18
Qui, Out

Dom Paulino: O desenvolvimento (de Cabo Verde) foi feito numa linha em que o homem não contou para nada

Entrevistas
Tipografia

Declarações inéditas, numa entrevista exclusiva ao Jornal “Terra Nova”. O bispo emérito D. Paulino Livramento Évora quebra alguns ‘mitos’ relativamente à sua postura e intervenções, enquanto bispo da Diocese de Santiago de Cabo Verde. Nega ter sido um bispo interventivo, afirmando que o imperativo era a Evangelização. Por outro lado, quando questionado sobre ter ou não tendência partidária deixou claro que “A filhação partidária é um perigo que nunca deixa evangelizar”. D. Paulino que agora vive retirado e em silêncio, falou ainda do Cabo Verde, encontrado aquando da sua chegada em 1975 e questiona o seu Desenvolvimento e as “ajudas” que terá recebido. Uma entrevista que relata, com clareza, um trecho do que foi o percurso deste Bispo que recebeu, João Paulo II, o único Papa que pisou, até agora, o chão deste arquipélago. Confira! 

 O que aconteceu antes de ser bispo. 

Eu fui ordenado sacerdote em Carcavelos, Portugal em 16 de Dezembro de 1962 pelo então arcebispo de Luanda, Dom Moisés Alves de Pinho, que era bispo espiritano. Vim a Cabo Verde, celebrei a missa nova em 4 de Agosto de 1963 na minha paróquia, Nossa Senhora da Graça, onde nasci. Fui a todas as paróquias existentes na Ilha de Santiago e regressei a Portugal para ser colocado no seminário menor e médio dos espiritanos em Fraião, Braga, como professor e como sub-director dos mais adiantados 10º, 11º e 12º, os três últimos antes de irem para o noviciado. Mas, uma vez que estava lá muita gente, embora o seminário fosse grande, pedi ao superior que me mandasse para as missões convencido, como estava também convencido no fim de curso, que me mandariam para Cabo Verde. Como fiz o pedido no meio do ano, o Superior quis esperar o fim do ano. Entretanto, enquanto chegava essa altura, tive um convite para ir para capelão militar. Naquela altura o Estado pedia às dioceses e às congregações um certo número de padres para irem para capelão. E disse ao superior: “se me mandar, eu vou mas será um prejuízo para mim, para a congregações para a Igreja. Porque você já reparou na cor que tenho? Agora juntar-me aos soldados portugueses para ir como capelão militar em Angola? Um preto a combater um outro preto? Mas se me mandar eu vou”. Ele foi para Lisboa reflectiu lá e no outro dia mandou dizer-me que tinha pensado noutra pessoa. No fim do ano avisou-me que, de facto eu ia para as missões em Angola e preparei-me pra ir para Angola onde cheguei no dia 8 de Dezembro de 1965. De lá segui para a Diocese de Malange, mais concretamente para a missão de Duque de Bragança.

Vim de férias, em 1970. Depois regressei para Portugal para rumar para Angola novamente em 1970. Em 1972 fui transferido para a missão de Cacuso no dia 15 de Setembro e lá o trabalho era praticamente o mesmo. Tinha o acréscimo da responsabilidade da missão. Foi aí que aconteceu o 25 de Abril e aquelas confusões todas dos movimentos que entraram. Foi lá que aconteceu a nomeação, quando o bispo me chamou para avisar que havia este projecto. Vim a Portugal para fazer o retiro de preparação e ordenei-me lá porque não fazia sentido, havendo lá bispos, ir a Portugal ou vir para aqui para ser ordenado.

Chegou nas vésperas da Independência que para nós aqui em Cabo Verde era um momento confuso. Mas chegando de lá e vivendo o que viveu, como é que viu Cabo Verde?  

Confuso na mesma, embora não houvesse lutas com espingarda. Mas havia muita confusão na mesma. A revolução tem muita coisa de insensatez. Os homens ficam ébrios com o poder e com a libertação. Nessa nova situação a confusão cria instabilidade e a insegurança de todo o tamanho e neste momento temos que apelar à fé para que o Espírito Santo nos abra os olhos para nos dar o discernimento necessário. Como dizia o papa Francisco agora, e já se dizia na altura, sentimos que estamos inseguros mas as pessoas querem fazer marketing. Era a lógica que se sentia. 

Qual é que foi o maior desafio que encontrou na diocese? 

