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Seg, Nov

Chã das Caldeiras teve oportunidade única de renascer da melhor forma

Entrevistas
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Santa Catarina do Fogo está em festa a celebrar o dia do Município e da santa padroeira com várias iniciativas e propostas. Entretanto, há uma localidade, cuja recordação de há três anos atrás não deixa celebrar com o resto do município. Chã das Caldeiras recorda nestes dias a última erupção vulcânica de novembro de 2014. A mais mediática de todas as erupções foi também a mais politizada e que serviu para a campanha de 2016. Passados 3 anos, dois Governos, muitas ajudas nacionais e internacionais, alguns fóruns de desenvolvimentos, muitos projectos de reconstrução, primeiro do Fogo, depois da Chã, na verdade é que o povo mantém-se abandoado à sua sorte. O jornal Terra Nova quis ouvir Danilo Fontes que, através das redes sociais e outros meios tem sido uma voz que não se cala na denúncia contra os poderes que têm feito pouco caso da sorte da Chã das Caldeiras. Danilo fez denúncias durante os Governos local e central do PAICV e continua a fazê-las agora, sempre no mesmo tom, nos Governos local e central do MPD. 

Confira a entrevista que nos concedeu por e-mail:    

 

Como é, hoje, a vida em Chã das caldeiras?

Passado estes três anos de erupção vulcânica, a vida em Chã das Caldeiras, que nunca desistiu desde a primeira hora, vai coxa, amparada pela vontade das pessoas em ultrapassar os problemas, como sempre foi a natureza e a sorte das pessoas que aqui viveram: com luta, labor e amor.

As dificuldades são várias: falta de água, energia e comunicação, mesmo assim melhores do que quando chegaram os primeiros povoadores no século passado. Eles tiveram muitas dificuldades e menos pressões, mas transmitiram esta força e a vontade de ultrapassar os problemas e deixaram este amor pátrio, que agora se expressa neste terceiro reencontro incompreendido pela maioria dos mortais. Neste momento estamos recuperados da dor e do desgosto de há três anos atrás. Estamos firmes na nossa caminhada.

Há ainda famílias a viver noutras localidades, como Mosteiros e Achada Furna. Como sobrevivem?

Sim, há ainda famílias que vivem noutras paragens, como Mosteiros, Achada Furna, Monte Grande, S. Filipe e outras localidades da ilha. Foram empurradas e incentivadas para estas opções, sabe-se lá por que motivos, decerto não pelas melhores razões.

Com rendas sustentadas pelas respetivas autarquias, as cestas básicas suspensas desde dezembro de 2016, e promessas de financiamento de projetos sustentáveis para retomarem suas vidas, deambulam como o resto dos cidadãos sondando algum trabalho temporário e apoiado pelos familiares ou pelas propriedades agrícolas, aqueles que restaram ou se restaram da última erupção, pois há quem ficou sem nenhuma parcela.

Danillon tem sido crítico em relação às autoridades. Qual e o motivo do descontentamento?

  Na verdade sou um dos maiores críticos da atuação das autoridades e o meu descontentamento é tão igual a   todos os Caldeirenses, embora não esteja na lista dos deslocados ou mesmo das vítimas desta erupção. O processo nasceu torto e assim morreu, digo morreu porque ninguém mais acredita neste processo de que nada mais se sabe. Não foi por falta de avisos, pois o meu perfil do facebook não parava de criticar os constantes atropelos das autoridades arbitrárias e surdas ao descontentamento geral. Na verdade parecia haver um complot entre a Comunicação Social e os Governos para que a situação não saísse fora da Ilha nas constantes trapalhadas, e assim modificasse a perceção da opinião pública. Ninguém, mesmo ninguém da Caldeira poderia participar neste processo, nem mesmo nos variadíssimos inquéritos que a terra e as pessoas de Chã das Caldeiras foram submetidos. O bloqueio era total e estratégico, evitando assim a transparência reclamada neste processo.

Na sua opinião o que falhou desde o Governo anterior?

