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Sex, Dez

Clara Marques: “A educação mexe com milhares de pessoas. É preciso estar atento”

Entrevistas
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Com 42 anos de carreira, a professora Clara Marques deu aulas ainda antes da independência de Cabo Verde, foi delegada do Ministério da Educação na Praia, publicou livros didáticos de música, criou o Museu da Educação (Meduca) e lançou para este ano o prémio do professor cabo-verdiano - Lecciona. 

Marques conta que escolheu a educação pela relevância da área para a sociedade e porque abria a possibilidade de continuar a estudar e aprofundar conhecimentos. 

Foi inspectora da educação, desde 1985 até à reforma em 2016. “Um dos objetivos da minha atividade era fazer com que o professor mudasse a sua perceção e visse no inspetor uma pessoa que vai a escola não para procurar os aspetos negativos e chamar atenção ou relatar, mas alguém que pudesse ser uma mais-valia que fosse para apoiar os trabalhos”.  

Atualmente reformada, é presidente da Associação para a Promoção do Património Educacional de Cabo Verde (ASPPEC)  e diretora do Meduca. 

Segundo ela, a qualidade da educação pública, é uma expressão recente e que qualquer mudança no sistema deve pressupor três coisas: estudo diagnóstico, experiência piloto e generalização. Leia a entrevista completa: 

Como é que chegou a ser professora?

Esta pergunta remete-me para quando eu tinha 10/13 anos e ia à Cruz Vermelha todos os dias, aprender a fazer bordado, costura, teatro e música, juntamente com muitas amigas, irmãs e outras raparigas mas velhas do que eu. Havia ali uma freira chamada Irmã Augusta que era nossa professora e responsável dessa casa de costura.

No mesmo edifício, no rés-do-chão funcionava um jardim de infância que recebia crianças dos 5 aos 7 anos, cuja responsável também era Freira, a Irmã Trindade.

Neste jardim estavam as minhas duas irmãs mais novas e muitas vezes ia cantar e dançar com elas e os colegas. Depois de algum tempo fiquei amiga da Irmã e um dia a monitora não foi trabalhar e a irmã Trindade pediu-me para a ajudá-la com as crianças. Sempre que uma ou outra monitora faltava ao trabalho eu ia ajudá-la.

Quando fiz 13 anos, uma das monitoras resolveu emigrar e a Irmã perguntou-me se eu queria trabalhar com ela e eu disse que sim, mas só no período de manhã porque à tarde ia às aulas.

Estudava na altura o 1º ano de ciclo preparatório e no início do 2º fiquei a saber que iam abrir uma escola de formação para professores pela primeira vez em Cabo Verde.

Como já tinha adquirido o gosto para ensinar e ser professora e também porque algumas amigas minhas disseram que iam. Falei com os meus pais e disse-lhes que gostaria de ser professora. Eles acharam por bem e candidatei-me. De entre centenas de candidatos que fizeram o teste, passei e acabei por anular a matrícula no Liceu e fui estudar naquela escola de formação de professores.

A formação foi muito difícil, muitos reprovaram, desistiram porque as disciplinas eram muitas, passávamos o dia inteiro naquela escola e a maioria dos professores eram portugueses que discriminavam muitos alunos. 

Depois de quatro anos, no fim do curso, foram premiados os dez melhores alunos, com uma visita de estudo a Portugal e eu fui umadas contempladas.

No entanto, quando regressámos vimos a nossa nomeação em zonas muito distantes da nossa residência e fui perguntar ao Sr. Inspetor porque é que os melhores formados iam para outras ilhas ou então zonas difíceis. Ele respondeu que “os melhores devem ir para as zonas menos desenvolvidas”.

Assim, fui nomeada professora na Calheta de São Miguel, mas o meu pai disse que não ia porque eu era uma menina muito frágil, Calheta era muito longe e não conhecia ali ninguém. 

Acabei por convencê-lo, argumentando que tinha feito um curso de quatro anos e se não fosse jamais encontraria emprego porque no tempo colonial era assim. 

Naquela semana arrumei as malas e fui ficar numa casa de uma senhora onde o meu irmão Ulisses conseguiu um quarto para mim. Cheguei à Calheta numa segunda-feira, no único autocarro que fazia viagens para ali e quando desci encontrei um grupo de pessoas que ficou a olhar para mim e ouvi então uma voz dizendo que eu era a Professora que viera da Praia.

Todos os dias para além da lecionação ia fazer costura na Casa da Irmã Rosário que ficava ao pé da Igreja de São Miguel e na altura, em 1973, o pároco era Rev. Padre Moniz.

