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Dom, Ago

Cardeal da Suécia diz que o Papa ainda pode influenciar o debate sobre imigração

Entrevistas
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Há décadas a Suécia é conhecida como um dos países mais amistosos a refugiados e migrantes da Europa. Nos últimos anos, no entanto, uma onda de recém-chegados fez com que o país estreitasse suas políticas.

 

 

Há pouco mais de um ano, o cardeal Anders Arborelius recebeu seu chapéu vermelho do Papa Francisco - o que foi visto como uma surpresa. Foi um movimento característico de Francisco: criar um cardeal num país que é oficialmente luterano e tem apenas uma pequena população católica.

Como bispo de Estocolmo, Arborelius tem sido um defensor de longa data do diálogo inter-religioso e acolhendo imigrantes e refugiados.  Numa entrevista ao Crux, jornal católico francês, ele descreve o desafio contínuo da migração na Europa e por que acredita que a visão de Francisco - e os valores do Evangelho - podem penetrar até mesmo nos corações mais endurecidos.

 

Eis a entrevista:

 

Em todo o continente europeu, o apoio aos migrantes e refugiados parece ser um suicídio político, mas o Papa Francisco continua pregando uma mensagem de boas-vindas aos estrangeiros. Acredita que ele tem algum parceiro político real no cenário europeu? E acha que as tensões sobre esta questão podem levar ao colapso do projeto europeu?

O Papa Francisco tem uma voz profética, além de uma tarefa na Europa de hoje. Talvez não haja muitos parceiros políticos que o sigam totalmente, mas pessoas de todos os credos e opiniões o ouvem, ou seja, sempre há uma possibilidade dele ajudar as pessoas a se abrirem para uma perspectiva mais positiva sobre a migração.

Não creio que todo o projeto europeu esteja em perigo, mas, de alguma forma, vemos que toda nação está ansiosa para seguir sua própria política nesses assuntos.

 

Por muito tempo a Alemanha tem sido um fator crítico em políticas mais abertas com relação a refugiados e imigrantes. Acredita que a recente decisão da Chanceler Angela Merkel, em estreitar as políticas de asilo do país, seja uma rejeição do acordo de Schengen, que garante a livre circulação através das fronteiras nacionais dentro do continente?

Pode ser muito cedo para ver todas as consequências dessa decisão. Ainda assim, temos que aceitar que o acordo parece ser questionado em toda a Europa.

 

Ao se tornar um cardeal, afirmou ser a maneira de Francisco reconhecer o papel que a Suécia vem desempenhando ao acolher os migrantes. No entanto, mudanças recentes na política do governo tornaram mais difícil, especialmente para reunir as famílias. Como a Igreja local está a trabalhar para resistir a esses esforços?

É verdade que a Suécia, como muitos países, mudou a sua atitude e é muito mais difícil para os refugiados entrarem no país. Lamento que a política da Suécia não seja tão positiva quanto o Papa Francisco pensou.

Juntamente com todas as outras 29 denominações do Conselho Cristão da Suécia, tentamos influenciar os políticos e o público a fim de favorecer a reunificação das famílias, mas isso não é fácil. Também recebi uma ameaça pessoal de um grupo nacionalista e de outros líderes da Igreja.

 

Quando examina o panorama global, a Europa, os Estados Unidos, ou outros lugares, há forças populistas e nacionalistas maciças a serem levadas em conta. Está otimista de que isso pode mudar, e qual é o seu conselho para os católicos que querem resistir a essas tendências?

É verdade que esses movimentos receberam muito apoio, mas também sabemos que as opiniões políticas mudam rapidamente. Mesmo que a Igreja não entre diretamente no debate entre os partidos políticos, a proclamação do Evangelho tem sua própria força, mesmo numa sociedade secular. Sabemos que pessoas de diferentes origens ainda ouvem o Santo Padre, e às vezes há mais mentes abertas do que pensamos. Testemunhas e histórias pessoais sobre perseguição e sofrimento ainda podem mexer com os corações, até mesmo de políticos que se opõem à imigração.

 

A Suécia é notoriamente laica, mas você acredita que o exemplo da Igreja de servir como um lugar de boas-vindas é parte de um testemunho da fé que pode tornar o Evangelho atrativo e, portanto, em algum sentido evangélico?

Na verdade, a Suécia não é tão secular quanto pensam. Muitas pessoas estão abertas aos valores do Evangelho, mesmo que não sejam frequentadores da igreja.

A chegada de muitos refugiados que foram ajudados por paróquias de diferentes denominações, causou um grande impacto em muitas outras pessoas. Ainda hoje, até os políticos que têm opiniões diferentes são cheios de admiração pelo zelo dos cristãos que tentam ajudar os refugiados e outros migrantes.

Sempre há esperança quando as pessoas tentam se abrir para os valores do Evangelho.

  

A entrevista é de Christopher White, publicada por Crux