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Sex, Dez

Grande Entrevista com Dom Arlindo: "Eu gosto de ser cardeal-pastor” (c/video)

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Há 10 anos, precisamente a 15 de agosto de 2009, Dom Arlindo entrava solenemente na Diocese de Santiago de Cabo Verde, a sua Diocese de origem e dela tomava posse como seu 34.º bispo diocesano. Transcorridos 10 anos desde aquela data, Dom Arlindo concedeu uma grande e exclusiva entrevista ao Jornal Terra Nova para fazer um balanço exaustivo do seu ministério espiscopal à sua Diocese. Desde a relação com os padres, às mudanças e iniciativas que levou a cabo, Dom Arlindo com clarividência e honestidade intelectual responde, mostra onde a Diocese se encontra e que caminho ainda tem que percorrer. Confira! 

 

Que balanço faz desses 10 anos de ministério episcopal à sua Diocese natal?

Não é fácil fazer um balaço de percurso durante estes primeiros 10 anos de ministério episcopal aqui na Diocese de Santiago. Eu entrei na Diocese em 2009, sabendo que havia muitas pessoas, sacerdotes, religiosos, religiosas, leigos empenhados no trabalho da Igreja, uma igreja que já tinha uma dinâmica. Sobretudo, procurei fazer uma concertação com os agentes da pastoral sobre o que é que nós poderíamos fazer para reforçar e revigorar ainda mais a dinâmica da nossa Diocese. Uma das coisas em que insisti, também por experiência e conhecimento objetivo que tinha, foi a necessidade de desmembrar a paróquia de Nossa Senhora da Graça que estava exageradamente grande. Firmemente, tomei a iniciativa de o fazer com abertura de muita gente e hoje parece que estamos convencidos de forma unânime que isso valeu a pena porque criou novas centralidades, novos centros de dinamização pastoral e naturalmente, mobilizou mais gente na Igreja o que dá mais sentidos de pertença aos nossos fiéis o que é muito importante. Fora isso, graças a Deus, tivemos a bênção de mais vocações para padres diocesanos, vocações para congregações religiosas e isto ajudou a reforçar o pessoal missionário assim como apostámos muito na formação de leigos, movimentos que têm vindo a dar um impulso grande. Para os jovens temos a questão dos Escuteiros Católicos. O Secretariado da Juventude começou a funcionar e incentivou a criação dos secretariados paroquias de juventude onde ainda não existiam. Isso deu um novo empenho à pastoral juvenil em quase todas as paróquias. Também, uma coisa importante que constitui o centro da pastoral que é a família, tivemos a graça da introdução das Equipas de Nossa Senhora, a partir de 2009, sobretudo, e também com a vinda da Fraternidade Jesus, Maria e José que trabalha com a família, juntamente com outros movimentos que já existiam na Diocese. Isso começou a movimentar a nossa sociedade, a partir do núcleo central que é a família. Também procurámos incentivar a reestruturação da catequese em todas as paróquias com o alongamento da formação durante 10 anos o que dá uma base mínima e aceitável para a formação das nossas crianças e adolescentes. Tudo isso fez com que a Igreja começasse a tomar mais consciência de si e dos seus diversos membros e acho que estamos nesta dinâmica de crescimento e esperamos descobrir novas formas de vir aos encontro dos novos desafios e das antigas e novas necessidades da nossa comunidade cristã.

Falou das novas paróquias. Mas a dinâmica da criação de novas paróquias abrandou um pouco. Há ilhas onde existem comunidades que se sentem já maduras (Patim, Ponta Verde) e que querem ser paróquias. Porque abrandou?

