve queimadas na Amazónia, sobretudo para fins agrícolas. Mas nestes últimos anos, a incidência das queimadas está sendo maior. O desmatamento da floresta amazónica aumentou consideravelmente, conforme informações oficiais de vários órgãos e instituições que trabalham com questões ambientais. Infelizmente, constata-se que a degradação do meio ambiente não acontece apenas na Amazónia, mas também em outras partes do mundo, o que é muito grave, triste e preocupante... Todos temos a responsabilidade moral de zelar pela integridade da criação, de cuidar da Casa Comum! 

Houve uma série de acusações de quem é o culpado das queimadas. Para si quais interesses estão por detrás delas? 

Amazônia é uma região muita rica e cobiçada... Situada no coração da América do Sul, o território da Amazónia é de 7,8 milhões de km2, incluindo nove países (Brasil, Bolívia, Peru, Equador, Colômbia, Venezuela, Guiana, Suriname e Guiana Francesa), o que corresponde a aproximadamente 30% da superfície do nosso planeta. Esta parte do mundo possui 40% da área de florestas tropicais do globo e uma riquíssima biodiversidade, mas está ameaçada por causa de interesses económicos, da ganância de pessoas inescrupulosas e empresas extrativistas que exploram e destroem  de forma  violenta e irracional a floresta e os rios da Amazónia, ameaçando e matando a flora e a fauna milenares,  com o desmatamento para produzir monoculturas, projetos de mineração, a caça e pesca predatórias,  com incêndios criminosamente provocados  e a violação sistemática dos direitos humanos, especialmente dos povos originários...

 É claro que alguém deve ser responsabilizado por tais práticas criminosas e abomináveis!... Recentemente, o mundo viu a floresta amazónica ardendo e ouviu  o clamor dos povos que vivem nesta região do planeta, considerada, juntamente com a bacia do Congo, “o pulmão do mundo”. No que se refere à Amazónia brasileira, as autoridades governamentais continuam investigando e  tomando medidas cabíveis para combater o incêndio, o desmatamento e proteger o floresta amazónica. É uma tarefa bastante árdua e exigente ...  

Localmente manifestamos o nosso repúdio e a nossa indignação ética perante a exploração ambiental irracional e sua destruição. Ninguém deve ficar indiferente a essa situação, que é grave e preocupante. Sabemos também da preocupação do mundo inteiro a respeito deste macro-bioma que desempenha uma importantíssima função reguladora do clima planetário. Todas as nações são chamadas a colaborar com os países amazónicos e com as organizações locais que se empenham na preservação da Amazónia.

3. Os bispos da América Latina e Caraíbe já se posicionaram pedindo maior proteção ao Amazónia. Por que a Igreja se preocupa com a questão dessa grande floresta? 

Bem, a Igreja se preocupa não só com a floresta amazónica, mas também, e sobretudo, com os povos da Amazónia, os quais se sentem ameaçados. A nossa responsabilidade em defender a Amazónia, o nosso  compromisso com o meio ambiente é inseparável da defesa intransigente da vida e dignidade do ser humano. Aliás, o direito da pessoa humana à vida é o primeiro elemento de uma ecologia humana, que serve como referência a uma ecologia ambiental. Todavia, nós nos preocupamos com a situação delicadíssima da floresta amazónica, que é verde e exuberante, mas sua beleza está ferida e deformada, por causa de sua desflorestação, destruição e do “grito” da dor da  Amazônia. Já o Papa Francisco nos convidava em Puerto Maldonado (Peru), em 2018, a defender esta região ameaçada para o bem de todos. Sabemos que desta macrorregião depende a sobrevivência dos povos da Amazónia e do ecossistema em outras partes do mundo.
 Além do mais, a Igreja é chamada a defender a vida em plenitude, pois Cristo veio para que todos tenham vida em abundância (cf. Jo 10,10). 

4. Começou no Vaticano o Sínodo exatamente sobre a Amazónia. Como a sua diocese e as outras da região se prepararam para viver esse evento eclesial? 

A minha Diocese de Ponta de Pedras, em sintonia com as outras dioceses que são abrangidas pela região panamazónica, participou ativamente do processo de consultas/escutas pré-sinodal, de reunião e encontros, a todos os níveis, tendo em vista a elaboração do documento de trabalho para o Sínodo (Instrumentum Laboris). A nível do Brasil, realizamos três encontros de preparação para o Sínodo, com todos os Bispos da Amazônia brasileira, ou melhor, com os Padres sinodais. Nesses encontros houve momentos de oração, estudo, reflexão, partilha e celebrações  eucarísticas. Na minha diocese em particular, já estudamos o Instrumentum Laboris, começando pelo clero e os agentes de pastoral; estamos divulgando (sobretudo através da rádio e redes sociais) e sensibilizando  o povo de Deus de toda a diocese para tenha consciência da importância deste Sínodo especial para a Amazónia, e reze pelo seu bom êxito, em comunhão com toda a Igreja. 

