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"H. Teixeira de Sousa é uma referência incontornável da nossa história cultural" - Ondina Ferreira

Entrevistas
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Se estivesse vivo, Henrique Teixeira de Sousa completaria, hoje, 6 de setembro 100 anos de vida. O médico foguense nasceu no dia 6 de setembro de 1919 na frequesia de São Lourenço onde hoje, repousam os seus restos mortais. Ondina Ferreira escritora e conhecedora do autor de “Ilhéu de Contendas” numa entrevista concedida ao nosso jornal fala de um homem “é uma referência incontornável da nossa história cultural”. Confira a entrevista! 

Se Henrique Teixeira de Sousa estivesse vivo estaria a completar 100 anos. Que recordações pessoais?

A primeira recordação pessoal que eu guardo é a do médico Dr. Teixeira de Sousa que me tratou no Fogo, eu era ainda muito criança. De tal modo, ainda muito criança, que sei disso pelo que me contaram os meus pais.

Mas mais tarde, “sempre o vimos e o seguimos” de perto... clínico em São Filipe. Médico em São Vicente. Fui colega de liceu em Mindelo da filha mais velha, a Guiducha, a Margarida Teixeira de Sousa. Sou leitora de muitos anos  dos seus textos enquanto Escrito e Ensaísta.

Depois passei a ser francamente, leitora aficcionada da obra literária de Teixeira de Sousa. Primeiro dos Contos, que considerava umas autênticas pérolas ficcionistas, por tudo aquilo que contém de memorialista , de intimista e, sobretudo da arte de narrar.

Dos romances, os grandes romances que considero emblemáticos em termos de personagens e de espaços, Teixeira de Sousa deixou-nos bem retratadas as cidades de São Filipe, de Mindelo e das suas  respectivas gentes.  Alguns deles, configuram-se autênticos romances históricos como é o caso do romance: «Entre Duas Bandeiras» ou mesmo, «Ilhéu de Contenda».

Qual o lugar de Teixeira de Sousa na literatura cabo-verdiana século XX e na do mundo lusófono? 

Costumo dizer que graças à sua longevidade literária e cultural, Teixeira de Sousa pôde viver e participar em momentos fundadores e transformadores da nossa trajectória literária.

Assistiu ao nascimento de «Claridade» (1936) enquanto estudante do Liceu Gil Eanes em São Vicente. Participou do Movimento «Certeza» (1942) e, presenciou sempre incentivando, os movimentos e/ou momentos literários subsequentes que nas ilhas se construíram.

Qual a marca literária de Henrique Teixeira de Sousa? 

Ora bem, a marca literária criativa e cultural de Teixeira de Sousa aborda-se de vários ângulos. Enquanto contista, como alguns dos melhores Contos da nossa Literatura. Refiro-me a «Dragão e Eu», «Menos Um», «Contra Mar e Vento» «Jocasta», entre outros, fabulosamente criados pela sua pena memorável.

Mas Teixeira de Sousa é também o ensaísta de muito artigos e estudos de natureza vária. Desde do Nutricionista que ele era, passando pela visão de estudioso dos nossos usos, costumes e comportamentos. Desta vasta produção que ainda está por compilar, pois encontrámo-la dispersa fundamentalmente em dois periódicos. «Cabo Verde-Boletim de Propaganda e de Informação» 1949-1964 e o Jornal «Terra Nova». Com este último mensário, colaborou até nos ter deixado em 2006.

Se alguém quisesse ler pela primeira vez a obra de HTS, por qual aconselhava que começasse?

Se tivesse que aconselhar um putativo leitor para se iniciar na obra de Teixeira de Sousa, havia de recomendar que lesse os contos todos. Dos romances destacaria os respeitantes ao Fogo, de períodos distintos em que o primeiro seria «Ilhéu de Contenda»  e do último período «Xaguate». Para o romance mindelense, destacaria: «Junga» como galeria de personagens referenciais de uma época antiga e memorável da cidade portuária e, «Entre Duas Bandeiras» como mais significativo de uma história mais recente, isto é, dos momentos marcantes e imediatamente anteriores à independência de Cabo Verde.  

Interessante também, o romance «Òh Mar de Túrbidas Vagas» em que o autor faz o “casamento” entre as duas ilhas vizinhas, Fogo e Brava, num verdadeiro preito familiar.

Henrique Teixeira de Sousa atravessa 3 períodos muito distintos da nossa história. Como o autor explora a identidade cabo-verdiana nas suas obras?

Dizer que Henrique Teixeira de Sousa é um profundo e um fino analista social, que do meu ponto de vista já não o é só do Fogo e de São Vicente. Não, neste particular, ele é arquipelágico, se assim me posso exprimir.

Os seus textos ensaísticos saem desse âmbito mais restrito e pertencem igualmente a todas as ilhas de Cabo Verde.

Convinha assegurar que desde o seu debruçar científico sobre as maleitas e as carências nutritivas por que passava a população cabo-verdiana à época em que ele as descreveu; passando em  pormenor determinados aspectos sociais, comportamentais do cabo-verdiano e, indo até às marcas históricas que estabelecem e definem a nossa identidade de ilhéus. Tudo isso é muito abrangente...

Acha que é suficientemente conhecido e estudado?

Recomendo vivamente que o meio académico, a escola no geral cuide melhor - lendo-a e interpretando a portentosa obra literária que este grande escritor nos legou.

Quer acrescentar mais alguma coisa?

Pois bem, nunca será de mais afirmar que H. Teixeira de Sousa é uma referência incontornável da nossa história cultural, como também reiterar as suas marcas, Neo-realista, Caridosa e da Certeza também, visíveis nos seus escritos criativos, ficcionistas, erigidos com talento de mestre.

 

TN - Redação