14
Sex, Dez

"O Papa Francisco deixa a confusão interna da Igreja muito mais à vista"

Entrevistas
Tipografia

“Não é difícil reactivar o ADN cristão das sociedades”, diz Russell Reno, editor da revista "First Things". Em entrevista, fala das causas fracturantes nos EUA e faz um balanço misto do mandato de Trump e do pontificado de Francisco.

A revista "First Things" foi fundada em 1990 e rapidamente tornou-se uma referência no meio intelectual e religioso nos Estados Unidos, nomeadamente na discussão sobre religião, política e sociedade.

Russell Reno ocupou-se da edição da revista em 2011, sete anos depois de ter sido recebido na Igreja Católica, após uma vida inteira na Igreja Episcopal, ramo americano da Comunhão Anglicana.

Reno, que foi dos poucos intelectuais católicos a apoiar abertamente Donald Trump nas eleições americanas, é uma das principais vozes do conservadorismo religioso e político nos EUA.

De passagem por Lisboa, onde deu uma conferência na Universidade Nova, falou com a Renascença sobre vários assuntos da vida social e política americana e mundial, incluindo o actual debate sobre os transgénero, o casamento entre pessoas do mesmo sexo e o papel da identidade cristã na sociedade americana.

 

Recentemente publicou um livro chamado “Ressuscitando a ideia de uma Sociedade Cristã”. Ainda é possível, na América, por exemplo?

Penso que já temos uma sociedade cristã na América, e penso que vocês têm sociedades cristãs na Europa. Os romanos antigos teriam deixado os migrantes afogarem-se no Mediterrâneo, mas a Europa contemporânea está a braços com desafios muito difíceis neste campo, do ponto de vista social e político, precisamente porque o cristianismo permanece no ADN. A questão é: Como é que reactivamos esse ADN, de forma a renovar as nossas sociedades e torna-las mais capazes de confrontar os desafios actuais? No meu livro não digo que devemos regressar à forma como as coisas eram há duas, três ou quatro gerações, mas sim que uma minoria cristã energética pode revitalizar a influência cristã e ser a levedura da sociedade contemporânea. Não é preciso muito, na verdade, para reactivar esse ADN.

Apesar de fazer parte do ADN, vemos muitos secularistas a esforçarem-se para o negar…

Dizem isso porque querem um futuro diferente. No fundo é um elogio ao poder de uma ideia quando ela é fortemente repudiada. Ignoramos as coias que achamos que não terão influência sobre o futuro, porque não temos de nos preocupar com elas. Ninguém está preocupado com o feudalismo, porque não é uma possibilidade real, mas os progressistas seculares denunciam a possibilidade de uma sociedade cristã porque é uma possibilidade real.

Sucedem-se os debates sobre questões fracturantes nos Estados Unidos, qual a origem desta clivagem social?

Todos estes debates estão ligados, de uma maneira ou de outra, à revolução sexual. Tudo se resume a saber se os nossos corpos têm valor moral. A questão dos transgénero, ou o suicídio medicamente assistido, são ambos a negação de que os nossos corpos têm valor moral e que esse valor é-lhes dado através das escolhas que fazemos, ou da nossa vontade. Isso é fundamentalmente incompatível com a doutrina cristã da criação.

Claro que podemos abordar estas diferenças com um espírito de caridade, e certamente que o devemos fazer calmamente, sem linguagem violenta, mas não se podem negar as diferenças sobre aquela que é provavelmente uma das questões mais fundamentais sobre o que significa ser humano.

O casamento entre pessoas do mesmo sexo foi legalizado nos EUA através de uma decisão do Supremo Tribunal. É uma guerra perdida?

Neste momento não há um partido ou uma figura que esteja a fazer campanha para reverter essa decisão. É um assunto diferente da causa pró-vida, porque é muito mais difícil explicar o que está em causa. Nas questões do aborto ou do suicídio assistido o mal é claro, mas qual é o mal do casamento entre pessoas do mesmo sexo? É muito mais difícil resumir tudo a um “soundbite”.

Penso que o mais importante agora para os conservadores nos Estados Unidos é tentar perceber como revigorar a cultura do casamento, porque na América ela está a passar por dificuldades, sobretudo entre pessoas no fundo da pirâmide social, que se casam com cada vez menos frequência. Estas são pessoas cujas vidas estão já em risco e por isso têm mais a beneficiar da segurança e estabilidade que o casamento fornece. Paradoxalmente os mais bem educados e ricos têm-se consolidado à volta de uma cultura forte de casamento, por isso temos uma sociedade desigual na América, não só do ponto de vista económico como cultural.

