17
Qui, Out

Jorge Carlos Fonseca, o inventor do surrealismo cabo-verdiano

Entrevistas
Tipografia

A revista Leitura da Livraria Pedro Cardoso na sua quinta edição que vai ser apresentada esta tarde, dedica amplo espaço à figura do Presidente da Republica, Jorge Carlos Fonseca, considerado o inventor do surrealismo cabo-verdiano. 

JCF, o quarto Presidente da República de Cabo Verde, no poder desde 2011, é uma personalidade do mundo cultural e académico. Para além disso, teve uma intensa vida partidária e governativa. 

O menino que sonhava ser padre é hoje o poeta que guarda na estante uma das obras de Albert Camus, «O estrangeiro», com o apontamento de sua compra aos 17 anos de idade, em Coimbra: “Aldraba e serás alguém!” hábito desses tempos de juventude irrequieta e deslumbrada. 

Repropomos aos leitores do Terra Nova online parte de uma grande entrevista, conduzida pela jornalista Margarida Fontes, que JCF concedeu ao nosso jornal em 2013. Leia.  

Olhando para a sua trajectória, qual das suas dimensões existenciais (cultural, académico e político) é a mais importante?

Eu creio que estas três componentes andaram sempre juntas. Num ou noutro momento um dos aspectos foi privilegiado, mas mesmo quando interiormente pensei tomar uma decisão de optar por um caminho, digamos que as outras duas facetas não me largaram. Basta dizer que depois de 1998 quando deixei a política partidária, a minha ideia era: ‘acabou-se a política e vou-me dedicar à investigação, ao estudo do direito e à poesia’ porque entendia que o lado político poderia prejudicar as outras duas componentes. Entretanto, candidatei-me a Presidente da República em 2001. Depois disto também pensei: ‘bom também já estou afastado da política... e sou agora Presidente da República desde 2011. Numa entrevista que tinha dado em tempos, disse que, no fundo, tenho tido na minha vida algumas paixões: a paixão pelo direito, pelo direito penal, pelo fenómeno criminal diria, pela política, pela poesia e pelo futebol. Portanto, tenho convivido com estas paixões simultaneamente.

Querendo caracterizar a personalidade Jorge Carlos Fonseca, como sugereria você que o fizéssemos?

Eu não lhe posso dizer exactamente aquilo que penso de Jorge Carlos Fonseca porque poderia ser politicamente incorrecto, mas vou tentar fazer uma aproximação. Eu acho que sou uma pessoa intelectualmente muito irrequieta, normalmente faço as coisas com muita paixão e com muito «nervo», tenho quase uma obsessão pelo rigor e pelo pormenor, prezo muito as amizades e a leitura… leio quase compulsivamente. 

Como foi o seu encontro com a literatura?

Desde muito novo e por influência de várias pessoas: do meu pai - o meu pai era um funcionário das Alfândegas e chegou a fazer o quinto ou o sétimo ano, já não me lembro, o que na altura era um caso raro, era quase um prodígio ser um “quintimanista” ou “setimanista” - que tinha uma boa biblioteca em casa, sobretudo literatura brasileira e portuguesa. Portanto eu conviví com os livros em casa. Mas tive uma influência também forte do Mário Fonseca, meu irmão mais velho 10 ou 11 anos. Sobretudo os dois.

Nós vivíamos em casa dos meus pais na Praia, na rua Cândido dos Reis, e eu dormia no mesmo quarto com Mário e com o Odemiro, o meu irmão mais velho. Eu, menino do Liceu, às vezes acordava à noite e ouvia as conversas do Mário com o Arménio. Estavam lá nas conversas de literatura, de poesia e também um pouco de política. O Mário andava sempre com o Arménio Vieira, mais ou menos da idade dele, e o Armando Dupret. Sobretudo os dois. Mais tarde também o Osvaldo Osório, mas um bocadinho mais tarde. Por vezes, como eu lia muito umas coisas brasileiras que eram as fotonovelas, eles  tiravam-me esse material de leitura, quase à força e exigiam que lesse obras de escritores cabo-verdianos, que lesse literatura, mais interessante, diziam-me. A par disso o meu pai escrevia muito bem em língua portuguesa, o Mário também, o Arménio e, portanto, a ideia da escrita, do escrever bem, de estudar, de ler, nasce nesse contexto familiar. 

Depois vou para Portugal estudar Direito, muito novo, com 16 anos, e levo estas referências. Lá entro num ambiente académico que era, também, de política e de um pouco de literatura, e onde entro em contacto com o jazz e o surrealismo e começo a fazer as minhas primeiras experiências poéticas, quase escondidas.

Quais foram os autores e as obras que o marcam como homem de letras?