A sinceridade dos homens. Aliás Jesus também enfrentou isto. Eu costumo contar uma história que até é verídica, que está ligada ao futebol. Dizia-se que em Viana de Castelo, o Vianenses estava na segunda divisão e tinha perdido e toda a gente, inclusive os polícias que lá estavam ficaram aborrecidos com situação mas tinham a obrigação de proteger os árbitros. Os árbitros ficaram no meio do campo à espera da protecção. Mas os polícias, que eram Vianenses, estavam também um bocado agastados com a situação. Então aquele piquete que lá estava fez uma roda para proteger o árbitro que ficou no meio. Mas o comandante daquele pequeno piquete ficou de fora e enquanto iam para o balneário tirava do seu cacete dava duas ou três cacetadas na cabeça do árbitro e dizia: “aqui ninguém bate no árbitro”. Essa é que era a situação. 

É visto como um bispo interventivo que fala claro. Isso não trouxe embaraço para si e/ou para a Igreja?

Embaraço para as pessoas. Eu lembrava-me sempre daquilo que São Paulo dizia: “a Palavra de Deus não está encadeada. Eu estou aqui preso mas a palavra de Deus não está encadeada” (cfr. 2 Tim 2, 9). Ele dizia a Timóteo: “insiste no tempo e fora do tempo”. Essa é missão do bispo. Faz-me lembrar uma outra anedota que aconteceu aqui também num campo de jogo. Havia um rapaz aqui na Praia chamado Cabete. Naquele tempo quase ninguém andava calçado e íamos ver o futebol. O campo estava rodeado de gente. Ele era adepto de um clube que estava jogar e sempre que o seu ídolo dava um chuto na bola o Cabete também dava um chuto no ar e quem estava à volta viu aquilo e pegaram numa pedra e puseram-se à frente dele. Ele estava fixado no campo e nem se deu conta. E quando o seu ídolo deu o primeiro chuto na bola ele deu um chuto na pedra. O que é que o Cabete fez? Baixou-se, sem tirar os olhos do campo, pegou o pé magoado, e sempre que o seu ídolo dava um chuto como não podia usar o pé usava a cabeça e acompanhava o chuto do seu ídolo com a cabeça. Quer dizer, é como aquilo que Jesus disse no Evangelho: “Vocês vão, digam que o Reino dos céus já chegou. Façam penitências. Se vos receberem ficai lá se não vos receberem sacudam os pés e digam: ‘o Reino dos céus já chegou’” (Cfr. … ). No tempo e fora do tempo. Quando incomoda é bom sinal. Agora a reacção é que pode mostrar a moralidade daquele sinal. Ele pode reagir aceitando ou agredindo e a agressão tem muitas facetas. Muitas! O que estava em jogo era evangelizar a tempo e fora do tempo. Dizer sempre, fazer como Cabete. Afinal de contas o Reino de Deus chegou. Embora sabendo em que chão aquilo que se diz vai cair. Mas o imperativo é este: dizer, falar a tempo e fora de tempo. Jesus falou uma vez e os fariseus disseram-lhe: “Ó Mestre, tu dizendo isto estás a ofender-nos!”. Mas não deixou de dizer. O imperativo era a evangelização. Sabermos que o cristão e o missionário têm um estatuto a que não podem renunciar. Eles são profetas. Sob pena de sermos chamados, como diz São Leão Magno, de cães mudos. Porque Cristo diz: “quem tiver vergonha diante de mim, eu vou ter vergonha dele diante do meu pai”. Eu acho que um cristão deve pensar bem nisso. Nem que perca todos os bens que tenha, ele deve pensar bem nesta coisa e claro, penso que o bispo em primeiro lugar.  

E é errado ver o Dom Paulino tendencialmente partidário?        

Ainda há dias o Papa falou, em relação à ideia de um partido católico, dizendo não, porque dizem que são todos mafiosos, corruptos. Não fazer parte de um partido ou mostrar-se de um partido. Se bem que, quando eu cheguei fui logo em visita depois da festa da Independência, fazer o reconhecimento do terreno porque eu só conhecia São Vicente de passagem, Maio e Sal. Fui a Santo Antão e lá longe em São Pedro, num lugar chamado Cruzinha, e foram os padres que me levaram e estava lá o padre Terças que era o pároco local. Estava lá um secretário do partido que também acompanhou a visita e o padre Terças que era o vigário forâneo e pároco daquela localidade ia fazer a apresentação mas o outro não deixava. E qual foi a apresentação que o outro fez: “Nô bem trazé bsot novo bispo que nôs partido ranjá”. Isto em Julho de 1975.  A filiação partidária é um perigo que nunca deixa evangelizar. Um padre ou um bispo nunca deve filhar-se num partido ou mostrar-se refém de partidos ou de algumas facções. É a pior coisa que ele pode fazer na vida dele. Embora, eu posso dizer que nas intervenções, mas isto pouco importa, dizia-se que eu era, que eu não era. Não, nunca fui. Não fui porque não é estatuto que o bispo deve ter. Uma vez fui a São Nicolau e estava lá a falar com um familiar e a criatura vira-se para mim e diz-me: “então você é do outro partido?”. Quer dizer, o ser partidário é coisa pior que pode acontecer. Você é partidário de Jesus Cristo. Se for partidário de um partido você claudicou na missão. Traiu a missão. Agora que podem chamar de partidário, isso pouco importa. O que eu sinto, nesse sentido, é isso. Se você for partidário, fraccionou a sua comunidade. É a pior coisa que pode acontecer é tomar conta de um partido. Santo Agostinho diz: “ama aquele que erra mas domina o erro”. Até porque, vamos ser coerentes: encontra algum partido que seja sério?  É evangelizar com simplicidade e a verdade que Cristo fez. Quer um pároco, quer um bispo foi enviado para toda a gente. Se pertencer a um partido, traiu a missão. Por mais explicações que der, traiu a missão. 