Como já disse este processo nasceu torto e morreu torto. Chã das Caldeiras teve oportunidade única de renascer da melhor forma, uma oportunidade única que poderia ou era espreitada pelos Governos. E mais fácil começar do nada do que um caos que hoje se verifica com todos os transtornos consequentes. Bastava o Governo anterior reter os deslocados nos Campos de Acolhimentos satisfazendo suas necessidades básicas, enquanto se estudava um plano para o território destruído. Mas fizeram o contrário, empurrando os deslocados a buscar desesperadamente soluções para seus problemas que continuamente cresciam. Os que vieram ajudar ficaram mais bem servidos do que a população afetada. E assim criou mais descontentamento que permaneceu até ao dia de hoje. Mas para isso bastava a integração dos locais na procura de soluções em conjunto com as Autoridades competentes. A ilha encontrava-se e até hoje encontra desprovida de um plano de emergência e parece que nenhuma autoridade preocupa com isso. É escandaloso que uma população que vive numa cratera não tenha até hoje um Plano de Emergência onde há pessoas que viveram as três últimas erupções . E foi talvez por isso que o multiplicar dos problemas e agora com a ausência da ordem e do Poder as coisas estarem mais difíceis. A situação mantém sob o efeito multiplicador quando os novos Governos Central e Local, que deveriam mudar o rumo dos acontecimentos, seguiu, por e simplesmente, as medidas atrofiadas do Governo anterior, com o agravante do crescente abandono e falta de Comunicação.

Acha que a População de Chã das Caldeiras foi enganada pelos Políticos? Porque?

Quando acontecimentos desta natureza é politizada da forma que foi, naturalmente as coisas correm mal, mormente numa sociedade bipolarizada e fanática. Todo o esforço feito pelos Governos não surtiu efeito esperado por causa da politização do processo. Imagine personalidades ligadas a gente e a Terra de Chã das Caldeiras não serem convidadas a um fórum porque é afeta a outro partido, ou que a oposição política tenha menos relevância na discussão e resolução de situações como estas! O epicentro destas duas últimas erupções entonteceu precisamente no Centro do Parque Nacional do Fogo, mas o Diretor do Parque Nacional pouco ou nada fez desde a erupção até hoje que possa ser visível para o Parque e sua gente! Mudaram os serviços para São Filipe deixando toda a área afectada desprotegida no caos a merce dos aproveitadores, vindo depois receber um certo bónus neste novo Governo, agora com o Parque numa situação difícil e confusa com um considerável distanciamento das pessoas e das promessas. Portanto, fomos enganados no nosso íntimo. Feliz ou infelizmente, fomos todos enganados, pois o Parque é um Património Nacional e nós somos seus habitantes.

Como é neste momento a relação com a autarquia local? Há dialogo?

Infelizmente as coisas correram muito mal neste sentido. A relação é péssima e não assumida pela autarquia, ou acha que não é interessante, mas até este momento ainda não se instalou o poder autárquico em Chã das Caldeiras, apesar das declarações falaciosas na Comunicação social e o pré-fabricado inaugurado meses atrás e em condições de alojar alguns serviços indispensáveis, inclusive a Delegação Municipal, mas ainda está às moscas, apesar da pressão que se faz no sentido da sua existência. 

Negando o diálogo com a população, diálogo este solicitado numa manifestação pacifica realizada em Outubro de 2016. Permanece um total desinteresse no dialogo e no respeito a população, determina esta crispação que mantem pelo meio um silencio ensurdecedor e preocupante. Neste sentido recuámos mais de meio século, quando aqui era território abandonado e autêntico faroeste.

Portanto, nesta relação os intervenientes estão de costas voltadas, e em vez do diálogo, o poder ofereceu-nos depois de um ano e meio, força militar e policial sem, contudo, dar alternativas aceitáveis. Tempos atrás o Governo fez uma declaração de guerra, propondo o exército e a Polícia na reposição da ordem.

Danillon participou numa comitiva que visitou Lanzarote-Canarias. O que significou esta visita?

Pois é, participei nesta comitiva com mais dois representantes da sociedade civil, mas sem, contudo, saber os critérios que ditaram estas escolhas. Os objetivos dessa viagem são conhecidos, pois na altura foram amplamente divulgados na Comunicação Social e nas redes sociais. Canárias, como nós, faz parte da Macaronésia, são ilhas vulcânicas e, na verdade, Lanzarote é uma ilha com grandes semelhanças com a nossa, e o objetivo era “beber da sua experiência e transpô-la para a nossa, adaptando aquilo que fosse necessário à nossa realidade. Tive oportunidade de, na minha pagina do facebook, satisfazer os meus seguidores nas mais variadas questões que me fizeram.

Eu já previa que seria uma viagem turística, se os objetivos não fossem cumpridos, assim como mostra hoje a realidade de Chã das Caldeiras.

