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Ter, Dez

José Cabral vencedor do Prémio Paulus: "este trabalho foi elaborado com os pés bem assentes na terra"

Entrevistas
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O seminarista José Cabral da Diocese de Santiago, é o grande vencedor do Prémio Paulus. Um prémio promovido pela Paulus Editora desde 2014 e que visa promover a investigação teológica em português. Cabral submeteu ao concurso que já acontece há 5 anos a sua tese de mestrado integrado em Teologia que versa o tema da paternidade. O TN falou com o galardoado para saber como recebeu a notícia e o que pensa acerca desta distinção. Confira a conversa. 

 

Com qual sentimento recebe este prémio?

Foi uma surpresa muito agradável. Olhando para trás e todo o seu processo de elaboração, incluindo a escolha do tema, os encontros com o orientador para arquitectar o trabalho, era impensável esse desfecho. Mas, devo dizer, também, que este trabalho foi elaborado com os pés bem assentes na terra. Durante o percurso sempre tive, como pano de fundo, a realidade e o contexto da família cabo-verdiana, reconhecendo de forma visível esta questão da evaporação da figura do pai (embora não sendo um trabalho especificamente sobre esta realidade). Também tive bastante presente, sobretudo, a solidão e o vazio de tantos adolescentes e jovens que fui conhecendo, seja na minha experiência pastoral, seja na minha rede de relações. Vi-os a viver, muitas vezes, como órfãos de pais vivos. Por fim, tive presente, também, a angústia de tantas mulheres que vivem como viúvas de maridos que, simplesmente, não assumiram as suas responsabilidades paternas.

O Prémio consiste propriamente em que? Dinheiro? Publicação?

Quando se fala de prémios, a tendência, muitas vezes, é de pensar no valor quantitativo ou nas honras que a pessoa, porventura, recebe ou irá receber. Para mim, tratando-se de um trabalho de investigação, que levou o seu tempo e exigiu muitos sacrifícios, só o facto de ele ser hoje reconhecido e valorizado é já um grande ganho. E isso acaba por ser um incentivo para continuar a trabalhar. Aliás, a ideia da EDITORA PAULUS, com este Prémio, é isso mesmo: «promover a reflexão teológico-cristã, incentivar os estudantes no trabalho de pesquisa e lançar novos autores». 

A sua tese aborda uma questão muito presente em Cabo Verde: a ausência do Pai. Aborda esta realidade nela?

A ideia inicial para a minha dissertação era reflectir sobre a figura do pai no contexto de Cabo Verde. Mas este projecto rapidamente se mostrou inexequível, dada a complexidade do tema e a pouca bibliografia existente sobre esta matéria em Cabo Verde. Pelo grande interesse que tinha por esta questão, decidi, juntamente com o meu orientador, avançar não a partir de uma realidade concreta, que seria Cabo Verde, mas sim de um desafio, procurando desenhar uma resposta a nível teológico-pastoral acerca desse mesmo desafio, tendo em conta um mundo cada vez mais globalizado, no qual as questões são transversalmente as mesmas; por isso, a meu ver, a resposta também havia de ser sempre a mesma: a Boa Nova de Jesus Cristo.

Como é que a experiência da paternidade humana influencia a aceitação da paternidade divina? 

Na Introdução do meu trabalho eu dizia que esta questão da ausência da figura do pai na família merece uma especial atenção, por duas razões: por um lado, perceber que o enfraquecimento desta figura desestabiliza a família e a sociedade, desestrutura os filhos, tirando-lhes o rumo, a segurança e a vontade de assumir um projecto de vida e, por outro, perceber que numa sociedade na qual o homem já não sente a beleza, a grandeza e o conforto profundo contidos na palavra pai, também estará em causa aquilo que é o fundamento e o horizonte último da fé cristã: a contemplação do Pai celeste – «mostra-nos o Pai, e isso nos basta», dizia Filipe a Jesus (Jo 14, 8..).

Portanto, ao longo do trabalho, procuro demonstrar como é que a experiência (positiva ou negativa) da paternidade humana pode influenciar a relação do indivíduo com o Deus-Pai, o Abbá de Jesus.

Há quem diga que vivemos uma crise de fraternidade. Isso deve-se à crise de paternidade? 

Sim. No trabalho procuro analisar, também, como é que esta questão da «crise da paternidade» se pode ligar às questões da «crise da fraternidade», da distorção do verdadeiro sentido da liberdade e da igualdade de que hoje se fala e se projecta, a nível político-social, inclusive, para as nossas sociedades. A questão para mim é a seguinte: como conceber uma liberdade num horizonte de libertação «numa sociedade de órfãos, que matou o pai e proclama a sua emancipação»? Como projectar ideais de fraternidade numa sociedade que rejeita qualquer vínculo filial? E como pensar numa igualdade no horizonte da personalidade, num tempo de grandes competitividades e que prima por um igualitarismo, não atendendo ao específico?

 

TN - Redação