Um dos pontos altos destes 40 anos foi a visita de João Paulo II a Cabo Verde. Que recordações tem desse momento?

Foi um momento que nos deu muito trabalho mas que nos deu também muita alegria e que a mim marcou por ver a solicitude do Papa para connosco. Ele viu a nossa situação e adaptou-se à nossa situação. Foi um momento forte. Na altura dizia às pessoas que deveríamos fazer um tempo espiritual de preparação e muita gente ficou escandalizada. Mas fizemos um tempo espiritual de preparação porque era uma graça que estava para acontecer. Deu muito trabalho, muita canseira, é verdade. Mas no fim ele mesmo deu conta do esforço que foi feito, e que não foi pouco, e deixou-me pelo menos, uma lembrança muita grata. Para mim ficaram dois momentos marcantes: o primeiro quando ele chegou à catedral e esteve lá mais de um quarto de hora ajoelhado em frente do sacrário. Aquilo ficou na minha retina. Depois quando em São Vicente fomos ao estádio todos esperavam que subisse para a tribuna, estavam lá uns doentes e ele desceu para os cumprimentar. Aquilo, viu-se nos seguranças, provocou alguma confusão. E quando chegava ao bispado ele não entrava em casa sem passar e cumprimentar as pessoas. Ele deu conta do nosso esforço e disse-me: “Muita dignidade! Muita dignidade!”  A estadia dele aqui foi benéfica. As pregações que fez, muito intensivas mas com grande eficácia. As verdades que disse e que tinha para dizer: “Jamais a escravidão, jamais a tortura, jamais a ditadura”. A respeito da ditadura, uma vez fui fazer uma visita à América e aquele que era o deputado da emigração quando fui a uma rádio para uma entrevista disse-me: “então você não sabe que o PAIGC foi acusá-lo a si e a padre Fidalgo de estarem metidos na política?” Eu disse-lhe: “foram perder o tempo”. Perguntei-lhe o que lhes disse o Vaticano. Por sinal ele também lá devia ter estado porque falava com tanto conhecimento. “Ah, disseram que no tempo da ditadura é aquilo que o bispo tem que fazer. Quando a ditadura acabar o bispo é que sabe o que há-de fazer. Ele é que lá está”. A clareza com que o Papa falou deixou-nos confortados. Ele disse-nos que Jesus Cristo é o caminho e que devemos ensinar o caminho de Jesus Cristo. 

E o impacto da sua visita extrapolou a esfera da Igreja?

Essa visita e a comemoração dos 450 anos um bocado, sim. Depois da celebração dos 450 anos é que o diabo mostrou o rabo. Penso que sim. Lembro-me de um facto em que passado um dia depois da sua saída, o chefe de protocolo, Napoleão, foi à minha casa desculpar-se pelo facto de o superintendente dos Nazarenos não ter estado presente. Não sei porque foi o Napoleão Bonaparte que era chefe do protocolo do palácio do Primeiro-ministro que se foi desculpar. Ora, isso diz tudo. Quer dizer que havia ali uma sabotagem. Sabotagem que houve também no gimnodesportivo. Quando o Papa estava a falar com os jovens, a luz foi-se. Isto para mim não foi inocente. Felizmente que estavam ali os seguranças do Papa que o rodearam logo e felizmente que a televisão do Vaticano filmava tudo e a luz da câmara serviu para proteger o Papa. Em São Vicente houve lá dois episódios que também creio, queriam sabotar e ridicularizar. O microfone falhou. Depois, as ofertas. Aquelas que se fazem na missa. Só que as ofertas tinham todas que passar pelos seguranças. Quando chegou a hora, segurança não há, chave não há. Isso para mim não foi inocente também. A presença dele buliu com as pessoas. A parte oficial, pronto, a nossa pobreza. E segundo dizem, a Santa Sé contribuiu com não sei quantos mil dólares para as despesas que não foram poucas. Para mim deixou um cheque. Foi uma visita que marcou pela presença e pela mensagem. Se bem que depois serviram-se da visita do Papa para fazer propaganda política, mas pronto. 

