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Ter, Dez

Jovem cabo-verdiano, conhecedor da Igreja em Maghreb, fala da importância da visita do Papa a Marrocos

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“O testemunho da Igreja no Maghreb é desse Cristo que aceitou de ser pequenino, humilhado e fiel até à morte”. 

Amilton Lopes, 27 anos, natural de Ribeira das Patas, Ilha de Santo Antão acompanha a visita do Papa a Marrocos, desde França, com muito interesse e oração pela ligação que mantém com a Igreja maghrebina. Viveu em Argélia, país fronteiriço com o Reino de Marrocos, durante 6 anos como estudante de ecologia e fisiologia vegetal. Depois de conseguir o grau de mestre e de “fortes e inesperadas experiências” seguiu para França onde actualmente é estudante de Teologia na faculdade Jesuíta de Paris.

Nesta entrevista ao Terra Nova, via e-mail, Amilton fala da importância da visita do Papa não só para Marrocos mas para todas as comunidades cristãs daquela região onde, como diz, “o sentido de «evangelizar» é outro. Pode-se evangelizar, não com palavras mas sim no silêncio, na maneira de viver, de falar, de servir”. Confira esta entrevista.  

Esta visita do Papa ao Marrocos certamente marca todas as igrejas do Maghreb. Porque considera isso importante ? 

É com muita alegria que eu acompanho de longe essa viajem do Papa ao Marrocos. Há dois meses atrás ele participou num encontro do mesmo género nos Emirados Árabes Unidos aonde ele assinou com o Imã da Universidade Al-azhar (uma personagem importante no Islão sunita) um documento, aonde reconhecem juntos que querem trabalhar para um mundo de mais fraternidade, paz e amor. Pela primeira vez um Papa ultrapassou essa fronteira. E também, gostaria de lembrar que no mês de dezembro passado, a Argélia, país que faz fronteira com o Marrocos acolheu uma grande celebração para beatificar 19 religiosos assassinados na Argélia nos anos noventa. Eles são considerados como bem-aventureiros da fraternidade. A Igreja na Argélia não quiz celebrar cristãos assassinados pelos muçulmanos, mas sim cristãos que morreram juntos com os muçulmanos. Juntos com os 19 beatos fez-se memória dos mais de cem mil argelinos que foram assassinados na mesma época. As relações entre muçulmanos e cristãos não são de hoje. O nosso São Francisco encontrou e familiarizou-se com um sultão muçulmano. Mas ainda mais longe, no tempo do profeta Mohamed houve essas relações em períodos de muitas tensões. 

É muito importante essa visita do papa no Marrocos. Pode ser visto como um encontro politico, porque o Rei do Marrocos é o chefe de Estado, mas também, como um encontro espiritual e fraterno porque sua majestade o Rei é também o chefe religioso marroquino.

O mundo precisa dessa mensagem de paz, de fraternidade. E as religiões têm que testemunhar essa vontade de avançarem juntos. 

A Igreja no Marrocos, como a Igreja nos outros países maghrebinos ou muçulmanos vivem dia-a-dia dessas relações. Posso até dizer, que ela depende dessas relações e que o testemunho do Cristo esta na maneira de viver. 

Viveu muitos anos em Argélia onde os cristãos são minoria. Como é viver entre os muçulmanos? 

Viver num pais muçulmano quando crescemos numa família cristã e num pais cristão, não é fácil. Entretanto, nessa experiência tem algo de bom e original. A minha experiência na Argélia, aonde estudei durante 6 anos me transformou completamente. Eu quase sempre era o único cristão, na minha sala de aulas. Muitas vezes, fui questionado sobre à minha fé e convidado para mudar de religião. Os meus colegas me diziam: “Amilton, falta-te uma única coisa para seres perfeito, perfeito: ser muçulmano”. E tudo isso, me dava mais forças na minha fé. Eu senti que a minha fé em Cristo ajudou-me nas minhas relações diárias. Eu compreendi o que quer dizer «Amai-vos uns aos outros como eu vos amei». Viver como cristão nessas situações é fazer a experiência dos primeiros discípulos de Cristo. 

A Igreja na Argélia e no Maghreb vive exatamente essa experiência. Não estão presentes para fazer novos cristãos. O sentido de «evangelizar» é outro. Pode-se evangelizar, não com palavras mas sim no silêncio, na maneira de viver, de falar, de servir. Através de bibliotecas, formações linguísticas, formações para as mulheres, as Igrejas no Maghreb querem ser solidários no desenvolvimento da sociedade. 

O testemunho da Igreja no Maghreb é desse Cristo que aceitou de ser pequenino, humilhado e fiel até à morte. 

Como esta visita pode reavivar estas igrejas minorias? Como interpreta esta aproximação do papa aos muçulmanos? 

Sim, essa visita vai dar forças à essas Igrejas. Mesmos as comunidades cristãs que não são católicas. O Santo Padre mostra-se sensível ao que se vive nessas realidades por vezes muitos escondidas. O próprio da Igreja católica no Maghreb é estar em silêncio. Mas por vezes é preciso ouvir o que ela tem a nos dizer. 

E a visita do Papa tem duas importâncias na minha opinião para estas Igrejas: a primeira é de mostrar que a Igreja universal está com elas e o segundo, e fazer com que essa mensagem de fraternidade seja ouvida no mundo inteiro, em toda a  Igreja universal. 

Com o papa Francisco estamos a viver uma nova era. A era das relações islão-cristãos. Como foi dito e assinado nos Emirados Árabes Unidos : «Em nome de Deus e de tudo isto, Al-Azhar al-Sharif – com os muçulmanos do Oriente e do Ocidente - juntamente com a Igreja Católica – com os católicos do Oriente e do Ocidente – declaramos adotar a cultura do diálogo como caminho; a colaboração comum como conduta; o conhecimento mútuo como método e critério». (DOCUMENTO SOBRE A FRATERNIDADE HUMANA)

Quer dizer mais alguma coisa?

Só posso dizer que o somos uma única família, temos o mesmo Deus cristãos e muçulmanos. O islão é uma religião que testemunha o amor de Deus e do próximo. É claro que cada muçulmano tem seu próprio estilo de viver a religião. Os cristãos não ficam de fora. Agora mais do que nunca precisamos darmo-nos as mãos para salvar nosso planeta, para salvar a humanidade. As religiões podem ajudar e tanto a concretizar esse sonho. O papa é um homem que sonha «a fraternidade humana». Porque não eu? Porque não nós os cristãos?

Ir ao encontro do outro diferente de min, é ir ao encontro de um tesouro.