O problema é a disponibilidade de pessoal sacerdotal, de pastores. Não temos tido ainda um número suficientes de pastores para criarmos novas paróquias e novas centralidades e há alguma necessidade. Mesmo aqui na ilha de Santiago futuramente, se Deus me emprestar vida e saúde e também meios, meios humanos sobretudo mas também materiais, nós temos entre Tarrafal e Calheta um território que perfeitamente pode assumir-se como uma nova paróquia. Aqui na Praia temos a paróquia de Sagrado Coração de Jesus que é uma das maiores da Diocese e qualquer dia poderá ser desmembrada. Temos a paróquia Nossa Senhora do Socorro, onde a capelania de Tira Chapéu está a precisar, não tanto pelo número de habitantes mas pela complexidade de problemas e desafios da evangelização. No Fogo, tenho em perspectiva Ponta Verde que poderá ser perfeitamente uma nova centralidade. Pelas consultas feitas, algumas pessoas referenciadas com o território estão completamente de acordo acerca da necessidade de uma nova centralidade pastoral na paróquia de São Lourenço que é enorme e dispersa, com muita gente. Mas só quando tivermos pastores disponíveis para assumir porque não basta criar paróquias é preciso criar mínimo de condições para que, de facto, as energias sejam acordadas e postas a trabalhar em conjunto para o crescimento efetivo da comunidade e da sociedade em que estão. Portanto, esperamos uma segunda fase em que poderemos ter a possibilidade de criar mais algumas paróquias, precisamente com o objectivo de maior e melhor evangelização envolvendo todas as energias disponíveis para que a Igreja de Jesus Cristo tenha comunidades vivas, com fiéis maduros, corresponsáveis e todos conscientes da sua pertença a Cristo e do seu papel de missão na sociedade que nos acolhe.   

Falou também no aumento do número de padres. Qual é a relação pessoal, para além da pastoral, que mantêm com os padres da Diocese?  

A relação pessoal, parece-me que é boa. Normal. Tanto os padres procuram o bispo quando acham necessário como o bispo também os procura, fala com eles e visita-os. Encontramo-nos com bastante regularidade, num ou noutro organismo da Diocese. Acho que a relação é bastante boa, bastante positiva entre os bispos e os sacerdotes e isto é fundamental. Mas também isto tem um suporte grande que é a grande amizade que existe entre os padres, sobretudo os padres mais jovens. São muito amigos entre si e isto tranquiliza-me muito como bispo. Os padres se encontram-se para rezarem, partilharem a vida, para reflectirem juntos o que é muito positivo porque, às vezes há encontros de amigos que não passam disso mas quando há encontros de padres também para ajuda espiritual recíproca eu acho que isto me dá muita satisfação e ao mesmo tempo esperança de que poderão estar no caminho de serem bons sacerdotes e bons pastores, ajudando-se mutuamente com espírito de humildade, de abertura e de cooperação. O que é muito importante. Não só os padres entre si mas também a proximidade que os padres vão tendo com os membros das comunidades paroquiais. Tudo isso me dá uma certa esperança de que poderemos vir a ter uma comunidade diocesana bastante sólida e bastante forte. 

O bispo parece ter dado durante esses 10 anos muito importância à formação quer inicial quer permanente. Porque definiu esta linha? 

A formação permanente é uma necessidade e uma exigência hoje, não só da sociedade que está sempre em mudanças e mudanças rápidas e profundas mas também a própria Santa Sé insiste muito nisso. Na Diocese, programamos para os sacerdotes e outros colaboradores próximos, em princípio, duas formações por ano: em novembro e em fevereiro, por ocasião do retiro anual. Além disso, acho que temos que ter sacerdotes, leigos e religiosos preparados para darem um suporte também cientifico à pastoral da nossa Diocese e da nossa Igreja. Por isso, tenho procurado enviar os padres para fazerem formações complementares ou especializações para nos ajudarem a dar um suporte técnico mais abalizado mas também para cobrir as necessidades que temos em diversas áreas. Além das necessidades internas das comunidades cristãs, penso que devemos preparar os nossos padres, religiosos e leigos para o grande desafio que temos pela frente que é o meio universitário. Creio que a meio e longo prazo temos que ter também agentes comprometidos com a Igreja no meio universitários como professores e investigadores. Tanto a Diocese deve preocupar-se com isso como os próprios religiosos devem preocupar-se e têm meios, têm capacidades para colaborar e formar pessoal para também no meio da reflexão, no meio académico termos pessoal da Igreja que deem a cara para demonstrar que a fé a razão estão de mãos dadas na promoção do homem, no aprofundamento do saber, na promoção humana e social. Houve momentos em que muitos da sociedade civil pensavam que a fé é uma coisa e a vida social, política e económica e académica era outra. Portanto, temos de, para além do discurso, dar testemunho de que isso não é verdade e de que o homem é um todo e tudo o que existe integra o conjunto da vida humana e o cristianismo veio, precisamente revelar e confirmar essa aliança entre a fé e a razão.  