Num dia de abril de 1974, logo de manhã, fui à costura encontrei-me com o Senhor Padre e ele disse: "Professora ouve golpe de estado em Portugal". Eu olhei para ele e disse: "Meu Deus uma revolução?" Por causas das mudanças havidas, no ano seguinte vim para Praia.

Qual a maior dificuldade da profissão que escolheu? 

A maior dificuldade foi quando tinha numa sala de aula um aluno que não tinha mãe, vivia com o pai que o deixava-o fechado dentro de casa sozinho. Na escola era muito indisciplinado, fazia coisas fora do normal para chamar atenção e comecei a observá-lo e vi que ele tinha problemas psicológicos. Naquela altura, como ali não havia psicólogos, procurei várias estratégias junto do pai e acabei por coloca-lo na Granja São Filipe. Sei que hoje é um bom rapaz.

E qual o melhor aspeto? 

O aspeto positivo é que escolhi foi de continuar a estudar porque sabia que um professor só é digno desse nome, quando procura a actualizar-se permanentemente, a fim de acompanhar a evolução e as mudanças da sociedade, para ensinar cada vez mais e melhor.

Depois de reformada continua ligada à educação. O que a motiva?

A minha motivação é ter trabalhado durante 42 anos na Educação e antes de me reformar ter elaborado um projeto de valorização e salvaguarda do património material e imaterial ligado à Educação, por ter percebido que os materiais escolares antigos eram substituído por várias razões e outros mal conservados, com a tendência a desaparecer.

Neste sentido, concluí que a nova geração ficava sem uma referência, semsaber como eram os acervos que os seus pais tinham estudado. Foi isso que me motivou para que mesmo estando reformada continuasse a trabalhar em prol do desenvolvimento da educação em Cabo Verde, mas no quadro da educação não formal.

Como avalia a qualidade a qualidade da educação pública em Cabo Verde?

A qualidade da Educação é uma expressão recente que entrou no vocabulário das políticas e comunidades educativas ao nível mundial e em Cabo Verde já há alguns anos que se vem falando. No entanto, a qualidade de educação deve ser avaliada não só ao nível de ter professores com formação específica, ou ter infraestruturas escolares adequadas ou bons manuais mas é muito mais do se pensa.

Um dos fatores que contribui para que se possa afirmar que a qualidade da educação deve existir é que haja avaliação do sistema em todas as suas dimensões, nomeadamente avaliação de aprendizagem adequada, de desempenho de professores e institucional que inclui auto-avaliação e avaliação externa, avaliação aferida e comparada com outros sistemas educativos, como por exemplo o PISA, para podermos saber como é que estamos e para onde queremos ir.

Ter um currículo que espelha a realidade do país e que a política de formação de professores não seja só ao nível inicial, porém que a formação contínua seja ministrada da mesma forma pontual com tem vindo a ser feita.

Possuir instrumentos de gestão que permitam fazer-se uma boa gestão nas escolas, ter gestores escolares democraticamente eleitos pela comunidade educativa, com formação especifica com uma carreira própria e não nomear professores para a gestão das escolas que começam a trabalhar hoje e saem amanhã porque a mobilidade não contribui para o desenvolvimento, a consolidação e materialização das políticas traçadas pelo governo.

Por tudo isto que acabei de dizer, fazer uma avaliação sobre a qualidade da educação torna-se extremamente difícil porque é necessário conjugar todos esses fatores, agregando a motivação e empenho dos docentes, mais aproximação das famílias e das comunidades para que se possa ter elementos credíveis para se fazer uma avaliação sobre a qualidade da Educação.

Acha que a qualidade da educação passa pelo engajamento dos docentes?

Como disse, a qualidade da educação não só passa pelo engajamento dos professores, mas por toda a comunidade educativa. Porque a qualidade da educação, repito, não é uma vertente que dever analisada e só acontece no seio da educação quando todas as condições são criadas.

Criou o prémio do professor cabo-verdiano. Como surgiu a ideia? 

Fui professora durante dez anos, depois Delegada do ME no Concelho da Praia e mais tarde Inspetora de Educação de 1985 a 2016 (durante nove anos fui em comissão de serviço trabalhar como Diretora do Gabinete no Ministério da Defesa). Durante vários anos fui trabalhando e estudando, iniciando com o curso de professor de Posto Escolar, Professor de Magistério Primário, Bacharelato em Estudos Cabo-verdianos e Portugueses, Licenciatura na mesma área, mas sem defesa de monografia, Licenciatura em Ciência de Educação em Braga, Pós Graduação em Berlim e Mestrado em Ciência de Educação com especialização em Avaliação pela Universidade de Minho, Braga.