Bom, repare, na adolescência lia as coisas que me davam para ler. Lembro-me de que na altura li Jorge Amado, Érico Veríssimo, As vinhas da Ira, mas também lia algumas coisas que saíam em boletins culturais, como por exemplo, António Aurélio Gonçalves e Baltasar Lopes. No fundo era a ideia de associar estas leituras a coisas que tinham a ver com aquilo que hoje se chama cabo-verdeanidade. Uma pequena iniciação daquilo que seria as ideias de autonomia, de independência isso já mais pelos 14,15/16 anos. Em Coimbra, lia, sobretudo, temas que versavam sobre a política e a literatura; havia as leituras que eram quase impostas nos círculos políticos. 

Eu tinha que ler muito Frantz Fanon, textos e documentos de Amílcar Cabral e do PAIGC, escritos sobre movimentos de libertação e revolucionários noutras paragens, como Argélia ou Vietnam, ou sobre os movimentos e lutas dos negros americanos pelos seus direitos cívicos, outra literatura revolucionária: Lenine, Trótski, Rosa Luxemburgo… mas também literatura surrealista. Lia tudo que era Berton. Li muito Antonin Artaud, Aragon, Tsara, Mário Cesariny de Vasconcelos, mas também Baudelaire, Éluard, um pouco influenciado pelo meu irmão Mário. Um pouco mais tarde, quiçá… Tenho ainda guardado como relíquia um exemplar de «Fleurs du mal» que me ofereceu o Mário, numa das minhas primeiras idas a Dakar.

Então aceita que a sua poesia é uma poesia surrealista?

Sim, é a caracterização mais fácil, aparente. A poesia surrealista tem influência na poesia que tenho escrito; não escrevi muito, ou pelo menos publiquei pouco em termos de livros, publiquei apenas dois livros, ainda que tenha muitas coisas editadas em obras colectivas, em antologias e revistas. O surrealismo tem uma tónica forte porque durante muitos anos foram as minhas leituras dominantes.

Se esta influência é visível pelas leituras que tinha, pelas minhas referências, pelo meu gosto, tem a ver também, um pouco, com o meu temperamento, o meu irrequietismo intelectual. Eu sempre me lembro de uma coisa que li, suponho que em Breton, no primeiro manifesto surrealista, em que ele dizia que todo o real é medíocre. Ele dizia: “eu nunca seria capaz de escrever uma coisa parecida com isto: ‘estou num quarto, tem quatro paredes, com o tecto baixo, caiado de amarelo, com as portas castanhas’”.  

Sempre achei isso uma coisa extremamente redutora e que fosse qualquer coisa de medíocre; a poesia ou a literatura não deveria ser isso. Portanto, só o surreal, só a imaginação é que seria o domínio da maravilha. O maravilhoso é aquilo que tem a ver com os sonhos, que tem a ver com a superação daquilo que é o real. Digamos que esta ideia central dominou todo o meu percurso literário e, assim, eu mesmo hoje tenho dificuldades em fazer poemas realistas e daí a minha dificuldade também em fazer prosa literária. Já fiz experiências mas a minha prosa tem que ser sempre uma prosa quase poética e tem, igualmente, a influência do surrealismo. Mas o meu surrealismo, se assim posso dizer,  convive com leituras, escritas, de outros autores que não são propriamente surrealistas como Baudelaire, Char, gosto de ler autores portugueses como Eugénio Andrade, Alexandre O’Neill, Herberto Helder, que são autores que não estão totalmente fora disso, mas é uma mistura de géneros e de fontes.

Porquê que seguiu para o Direito?

Por um mero acaso. Quando estava no liceu, terei sido bom aluno, seja em disciplinas como o português ou francês ou inglês, seja em áreas como a matemática e a física. O que quer dizer que quando estava no quinto ano pensei em fazer matemática ou fazer germânicas que era inglês e alemão. Suponho que a ideia do Direito veio um pouco por causa da política. Não sei porque razão associei direito à política, mas lembro-me que um dia, numa conversa com o Carlos Veiga, ele me terá dito: “olha que as pessoas da política, as pessoas que mandam, é tudo gente de direito” e ele deu-me uns exemplos e achei curioso. Não sei se isso me terá influenciado e decidi ir para o direito. Fui para Coimbra e não gostei muito. Quer dizer, fui bom aluno, mas só passei a gostar de direito depois de uma interrupção forçada que tive que fazer já no 5º ano do curso. Por razões políticas fui expulso da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra e depois não me deixaram entrar em Lisboa. Eu regressei a Cabo Verde, trabalhei no Ministério dos Negócios Estrangeiros até ter a ruptura com o PAIGC, em 1979, e só depois fui acabar o 5º ano. A partir desta altura é que eu passei a ter o gosto pelo Direito e, sobremaneira, depois de fazer o curso.