O Sr. Bispo não está a pensar numa Universidade Católica ou num Instituto Superior de Teologia?

Eventualmente num Instituto Superior de Teologia, a seu tempo. Mas não estou a pensar propriamente, agora, na Universidade Católica porque poderíamos, porventura, começar mais cedo e não começamos por várias razões objetivas e não pela má vontade. Mas, agora, temos tantas universidades em Cabo Verde que acho que não precisamos de criar mais uma. Eu estava a pensar na presença do pessoal da Igreja mesmo no seio das universidades ou Institutos Superiores já existentes. Para além da eventual criação de um Instituto Superior de Teologia, que poderia ser criado em conjunto com os religiosos porque todos nós temos candidatos para a formação, a presença de sacerdotes, religiosos e religiosas nas universidades como professores, como investigadores. 

A formação no exterior dos seminaristas é custosa. Como é que a Diocese garante os estudos dos futuros padres no exterior? 

É uma boa questão. É um desafio enorme. É o maior desafio da Diocese. Nós gastamos em média à volta de seis mil e tal euros por ano por cada seminarista  no exterior. Isso a multiplicar por 28 anos como chegamos a ter ou agora 20 como temos pode-se fazer as contas quanto é que Diocese gasta por ano no conjunto da formação dos nossos seminaristas. Mas felizmente temos, com a dinâmica que criámos com os Amigos do Seminário no seio da diáspora e com a ajuda de alguns organismos da Igreja como as Irmãs de São Pedro Claver, procurado mais ou menos equilibrar a barca e manter o ritmo de cobertura das despesas mas é o maior desafio da Igreja em termos financeiros porque formar um padre custo imenso. As pessoas não têm muita consciência disso. Portanto se um seminarista no exterior durante sete anos, custa por ano quase sete mil euros, vamos ver quando custa um padre à Diocese. Por isso temos de valorizar o padre e também exigir que deem o seu contributo para a nossa comunidade e para a nossa Diocese. Os nossos seminaristas têm consciência do peso da formação à Diocese e colaboram e espero que fiquem felizes porque nós acreditamos e apostamos neles e que também em retribuição trabalhem com generosidade e alegria na construção do Reino de Deus. Trabalhar ou investir na construção do Reino de Deus é a nossa alegria e esperança. Por isso não desanimamos nem lamentamos por isso porque Deus providencia também.

Como é que foi nestes 10 anos a sua relação com as congregações religiosas?  

Houve fases. No início da minha transferência de Mindelo tive relações tensas com as congregações religiosas. Havia uma certa desconfiança em relação ao bispo que acaba de chegar e vivíamos também uma fase de transição. A maior parte das paróquias encontrava-se nas mãos dos religiosos e havia, digamos assim, uma certa inquietação da parte dos religiosos sobre o lugar que a Diocese continuaria a reservar para eles dentro da própria Diocese. Portanto, houve momentos de tensão mas depois houve momentos de entendimento no sentido de todos perceberem que a Igreja é de todos, a Igreja é para todos, todos têm o seu lugar. Não quer dizer que vamos sempre conservar os mesmos lugares, os mesmos desafios as mesmas tarefas mas no diálogo todos harmonizamos a nossa articulação dentro da Diocese, cada um fazendo a sua parte. Essa fase inicial de tensão, de desconfiança mútua, de alguma crispação até, foi superada e agora de mãos dadas trabalhamos como membros de uma mesma família. 

Trouxe para a Diocese novos movimentos, nomeadamente do Brasil, mas também novos serviços como a Fazenda da Esperança. Que balanço faz dessas presenças e que mais valia trouxeram para a Igreja?