E agora o debate é à volta dos transgénero… Quais são as suas expectativas?

Penso que este é um passo maior que as pernas por parte da turma da libertação sexual. Duvido que dê muitos votos nas eleições para os progressistas, ao contrário do que se passou com o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Os americanos são muto tolerantes, e não querem dizer aos outros o que devem fazer, mas também não querem que lhes digam que os seus filhos têm de usar as mesmas casas de banho que pessoas do sexo oposto. Já conversei com muitos amigos liberais e progressistas que revelam pouca paciência para este assunto.

Muitos católicos opuseram-se ao Trump desde o início, mas você não só não o fez como o apoiou publicamente. Como é que avalia a Presidência até agora?

É uma mistura. Muitos dos meus amigos foram contra ele porque tinham preocupações legítimas com a sua capacidade de governar e, de certa forma, a Administração tem sido bastante caótica.

Mas muitos, como eu, que pensavam que estávamos numa trajectória insustentável e que era preciso um caminho novo, consideram que a eleição de Trump instalou novamente a incerteza sobre o futuro político e cultural da América. No campo da liberdade religiosa, os resultados podem ser bastante bons e há boas razões para esperar avanços no campo pró-vida.

É cedo para tirar conclusões sobre esta Administração. Espero que Trump consiga derrubar um compromisso exagerado do Partido Republicano para com o mercado livre, para podermos ter um conservadorismo na América que defende o Governo limitado e espaço para a sociedade civil, mas que não faz da ideologia do mercado livre um ídolo.

A "First Things" tem publicado alguns artigos críticos do Papa Francisco. Que avaliação faz destes quatro anos de pontificado?

Penso que este pontificado é um caso de estudo em paradoxos. O Papa Francisco é um homem que se guia mais por uma forte intuição do que pelo pensamento sistemático, e isso permite-lhe dizer coisas contraditórias. Tanto pode denunciar fortemente a forma como a cultura ocidental está a minar as diferenças entre homens e mulheres como de seguida pode pedir uma abordagem pastoral às questões difíceis, rejeitando o legalismo. E então ficamos a pensar, então como é que reagimos ao debate sobre as pessoas transgénero? Não nos dá indicações claras.

Mas para ser justo, acredito que toda a confusão que vem do Vaticano reflecte divisões na Igreja que foram mascarados pela impressionante liderança intelectual e espiritual de João Paulo II e Bento XVI.

Mas debaixo da sua liderança estava uma Igreja que desde o II Concílio Vaticano não tinha atingido clareza sobre a sua relação com o mundo contemporâneo. Estamos perante um Papa com muitos dons, mas que não tem a mesma personalidade intelectualmente dominadora que tinham Wojtyla e Ratzinger, o que deixa a confusão interna da Igreja muito mais à vista.

Não estou contente com este pontificado, com as confusões que dele brotam, e pode haver muitas razões para criticar o Papa Francisco mas, no fim de contas, tendo a pensar que aquilo que me desagrada tem mais a ver com a Igreja mais alargada e eu próprio participo em muitas dessas confusões.

Penso, contudo, que com este pontificado chegamos ao fim da geração do Concílio Vaticano II. Ele será o último Papa para quem a experiência definitiva foi a de viver as transformações da Igreja, vividas como uma nova possibilidade, uma nova vitalidade, uma nova abertura. A próxima geração de Papas terá atingido a maioridade no meio de toda a confusão.

Se fosse hoje, teria tomado a decisão que tomou em 2004 de se tornar católico?

Quando eu me tornei católico estava há 14 anos a dar aulas numa Universidade Jesuíta. Eu sabia perfeitamente em que é que me estava a meter. Não tinha qualquer ilusão sobre a Igreja Católica. Foi em plena crise de abusos sexuais, estava perfeitamente consciente da possibilidade de haver padres sem fé, bispos criminalmente negligentes. Na verdade eu não escolhi a Igreja Católica, eu perdi confiança na forma de protestantismo que estava a praticar e sentindo-me abandonado coloquei-me para adopção pela Igreja Católica. Não foram as suas qualidades particulares que me atraíram, salvo o facto de ela ser a principal substância do Cristianismo no mundo ocidental. E se aspiramos a ser intelectuais cristãos no Ocidente no século XXI, temos de tomar posição dentro da Igreja Católica, apesar de todos os seus fracassos, de todas as suas falhas. Curiosamente, muitos dos meus amigos protestantes também vêem a Igreja Católica como a sua âncora. De uma certa distância, é certo, mas vêem a Igreja Católica como o lastro do navio que é a Igreja, à medida que procura navegar estes mares difíceis da era moderna em que estamos a viver.