Dom Paulino acompanhou Cabo Verde de perto, desde 1975 e portanto, como é que vê esses 40 anos de independência?

Muito confuso. O desenvolvimento que se propôs, para já, a questão de partido único acho que o limitou. Isso limita a próprio desenvolvimento e dar às pessoas a liberdade. Ao cabo e ao resto não foi dada liberdade nenhuma às pessoas. É a tal coisa: “Eu é que sei agradar, eu é que tenho a verdade e tudo o que passar daqui não é verdade e tem que se pôr de fora”. Isto imperou e isto é um defeito. O desenvolvimento, se é que desenvolvimento houve, foi feito numa linha em que o homem não contou para nada. Ao passo que a Igreja diz que o caminho da Igreja é o homem. Mas aqui o homem não contou para nada. Isto não ajuda ao desenvolvimento. Isto é míope demais. E sobretudo porque as pessoas não podem exprimir: “eu é que sei, eu é que decido, eu é que ponho a comida na boca”. Por mais que não se queira, um partido único exerce ditadura, por mais que se diga que não a haja. E uma ditadura é uma coisa em que o homem se faz Deus e mesmo o desenvolvimento que faz não é para o homem é para ter nome, mostrar a face. A grande preocupação deste país foi sempre mostrar a face, ou seja, está tudo bem. Isto não é um bem. Foi um desenvolvimento que foi feito de fachada. E o homem? E depois os que nos vieram ajudar no desenvolvimento, não foi ajuda nada, foi também nesta linha de fazer coisas. Esta coisa de pôr Cabo Verde como país de desenvolvimento médio é simplesmente uma forma de escravizar, de ditadura, porque um país considerado pobre recebe os empréstimos com juros baixos, mas como isso não convém aos que vêm “ajudar” tem que se fazer este fogo-de-artifício para que o país possa, agora, pagar juros altos. Pensa que isto é uma regalia? Quando sabemos da pobreza e da miséria que há por cá? Os juros que Cabo Verde agora tem que pagar são muito mais altos. Isso é trabalhar para a fotografia. E depois o próprio país coloca nas estatísticas que somos melhores nisto, naquilo e naqueloutro. Isso é pérfido demais. Um desenvolvimento feito assim, é pérfido demais. E quem está dentro não governa, é levado, tem que fazer senão não tem “ajuda”. Isto desgosta. Trabalhar para a fotografia sem ter feito nada com benefícios, só para aqueles que estão aqui só para oprimir? As ajudas que vieram para aqui, os empreendimentos são a troco de quê? É exploração de todo o tamanho. E quem “governa” acha que está bem e ainda faz propaganda e com os pés em cima do pescoço vai gritando que o benfeitor é bom e nos ajudou. Eu vejo Cabo Verde assim, ficou raquítico! É a minha leitura. Serviram-se da nossa pobreza, impuseram-se coisas mesmo na lei…

Politicamente nós saímos do partido único e caímos no único partido.  

Parece, não. Para quê dizer: parece? O que se vê por aí. Por isso que eu deixei de votar. Di meu ka a poi na urna. Deixei de votar porque as eleições foram feitas de tal maneira para eles se perpetuarem lá. Quantas corrupções foram feitas em todas as eleições? Em todas elas. Quem é o responsável disto? Eu não. Tiraram uma estrela e colocaram dez. Tiraram o artigo quarto e houve aquela transição apenas.  

E no meio a tudo isto há quem espere mais da Igreja. É uma expectativa justa? 

Ah, isso não sei. Eu, agora estou na sucata.

Como é o seu dia-a-dia como bispo emérito?

Rezo, levanto-me às quatro e meia da madrugada e rezo. Como e durmo. Preparo uns trabalhos para os retiros mensais de uma ou outra comunidade das religiosas. Quando vierem pessoas, tenho o tempo que quiser. Aliás foi sempre o meu estilo, a pessoa não tem hora marcada. Leio alguma coisa e ouço algumas notícias internacionais. Estou sossegado e sem barulho. Não ouço, não vejo. Estou em paz aqui no meu canto, não tenho aflições nem depressões.