Alguns movimentos que vieram do Brasil, sobretudo a Obra de Maria e o Shalom, tiveram como objectivo fundamental duas coisas. Uma é dar mais oportunidade de fomento de espiritualidade. A espiritualidade é uma necessidade grande e indispensável da vida cristã para todos: crianças, jovens, adultos, famílias. E nós estávamos muito empobrecidos na questão de proporcionar aos nossos crentes, aos nossos leigos mais oportunidades para uma experiência espiritual mais em profundidade. Portanto, este é um dos objectivos. O segundo objetivo é a formação. Formação teológica e formação bíblica. Nós precisamos de, para além de sistemas de catequese durante 10 anos, ter mais oportunidades formativas também para os nossos fiéis, sobretudo para os jovens. Portanto, foi isto que me motivou a convidar esses movimentos a virem trabalhar connosco na Diocese. Grosso modo acho que estão a dar um contributo para conseguirmos atingir esses objetivos. Portanto, naturalmente, sobretudo Shalom que é um movimento mais carismático e, às vezes, estimulam bastante a emotividade, há sempre uma partilha de ideias, de reflexões, de diálogo no sentido de ter as coisas de uma forma equilibrada para que as pessoas não extrapolem. As emoções são importantes mas não podem apagar ou diminuir a nossa racionalidade e o equilíbrio relacional com os outros para que a fé abranja o homem no seu todo e não faça destacar em demasia um elemento sobre outros elementos da vida que é um todo. 

Chegado à Diocese, abriu a possibilidade de termos diáconos permanentes, criou a Escola de Teologia para Leigos. É um bispo que aposta na formação dos leigos. 

Com certeza. Os leigos são a maioria dos membros da nossa comunidade. Constituem quase a totalidade e o ministério ordenado está ao serviço da grande dimensão da Igreja que constituída pelo laicado e quanto maior for a formação dos leigos, isso já vem desde o Vaticano II, mais eles serão capazes de serem evangelizadores no mundo onde estão. Eles estão disseminados por todas as áreas, cantos e recantos da nossa sociedade. Portanto, se os leigos são formados, se tiverem segurança no conhecimento do Senhor Jesus Cristo, do Evangelho, da doutrina cristã e católica, se têm experiência de Deus, se são competentes na sua profissão, se se relacionam com todos, poderão ser mais facilmente luz do mundo, luz e sal para os outros. Nós apostamos nos leigos e é fundamental que isso continue a acontecer e em todo o tempo. 

Quanto ao diácono permanente, é um ministério que foi restaurado na Igreja ocidental pelo Vaticano II porque estava ausente há muito tempo e aqui em Cabo Verde ainda não tinha chegado. Chegou primeiro à Diocese de Mindelo e depois, agora, está a chegar à Diocese de Santiago. É um serviço mais na Igreja para o bem de todo o tecido eclesial. Os diáconos são colaboradores próximos dos bispos e dos padres ao mesmo tempo eles são pais de família, são profissionais e estão inseridos na sociedade e também podem prestar este serviço de diaconia que se exprime em diversas dimensões da vida, reforçando a Igreja por dentro no sentido de cumprir melhor a sua missão e dar testemunho da fé e de anunciar a Boa Nova aos outros.

Relativamente aos jovens. Qual é a sua maior preocupação? 

Os jovens, mais do que nunca na nossa sociedade, têm grandes oportunidades de formação académica, profissional que precisamos melhorar cada vez mais, em termos de qualidade e de extensão. Mas, os jovens, hoje, também têm muitos desafios pela frente que devem ser encarados e superados à luz da verdade que é Cristo. À luz da fé, da esperança e do discernimento que é procurar descobrir o que Deus quer de cada um de nós para nos pormos em sintonia com essa vontade de Deus. Portanto preocupação com os jovens é terem critérios de discernimento para que, com a formação académica, com as exigências profissionais, com desafios sociais, não percam de vista os valores cristãos, os valores éticos para os quais devem nortear todas as decisões e os comportamentos, toda a conduta humana que encetamos. Essa é a minha grande preocupação. O Estado oferece competências técnica e académica que devem ser melhorados mas a Igreja pode ajudar a aprimorar, juntamente com a família e, se possível, com outras forças sociais, esse critério ético de primar pela verdade, pela justiça, pela solidariedade humana, pelas virtudes humanas que devem caldear as relações entre as pessoas em todas as esferas e aprendam também com esses valores a viver a família como o núcleo essencial de todas as sociedades onde aprendemos e ensinamos e transmitimos para as futuras gerações essa experiência de vida. 