E porque é que foi expulso (da universidade)?

Fui expulso na altura depois de um processo disciplinar que me foi instaurado, eu e mais onze estudantes, entre os quais Wladimir Brito. Aquilo era antes do 25 de Abril, era tempo do Estado Novo, do Fascismo. Fui acusado num processo de ter impedido aulas, de ter arrombado portas, de ter estado a fomentar greves, mas a acusação, curiosamente, no essencial, era construída com base em factos falsos.

Lembro de me terem acusado de um dia ter arrombado portas com outros e ter impedido aulas a alguns professores e, nesse dia, estava a dormir e não tinha ido às aulas e, portanto, apercebi-me que aquilo era um processo político. Na altura, tinham-me dado um prazo para contestar, fiz a contestação normal e caí numa ingenuidade: devia ter-me transferido para Lisboa para fugir ao processo disciplinar, mas um professor meu, Orlando Carvalho - dizia-se que era ligado ao Partido Comunista Português ou ao MDP (Movimento Democrático Português) que era a oposição permitida na altura - um dia chamou-me a mim e ao Wladimir Brito e diz-nos: “não vão para Lisboa. Vão desaprender em Lisboa. Este processo não dá nada, vai ser arquivado”. Realmente o processo foi arquivado. Fiz o 4º ano, passei para o 5º. Mas, entretanto, nas vésperas de acabar o 5º ano do curso, o processo foi reaberto, «desarquivado» por iniciativa do director da Faculdade, se me lembro bem, e aplicaram-nos uma pena de dois ou três anos e, portanto, não podia fazer os exames de Direito naquele ano.

Na altura tinha 21 ou 22 anos e foi um trauma forte para mim. Tentámos transfência para Lisboa, mas o nosso requerimento foi indeferido; recorri ao Ministro na altura, Veiga Simão, e foi também indeferido e portanto, ficámos sem poder acabar o curso; e, na ápoca, havia uma lei chamada lei da incorporação compulsiva no exército. Portanto, ao abrigo dessa lei, recebi um telegrama a dizer que devia comparecer. No dia seguinte, às 3 horas da tarde, num quartel em Mafra para o serviço militar obrigatório.

Na altura era membro do PAIGC na clandestinidade e recebi instruções para que permanecesse em Portugal, pois havia ponderado sair de Portugal clandestinamente, através de meios que nos eram disponibilizados por contactos com forças políticas portuguesas. Depois veio o 25 de Abril e regresso a Cabo Verde. Meto-me aqui a trabalhar no Ministério dos Negócios Estrangeiros.

Eu me lembro que Pedro Pires, na altura Primeiro-Ministro, ofereceu-me até condições boas para ir concluir aquelas cadeiras que faltavam mas, entretanto, deu-se aquele acontecimento a que chamaram  fraccionismo e trotskismo e saí do PAIGC. Fui para Portugal em fins de 79, fiz aquelas disciplinas de Direito que faltavam e fiz lá o estágio de advocacia; era pra vir mas convenceram-me a iniciar uma carreira universitária.

Quais são os seus marcos enquanto académico?

Eu fiz uma carreira académica, que esteve sempre relacionada, também, à questão da política, quase por acaso.  Eu, em 79, fui terminar o curso e estava ligado a movimentos de contestação do partido único e vinha todos os anos a Cabo Verde. Isto obrigou-me um pouco a estudar Direito e, sobretudo, o Direito criminal me interessou muito - o fenómeno criminal, mas mesmo o Direito criminal, como dogmática, digamos, como uma espécie de gramática pura e… fui fazendo: andei na Faculdade de Direito de Lisboa, fui monitor, fui assistente estagiário depois assistente graduado.

Também estive para vir para Cabo Verde, depois convidaram-me para ir a Macau e fiz uma experiência em Macau, por dois anos, como Director de uma Faculdade de Direito. Ultimamente, estive na criação e presidi a uma fundação ligada ao direito e à justiça e igualmente a uma instituição universitária que foi pioneira em estudos superiores em direito. Ensinei, estudei, escrevi e fui publicando. Participei, como conferencista em vários eventos em Cabo Verde e, sobretudo, no estrangeiro. Mas, diria, sem um plano… Mas, o gosto pelo estudo de Direito, pela investigação, pela escrita e publicação, também é uma coisa apaixonante e que é uma espécie de bichinho. E, mesmo hoje, como Presidente da República, ando com coisas de Direito penal e ainda tento escrever e publicar. Portanto, digamos que é uma componente minha que me há de acompanhar pela vida afora. 

 

Parte da entrevista conduzida pela jornalista Margarida Fontes em 2013