19
Dom, Ago

25º aniversário da Rádio Nova: A Comunicação Social privada em Cabo Verde é “um fidj d’fora”

Entrevistas
Tipografia

1992 foi um ano extraordinário para Cabo Verde. Em setembro desse ano foi aprovada a nova Constituição da República. Mais do que nova, podemos dizer uma verdadeira Constituição. Com a nova Constituição de 92, Cabo Verde passa a fazer parte do grupo de países livres e, mais do que livres, países que garantem aos seus cidadãos a plena e verdadeira liberdade. 

Em dezembro ouvia-se através da rádio uma voz alternativa à voz oficial, nascia a Rádio Nova graças à iniciativa dos Capuchinhos. Decorridos 25 anos quisemos saber como vive a Rádio Nova esta efeméride em tempos de crise. Confira a entrevista que Nita Santos, diretora daquela estação cristã, concedeu ao nosso jornal: 

 

 

A Rádio Nova completou no dia 17 de dezembro 25 anos no ar. Que balanço se pode fazer? 

Um balanço positivo. 25 anos de muito trabalho, de algumas dificuldades, algumas dores de cabeça, o que é normal, mas também de muitas alegrias, quer para os proprietários desta estação emissora, Congregação dos Frades Menores Capuchinhos, quer para os seus profissionais, os colaboradores e sobretudo para os ouvintes que numa primeira fase só ouviam a Rádio Nova em Cabo Verde, mas com a evolução da internet, hoje estamos também em todo o mundo, onde nos sintonizam. É gratificante, uma vez que do exterior, os nossos patrícios enviam mensagens a dizer que estão a seguir a emissão e como é hábito enviam lembranças para os familiares e amigos, sem esquecer os marítimos cabo-verdianos que nos contactam desde a Mauritânia, os que passam nas águas de Cabo Verde.

25 anos é um marco importante. Como foram comemorados?

Sem dúvida que é uma data importante. A direção agendou algumas actividades que tiveram início em Dezembro de 2016.

- Assinatura de Protocolo de Geminação entre a Rádio Nova e a Escola de Condução Vaz em Novembro de 2017.

- Uma campanha de recolha de alimentos não perecíveis (Dezembro de 2017) cujo fruto foi doado a três instituições de São Vicente: Lar de idosos de Campim, Centro “Santa Clara”, de apoio às jovens com a síndrome de Down, na localidade de Chã de Alecrim e a Associação ACATI que trabalha com os idosos. 

- Uma conferência dia 27 de Janeiro de 2017 sobre “A comunicação para a paz e para o desenvolvimento: a visão da Igreja” com a jornalista cabo-verdiana Dulce Araújo, da Rádio Vaticano. Ela debruçou-se sobre alguns documentos da Igreja, sobre a paz e o desenvolvimento, passando depois para os que incidem na comunicação social, sobretudo a partir do Concilio Vaticano II, até hoje. Lançou também um breve olhar aos meios de comunicação da Santa Sé, à sua evolução e transformações actuais, fixando a atenção, de modo particular, no caso da Rádio Vaticano. 

Com base em todas esses princípios, descortinou os desafios que a comunicação para a paz colocam hoje ao mundo. Finalmente, procurou compreender em que pontos convergem ou divergem a deontologia profissional da comunicação e a ética cristã nesta matéria. 

- Assinatura de um Protocolo de Geminação entre a Rádio Nova e a Universidade Pública de Cabo Verde (Uni-CV), dia 7 de Junho de 2017.

- Uma 2ª conferência no dia 14 de Julho de 2017 vertendo o tema “A paz em África, utopia? O contributo do jornalismo para uma cultura de paz – caso da Guiné-Bissau” com a jornalista da Rádio Sol Mansi da Guiné Bissau, Ana Bela Ramalho, um tema, sem dúvida desafiador.

Ela observou as iniciativas de construção de paz na Guiné-Bissau depois das cíclicas crises político-institucionais que o país enfrentou e vem enfrentando ao longo de sua recente história política e democrática. O surgimento de algumas iniciativas públicas e privadas com o objetivo de contribuir para a promoção e construção de um amplo consenso nacional, envolvendo esferas política, sociocomunitária, económica e religiosa. 

O papel da Rádio Sol Mansi (RSM), uma emissora católica que contribui para a edificação da cultura de paz, num ambiente político-cultural de extrema heterogeneidade, sistematicamente atravessado por conflitos, pobreza resultante de má gestão da coisa pública e outros fenómenos que se constituem em fatores de constrangimentos às possibilidades de construção da paz e do desenvolvimento sustentável.

- Em andamento está um Protocolo de Geminação entre a Rádio Nova e a Rádio Sol Mansi da Guiné Bissau que poderá vir a concretizar-se no início de 2018.

- Missas transmitidas em directo durante todo o ano (2º domingo do mês) das Igrejas Paroquiais de Nossa Senhora da Luz, de São Vicente e das Capelas de São Francisco de Assis, nos Capuchinhos e de Nossa Senhora Auxiliadora, nos Salesianos.