Na verdade devíamos ver não só as semelhanças, mas mas também as diferenças. Falhámos quando não considerámos as diferenças essenciais entre estes dois territórios.

Vou citar duas diferenças básicas que nos limitam nesta transposição de experiências, e esquecidas pela Comitiva:

-Canárias pertence à Comunidade Europeia, e portanto tem um suporte económico que nós não temos. Tem a Educação e o Desenvolvimento que não temos.

-A ilha já tem mais de duzentos anos sem uma erupção. 

Estas duas diferenças fundamentais limitam, de certo modo, qualquer tentativa do “copy paste” uma atitude muito notada nos cabo-verdianos. Depois da nossa vinda de Canárias, nunca mais esta equipa encontrou-se para trabalhar ou delinear algo, nem mesmo um relatório desta missão governamental, que eu saiba. Assim o dinheiro público foi gasto e continua estas peripécias sem qualquer cavaco ou transparência que se exige.

Nota: Esta visita, com representantes da Sociedade Civil da Caldeira, ocorreu dois meses depois da expulsão de Miguel Montrond, único representante da População de Chã das Caldeiras na Comissão Interministerial para a Reconstrução de Chã das Caldeiras. Hoje ninguém sabe como ficou esta comissão e por onde anda.

Para si qual e a principal urgência das gente a Chã das Caldeiras?

Há sempre uma tentação de isolar Chã das Caldeiras da sua gente o que nos leva sempre a cálculos errados.

Pois bem, se as pessoas deveriam ser os primeiros, diria que Chã das Caldeiras precisa com muita urgência de água, principalmente neste ano de seca em que choveu pouco e a nossa única nascente não se reabasteceu convenientemente. Mas como se as pessoas daqui tem tanto para fazer e foram abandonados pelo poder local e pelo Governo? A água é uma necessidade básica e se os governos não tem uma solução aceitável, manda a sobrevivência que as pessoas façam alguma coisa. A pressão a que esta sobrevivência leva as pessoas, os moradores, faz com que o espaço Chã das Caldeiras também necessitar de uma certa urgência da ordem e o poder perto das pessoas, não para reprimir mas para ajudar a reconstruir com sustentabilidade. E para isso os responsáveis tem de descer do pedestal da arrogância. Qualquer ação benéfica para Chã das Caldeiras agora tem que passar para a resolução dos problemas básicos dos moradores.

No principio do ano letivo houve algum ruído, esta agora tudo ultrapassado?

É verdade houve muito ruído e com alguma razão, pois é o segundo ano letivo que o Governo e a Autarquia tentam passar sobre o direito das nossas crianças. Todas as crianças sem exceção tem direito a educação e as nossas estavam a ser discriminadas e a angústia tomou conta dos pais e das pessoas sensatas e assim como pudemos fizemos pressão para que fizessem alguma coisa. Conseguiu-se que o Jardim infantil e os quatros anos do básico ficassem aqui e esperamos que no próximo ano a escola básica se efective aqui. As aulas do básico funcionam numa das poucas casas que restaram da erupção 2014 e o Jardim infantil num pátio recuperado de uma casa semi-consumida. Eu sou professor, com o curso do Instituto Pedagógico da Praia, mas não posso trabalhar por razões políticas e ser um ativista nesta causa de Chã das Caldeiras que abracei desde a primeira hora. Embora oferecesse como voluntário numa altura que se queixavam de não ter dinheiro para contratar novos professores, mas posteriormente trouxeram-nos da ilha do Sal, e da ilha de Santiago. Agora tudo está resolvido com trocas de professores. Mas mesmo assim são pessoas que vieram de outras localidades, um mal menor. Esperemos que no próximo ano letivo eles tenham também um lugar condigno para estudar e lecionar.

Quer acrescentar mais alguma coisa?

Olha gostaria de agradecer ao Terra Nova, o primeiro que me entrevistou desde a erupção e de ter preocupado em dar elementos para uma opinião publica esclarecida e sem dúvidas, e aproveitar este espaço para apelar ao Governo que recue nas suas medidas militares e de força e dialogue com a população que tanto quer a paz e as coisas no caminho certo. Apelar à Edilidade que assuma suas responsabilidades com a população e não chame a si a Força para a violência, pois quem não tem medo do Vulcão e ama sua terra não poderá ter medo dos homens só porque usam armas de fogo. Pessoalmente agradeço, Chã das Caldeiras agradece também.