Viveu estes 10 anos de bispo diocesano juntamente com o bispo emérito que faleceu recentemente. Como é dirigir uma Diocese tendo vivo o bispo emérito? 

Com toda a naturalidade. O bispo emérito não interferia diretamente na gestão da Diocese. Nós falávamos com alguma frequência de alguns assuntos mais candentes da Diocese. Partilhávamos opiniões mas ele nunca condicionou a decisão que eu próprio, com os órgãos da Diocese achávamos que devíamos tomar. Foi uma relação boa, positiva e construtiva. Ele estava disponível a colaborar em muitas coisas, sobretudo quando as paróquias precisavam dele e o convidavam, eu próprio também sugeri, muitas vezes, que ele fosse convidado e incentivei-o a aceitar a colaboração. Ele estava disponível sobretudo para colaborar a nível das paróquias e até das ilhas.  

Portanto, acho que foi uma atitude muito sensata da parte dele não interferir diretamente na gestão da Diocese mas mostrando-se disponível para colaborar quando isso fosse possível e fosse solicitado, com muita disponibilidade. 

 

Eu entrei na Diocese em 2009, sabendo que havia muitas pessoas, sacerdotes, religiosos, religiosas, leigos empenhados no trabalho da Igreja, uma igreja que já tinha uma dinâmica

Cardeal Dom Arlindo 

 

Na sua homilia na Missa exequial de Dom Paulino disse que, se calhar, nós ainda não tomámos consciência da dimensão de Dom Paulino na história da Igreja e da sociedade cabo-verdianas. O que a Diocese pensa fazer para valorizar e perpetuar o seu legado? 

Neste momento ainda não tenho ideias claras sobre isso. Espero que o meu apelo possa contribuir para despertar nos estudiosos a necessidade de estudar o papel de Dom Paulino. Eu estou convencido que Dom Paulino teve um papel importante para o equilíbrio da nossa sociedade. Se não fosse Dom Paulino com a força da sua personalidade e clareza e vigoroso seus posicionamentos, no pós-independência os políticos de então e do partido único teriam introduzido de uma forma feroz a ideologia marxista aqui em Cabo Verde, provocando choques e roturas muito fortes e profundas na nossa sociedade. Dom Paulino condicionou os nossos políticos, evitando que decisões radicais fossem tomadas em Cabo Verde e hoje estaríamos, porventura, não fosse Dom Paulino ou a atitude que ele assumiu numa sociedade de muita instabilidade como tem vindo a acontecer na Guiné-Bissau, Venezuela ou outros. Temos uma história, temos uma matriz, temos uma diáspora forte e a Igreja é bastante consolidada e precisa de se consolidar ainda mais porque houve também erosões e desgastes a partir de certa altura, mas de qualquer maneira, Dom Paulino encontrou um ambiente ainda fértil, favorável e ele soube aproveitar-se disso para impedir que radicalismos políticos  pudessem distorcer o ritmo da história da nossa sociedade. É nesse sentido que acho que os estudiosos poderão ajudar a fazer esta análise política e social do magistério de Dom Paulino. Por outro lado, Dom Paulino sendo religioso e bispo diocesano, numa altura em que o clero diocesano era diminuto, praticamente inexistente, ele conseguiu fazer a ponte entre os diversos grupos religiosos que trabalharam aqui na Igreja em Cabo Verde e depois também entre os religiosos e os diocesanos porque houve momentos tensos. Quando o grupo de diocesanos começou a crescer naturalmente a ter mais visibilidade e a ocupar de determinadas tarefas na Diocese, houve momentos críticos, no sentido de tensão, com alguns grupos religiosos e Dom Paulino soube manter algum equilíbrio neste aspeto. Portanto, tanto a nível interno da Igreja e tanto na dimensão política e social, o papel de Dom Paulino foi providencial naquela altura para ajudar a sociedade cabo-verdiana a manter-se dentro de certas linhas. 

Houve uma certa altura, sobretudo quando foi nomeado para bispo de Mindelo, em que se dizia nos meios sociais de que Dom Paulino era um bispo ligado ao MPD e que Dom Arlindo era um bispo ligado ao PAICV. Qual é a sua relação com a política e com os políticos?