Enquanto inspectora, trabalhei com as zona inspetivas da Praia, Fogo e Brava, porque na altura a inspeção estava divida por zonas inspetivas e cada inspetor tinha duas ou três zonas. Durante cinco anos, nas visitas inspetivas deparava com muitos materiais escolares com tendência a desaparecer por força de uso ou por sucessivas reformas do ensino e ainda uso materiais que não devia estar na escola como por exemplo palmatórias e outros.

Pensei que a única forma de resgatar, preservar e valorizar esses materiais era criar um museu e foi ainda no decorrer das minhas funções como Inspetora geral da Educação que criei a Associação para a Promoção do Património Educacional Cabo Verde, ASPPEC para poder criar o Museu de Educação em 2009. Neste ano comemoramos o nosso décimo aniversário.

Foi sempre meu sonho fazer algo para o professor, porque ele merece e porque íamos comemorar os dez anos do Museu achei por bem, no âmbito da nossa agenda de eventos e projetos criar o Projeto LECIONA, Prémio Professor Cabo-verdiano, tendo como objetivos promover a auto-estima dos professores, reforçar uma imagem mais positiva da classe docente, reconhecer e valorizar o seu papel, criar uma cultura inovadora para serem professores empreendedores, proporcionando visibilidades às experiências pedagógicas, premiar o ensino de excelência, contribuindo para a melhoria da qualidade da educação. 

Foi inspectora da educação durante vários anos. Fale-nos dessa experiência.

Fui convidada para ingressar na carreira inspetiva em 1985, dez anos após a independência de Cabo Verde. Ainda havia alguma perceção negativa dos professores em relação ao inspetor, ou seja, o inspetor não era bem visto pelo professor, devido ao trabalho inspetivo muito rigoroso que aquele desenvolvia no tempo colonial.

Um dos objetivos da minha atividade era fazer com que o professor mudasse a sua perceção e visse no inspetor uma pessoa que vai a escola não para procurar os aspetos negativos e chamar atenção ou relatar, mas alguém que pudesse ser uma mais-valia que fosse para apoiar os trabalhos.

Porque a Inspeção por sua natureza é um serviço tem uma componente inspetiva e ela poderá ser exercida de várias formas mais coerciva ou mais compreensiva.

Desde a primeira hora compreendi essa situação e procurei a partir dessa altura, fazer tudo que fosse possível para fazer a inspeção de forma diferente.

Passado algum tempo pude constatar com satisfação que já não me viam como no início e foi por isso que durante muitos anos optamos por fazer ação de formação, apoiar pedagogicamente e criar uma relação diferente daquela a que os professores estavam habituados.

O Serviço de Inspeção foi vista como um serviço fundamental para o desenvolvimento das escolas, porque era único serviço que fazia a ponte com os outros serviços centrais até à criação de serviços de apoio pedagógico na Direção Geral do Ensino. 

Durante a minha estadia na Inspeção, sobretudo na qualidade de Inspetora Geral da Educação, procurei sistematizar um conjunto de instrumentos para melhorar as atividades inspetivas e consequentemente apoiar na melhoria das atividades escolares de gestão. Procurava que a equipa inspetiva levasse informações sobre a gestão, proporcionasse o conhecimento dos normativos ligados ao ensino e à educação e fizesse formação na área disciplinar. Mais tarde criou-se a Avaliação Institucional, cujo objetivo é melhoria da gestão pedagógica.

Posso afirmar ainda hoje, depois de estar reformada (2016), que é com muito carinho que tanto os colegas inspetores como os professores quando nos encontramos lembramos os maus momentos e também todo o ganho que tivemos que foi muito gratificante.

Há quem considere a descontinuidade das políticas como um mal da educação em Cabo Verde. Concorda?

Assim como disse que a mobilidade não contribui para o desenvolvimento, também é preciso que o fio condutor de qualquer instituição deva ser forte e coeso.

O sistema educativo é muito complexo e quando se faz qualquer mudança, por mais que ela seja pequena, são necessárias três coisas: estudo diagnóstico, experiência piloto e generalização. Se isso não feito, corre-se o risco de as coisas falharem, tendo em conta que a educação é um setor de extrema importância nas sociedades e que mexe com milhares de pessoas: Daí que seja preciso estarmos atentos para que as mudanças sejam bem implementadas.

 

TN - Redação