- Acompanhamento na totalidade dos trabalhos do IX Forum das Caritas dos Países Lusófonos, na ilha de Santiago.

Infelizmente ficaram iniciativas por concretizar como são duas conferências com a DW e a Rádio Renascença, bem como a Gala de Música. Os patrocínios solicitados não chegaram e assim o factor económico falou mais alto.

Qual é o estado de saúde da RN no últimos anos?

Continuamos com problemas a nível da rede de cobertura radioelétrica. A rede de cobertura radioelétrica da Rádio Nova abrange neste momento as zonas de grande concentração populacional de todas as lhas de Cabo Verde, com destaque para S. Vicente, Santo Antão, S. Nicolau, região Fogo/Brava e Santiago. Algumas regiões como Sal e Boavista e Maio com cobertura deficitária. A ilha de Santo Antão, sobretudo nos vales profundos com a ultrapassagem das zonas de sombra, ainda por resolver. 

Pela radiografia, os desafios são muitos, as preocupações também. Entretanto, um projeto está a ser arquitetado entre as Dioceses de Santiago e do Mindelo, os Irmãos Capuchinhos e a Canção Nova do Brasil. Técnicos e responsáveis do projecto já se reuniram no Mindelo. Esperemos dias melhores para a Rádio.

Quais os maiores desafios para os próximos anos?

Ultrapassar as zonas de sombra é a nossa prioridade. Renovar e atualizar os estúdios (isolamento acústico geral dos três estúdios), aquisição de aparelhos que nos permitam fazer transmissões com qualidade, fora dos estúdios deixando para trás a transmissão por meio analógico (hoje em desuso). Misturadores, microfones, emissor de exterior via IP, remodelação completo dos equipamentos de emissão e retransmissão, mobiliário de escritório, substituição geral da cabulação de áudio, equipamentos de estúdio (emissão, de descodificação de sinal, amplificação Rak, codec) 

O Estado colabora de alguma forma com a emissora? 

 A Comunicação Social privada em Cabo Verde tem problemas financeiros crónicos, é “um fidj d’fora”. Ela continua dominada pelos órgãos públicos de rádio e televisão, que também concorrem no mercado exíguo de publicidade comercial. O “bolo” não é repartido equitativamente. Com o arrefecimento da economia diminuíram a publicidade e os anúncios. A falta regulação do mercado da publicidade pode. O Estado tem que criar uma política facilitadora que passe por incentivos ou isenções para que as empresas de comunicação privadas possam crescer e sobreviver. Caso contrário, o privado pode “sair de cena”, assim como os jornais impressos.

Há bem pouco tempo houve um fórum sobre o serviço público de Rádio e TV. Considera que a RN presta serviço público?

Aconteceu no passado mês de Novembro e foi presidida pelo Primeiro-Ministro, Ulisses Correia e Silva, organizado pelo Ministério da Cultura e das Indústrias Criativas, através da Direcção Geral da Comunicação Social. 

O que se pretendia era trazer para o debate uma reflexão sobre o serviço público no que concerne ao acesso, às obrigações e a sustentabilidade. A ideia foi boa, mas passa para o concreto? 

Há 25 anos que a Rádio Nova faz um serviço público de qualidade (Saúde, Educação, Desporto, Civismo, Família, Juventude, Sociedade, Religião...). Procura dar o seu contributo na informação do que se passa no país e no mundo e na formação do homem integral. Quem pode negar esta realidade? Onde param os incentivos por parte do Estado? 

Acha que devia beneficiar de algum subsídio do Estado?

Porque não? Trata-se da primeira rádio privada a emitir para todo o arquipélago após a instauração da democracia para dar o seu contributo em favor do pluralismo no âmbito da comunicação radiofónica. É insuportável saldar as facturas da ANAC que ultrapassam as posses da Rádio

A RN foi a primeira emissora privada de CV. Hoje multiplicaram-se as rádios privadas por todo o país. Há diálogo entre as principais rádios privadas para enfrentarem juntas os desafios?

Diálogo de se sentar na mesma mesa para analise e discussão, não. Sabendo que todas as empresas privadas têm o mesmo problema, a análise nessa linha poderia ser um passo na direção de uma solução.

A RN é um instrumento privilegiado de evangelização. A Igreja de Cabo Verde tem consciência disso? Tem feito bom uso dela?

Tem consciência, mas não age em conformidade. Todos querem ouvir a Rádio dentro ou fora do país, mas devem pensar também que está ao serviço da Igreja e do povo cabo-verdiano e que por conseguinte podem ajudar a minimizar as despesas que são muitas.

 

É muito simples: ser associado e contribuir livremente com uma quota mensal, recrutar novos amigos para a associação, obter o seu cartão de associado, mandar fazer publicidade, avisos e anúncios, participar nas iniciativas da rádio que têm como objetivo a angariação de fundos (quermesses, sorteios, torneios desportivos, jantares, tardes de chá, entre outros); promover e participar numa digna celebração na sua comunidade no dia Mundial das Comunicações Sociais. A vontade de trabalhar não falta. 

TN - Redação