A minha relação pessoal com os políticos é boa, normal. Nós somos concidadãos e com alguns somos amigos próximos. Desde o tempo de padre houve momentos nos anos 90 que nós todos, eu também de forma discreta mas convicto, lutámos pela mudança. Achámos que era preciso fazer mudança. Muitos padres, quase todos, como o bispo, queriam a mudança. Porque era o sentir da Igreja de que era necessário superarmos a experiência e situação do partido único. Nós lutámos, não como políticos mas como cidadãos e membros da Igreja, para que houvesse mudanças. É por isso que muitos facilmente, depois, aliaram os padres ou a Igreja ao MPD que, na altura, foi elemento da mudança. Mas a Igreja, já a partir de 96, começou a distanciar-se de qualquer partido político e acho de uma forma sensata. Eu mantive esta posição como cidadão e como homem da Igreja mantenho-me equidistante dos partidos políticos. Portanto, não há nenhuma conotação pessoal com nenhum partido político. Que isto fique claro. Mas sou amigo de muitos políticos e estou aberto a falar com todos quando for conveniente, preciso ou oportuno. A Igreja, hoje, é madura o suficiente para não se envolver em questões partidárias. De igual modo, os partidos políticos devem já ter idade e juízo para serem também maduros para não precisarem da Igreja como bengala para ganhar as eleições e não contem com isso. Os partidos políticos que façam o seu trabalho e convençam o povo de que uns são melhores do que os outros para o bem comum. 

Também é cardeal. A sua experiência de cardeal nesses anos corresponde à ideia que tinha sobre o papel e a missão de cardeal na Igreja? 

Eu tinha uma ideia vaga de cardeal na Igreja porque nunca me tinha preocupado antes com esses papéis. Eu sabia que os cardeais eram colaboradores próximos do Papa, eram chamados para determinados serviços e participavam em determinadas reuniões quer com o Papa quer com certas instâncias das Diocese. Eu acho que é mais ou menos isso que tem acontecido comigo. Não sou cardeal da Cúria. Sou cardeal pastor. O Papa Francisco dá muita importância a isso. Ele não quer os cardeais para fazerem serviços burocráticos, quer pastores que trabalhem pelo povo de Deus no terreno. A minha maneira de ser, maneira de pensar, a minha experiência de Igreja, a minha concepção de Igreja é que de facto nós precisamos de trabalhos burocráticos os especialistas devem fazê-lo com as ideias e sugestões de muitos, também dos cardeais. Mas a minha experiência de Igreja cresceu depois de ter sido cardeal e, como cardeal e bispo não precisava de mais trabalho e mais reuniões. As coisas estão distribuídas e o Papa para cada serviço tem pessoas competentes e cardeais que o acompanham  mais de perto, como a reforma da Cúria, há pessoas que são muito abalizadas nesse aspeto. O cardeal é para colaborar quando é preciso mas é sobretudo para trabalhar na Igreja local onde está inserido, quando o cardeal é pastor. Há cardeais que trabalham nos discastérios centrais, então esses terão que se dedicar mais ao trabalho administrativo e outros. Eu gosto de ser cardeal pastor como estou cá e estou feliz com isso.

Um dos grandes problemas da Igreja é a questão dos abusos sexuais e outros. Em Cabo Verde o Sr. Bispo tem tomados medidas de prevenção. O que pensa sobre isso? 