5. Porque acha que o Papa Francisco convocou esse Sínodo?

Eu diria que o Santo Padre convocou este Sínodo, obviamente a partir da sua livre e soberana vontade, mas também  levando em consideração uma carta que nós,  Bispos da Amazônia,  reunidos em Belém do Pará (Brasil), lhe escrevemos em 2016, pedindo um Sínodo para a Amazônia. Ele acolheu o desejo da Igreja nos nove países da Pan-Amazónia. É bom lembrar também que o Papa Francisco, ao visitar a Amazônia, ouviu e viu, in loco, os desafios desta região do mundo. Tendo presente sua sensibilidade ecológica e missionária, ele convocou em 15 de outubro de 2017 a “Assembleia Especial do Sínodo dos Bispos para a Pan-Amazônia”, com o tema “Amazônia: novos caminhos para a Igreja e para uma ecologia integral”.

6. Muitas pessoas pensam que Amazónia é apenas uma imensa área florestal. Mas há gente vivendo aí. Conta-nos a sua experiência de trabalho com essa gente?

É verdade que Amazónia tem a maior floresta tropical do planeta. Também o rio amazonas é considerado o maior rio do mundo. Mas além desta imensa floresta e da sua inefável biodiversidade, da flora e da fauna, dos rios e  lagos e igarapés, aqui também há muita gente, de várias raças e culturas!... Amazónia é uma realidade complexa, multiétnica e multicultural. Há povos indígenas ou originários, afrodescendentes, caboclos/mestiços, ribeirinhos, quilombolas, emigrantes, entre outros..., totalizando mais de 25 milhões de habitantes, segundo os resultados do Censo Demográfico  de 2010  (mas isto é só em relação ao número de habitantes que vivem atualmente nos Estados da Amazónia brasileira). 

Considero a minha missão uma grande graça de Deus. Ser missionário na Amazônia tem sido uma das maiores bênçãos de Deus na minha vida. Eu me sinto deveras confirmado na minha vocação e feliz na missão junto do povo de Deus, que fui chamado a servir, desde que pisei este “chão da Amazónia”, em 1995.

Creio que bastaria partilhar aqui o que tenho feito, com a graça de Deus e a colaboração indispensável de muitas pessoas, nestes últimos anos do meu episcopado, particularmente na minha Diocese de Ponta de Pedras, nesta parte oriental da Amazônia - no Estado do Pará (antes trabalhei como padre na parte da Amazónia ocidental – no Estado do Amazonas)... Pois bem, inicialmente exerci o meu pastoreio na Arquidiocese de Belém, a partir de 2011, como Bispo Auxiliar, durante quatro anos; depois fui nomeado para a atual Diocese de Ponta de Pedras.

Em geral, a minha agenda é semelhante a de outros bispos residenciais, os quais exercem o seu pastoreio na sua diocese, fazendo aquilo que é lhes compete: apascentar com amor o seu rebanho, exercer o múnus de ensinar e santificar o povo de Deus no âmbito da sua circunscrição eclesiástica. Durante o ano, faço regularmente visitas ao Seminário Maior da diocese assim como visitas pastorais em toda a diocese, na cidade e no interior, para ministrar o sacramento da confirmação e presidir à Eucaristia, além de outras atividades pastorais… Nessas visitas realizamos encontros, reuniões, formação e celebrações com os fiéis. A maior parte das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) está no interior.

Para mim, a visita pastoral é muito gratificante, tanto para as comunidades cristãs que recebem o seu pastor, como para o bispo que visita, celebra, convive e confirma na fé o povo que foi confiado. Tenho tido também a graça de ordenar regularmente alguns sacerdotes diocesanos e diáconos permanentes na diocese, o que vai nos ajudando a dar um salto qualitativo no trabalho de evangelização;  participo na formação e capacitação de leigos e leigas para assumirem diferentes ministérios conferidos aos cristãos leigos.

Além disso, tenho outros compromissos a nível da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (regional e nacional); nestes últimos quatro anos representei a CNBB na Conselho Nacional de Igrejas Cristãs (CONIC), cuja missão é  promover o diálogo e a vivência ecumênica entre as Igrejas e religiões; tenho também como compromisso permanente o serviço de atendimento na cúria diocesana, aulas semestrais na Faculdade Católica de Belém, conferências  e outros compromissos que vão surgindo...    

7. Quer acrescentar algo?

Por fim, aproveito para agradecer, em primeiro lugar, a Deus pela graça que me concedeu ao me chamar e enviar em missão junto deste povo da Amazónia; e a todos os que comungam da nossa fé e me apoiam com sua amizade e preces. Asseguro-lhes também as minhas orações. Continuemos sempre unidos em espírito e oração.

Estamos no mês de Outubro, que é dedicado às missões e este ano, por feliz coincidência, será também o mês do Sínodo especial para a Amazónia. Peço e agradeço as orações de todos para que este Sínodo seja realmente um tempo de graça, um novo Pentecostes para a Igreja na Amazónia e toda a Igreja de Cristo. Que Deus nos abençoe e nos acompanhe na nossa vida e missão!

 

TN - Redação