Nós nas reuniões dos padres já falámos bastante sobre isso para prevenir, alertar e informar sobre o que se passa na Igreja no seu todo. Em Cabo Verde, felizmente, não tenho conhecimento de abusos sobre menores e outros abusos até em termos económicos. Nós somos ainda poucos, conhecemo-nos uns aos outros, estamos sob controle uns dos outros. Esta relação de familiaridade ajuda cada um a cuidar de si e a estar atento ao outro. Naturalmente procuramos estar a par. Hoje é necessário. Nós avançamos muito cedo, sob impulso da nossa Conferencia Episcopal, com a criação aqui na Diocese de uma comissão diocesana de proteção de menores que integra pessoas bastante competentes na área, já com alguma experiência e muito apaixonadas. Já fizemos formação para a nossa comissão, mas também para pessoas que colaboram de perto. Portanto, temos estrutura agora para, se houver qualquer coisa, intervir imediatamente. Espero que não haja mas é uma área a que a Igreja dá muita importância hoje porque é grave que isso tenha acontecido e que ainda possa vir a acontecer na Igreja. Mesmo que fosse um caso já seria muito grave, como dizia o Papa, e vamos prevenir para que isso não venha a acontecer mas sobretudo trabalhar a pessoa para que de uma forma assertiva, positiva possa contribuir para o crescimento e a solidariedade e a fraternidade entre os membros da Igreja. Espero que possamos trabalhar na prevenção mais que depois termos que correr atrás do prejuízo. 

Uma pergunta um pouco deselegante. O Sr. Bispo em outubro vai fazer 70 anos e um bispo deve pedir a renúncia aos 75. Já pensou nisso e no seu sucessor? 

Não é uma pergunta deselegante porque a gente celebra 18 anos e fica feliz por ter entrado na maioridade e também quando fizer 70 ou 80 anos, se chegar lá, é motivo de dar graças a Deus porque nos deu todo esse tempo para viver. Chegando aos 70 a pessoa começa a perceber e a tomar consciência de que já viveu mais de metade dos seus anos e tem que pensar também na fase seguinte. 

É com alegria que celebro, se chegar em outubro aos 70 anos e dou graças a Deus por esses anos e por todas as graças concedidas e naturalmente vou ter que pedir perdão ao Senhor por todos os erros e falhas na vida. Ficam-me mais cinco anos. Gostaria de realmente deixar a Diocese aos 75 anos mas não depende de mim. A gente faz o pedido como exige o direito mas o Papa é que decide. 

Eu não tenho que pensar no meu sucessor, tenho é que preparar padres. Enquanto bispo tenho que criar condições para que tenhamos muitos e bons padres. Intelectualmente formados, espiritualmente seguros, pastoralmente dedicados, verdadeiros servidores do povo de Deus, socialmente capazes de conviver com os outros em família, com boa relação com os colegas sacerdotes e com todas as forças vivas da Diocese. Este é o papel do bispo. Quanto à escola de bispos futuros, inclusive do sucessor, isso depende de outras estruturas que não diretamente do bispo. O bispo é chamado a sugerir nomes, como outros são chamados a sugerir nomes de eventuais bispos futuros mas a decisão não depende do bispo. Isso que fique claro: não serei eu a escolher o meu sucessor mas será a Igreja através de diversas instâncias, segundo procedimentos próprios que vai escolher o futuro bispo de Santiago de Cabo Verde. 

Quer acrescentar alguma coisa ou deixar uma mensagem para os diocesanos? 

Sim. Estou muito feliz por, em conformidade com o Acordo Jurídico, vamos ter a partir deste ano a Educação Moral e Religiosa Católica nas escolas pública. É um desafio grande. Eu queria apelar a todos os pais cristãos, encarregados de educação para que todos façamos o forcing necessário para que as nossas crianças possam estar inscritas nessa disciplina para que maioria dos nossos cidadãos que frequentam essa formação tenha critérios éticos para analisarem a vida e nela se projectarem. São coisas que fazem bem. Gostaria de chamar a atenção às pessoas para não confundirem a Educação Moral e Religiosa Católica nas escolas com a catequese. A catequese tem como objectivo sobretudo ajudar as crianças, adolescentes, jovens e adultos cristãos a viverem a sua fé em conformidade com Jesus Cristo em comunhão com a Igreja. A Educação Moral e Religiosa Católica nas escolas ajuda as pessoas a serem cidadãos com critérios na vida e capazes de globalizar a sua solidariedade e a humanizarem as relações e a contribuírem para o bem comum de toda a sociedade. São dois aspetos que se complementam mas que não se confundem. Todos juntos, com mais este elemento, construindo a Igreja que nós somos e que queremos para o futuro, com certeza, com a graça de Jesus nós vamos ter não só uma igreja cabo-verdiana mas também uma sociedade cabo-verdiana mais humanizada e mais feliz o que trará mais paz e mais alegria a todos.