07
Sex, Ago

Os tempos do amor

Sociedade
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Hoje,  14 de fevereiro, dia de São Valentim, celebra-se o dia dos namorados. Uma celebração que vem ganhando cada vez mais projecção e, como as outras festas e ocorrências, também vem cedendo ao consumismo. Mas, apesar do sensualismo e do consumismo, muitos casais de namorados ou de esposos aproveitam a data para lançar um olhar crítico sobre o percurso de namoro e da partilha de vida feita até então e projectar o futuro radicado sobre aquilo que consideram o amor. 

O Terra Nova nesta reportagem quis entender mais sobre o mundo dos namorados e como são percebidas estas mudanças.

 

Muitos tempos, muitos amores!

A psicóloga Sílvia Delgado, professora na Escola Secundária Amor de Deus, na Praia, pensa que hoje há um problema ligado ao facto de que “muitos ficam no 'pré namoro’, evitando o compromisso. Porque o relacionamento a dois é exigente e gera muitas inseguranças”.

Para o Frei Claudino Vieira, capuchinho, em parte, talvez, a nossa sociedade tenha despachado, finalmente, a gestão dos afectos daquelas estruturas tradicionais rígidas e formais que impediam a cada um de gerir pessoalmente a construção da própria vida afectiva. “É inegável reconhecer que a libertação de alguns esquemas tradicionais favoreceu a descoberta de novos significados do amor humano que por muito tempo ficaram na penumbra, oferecendo a possibilidade de os viver com maior consciência e alegria”. 

Frei Claudino defende que “o tempo de namoro deve levar-nos a compreender que nós somos feitos um para o outro e, uma vez chegada a tal consciência, é altura de começar a dar os passos para o sacramento do matrimónio e a construção do lar. O Matrimónio é um sacramento de serviço, de entrega um ao outro. É também um sacramento que dignifica o homem.” Mas o matrimónio implica compromissos estáveis e permanentes e, segundo a psicóloga Sílvia, “muitos preferem o isolamento ao compromisso”. Por isso ela defende que “precisamos trabalhar o relacionamento intrapessoal e o interpessoal. Há muitos bens materiais, mas há um vazio a nível emocional que atormenta e que escondemos”. 

Tudo passageiro…

Paulo, 22 anos e estudante universitário, namora há um ano com Patrícia de 21 e também ela universitária, considera que antes de qualquer compromisso é preciso saber com clareza se eles são feitos um para o outro: “Hoje vejo muitos casais que não se amam e se traem e ficam juntos em nome de outros valores e não em nome do amor que parecia eterno no momento do casamento”.  

Perguntado se tudo isto não revela uma perigosa desconfiança na própria capacidade de comprometer-se totalmente numa história e, ao mesmo tempo, uma superficial renúncia a qualquer lei de graduação no envolvimento amoroso e na saturação dos desejos afectivos, ele responde que “até pode ser, mas as coisas mudaram muito e hoje o mundo é muito mais complexo”. 

Para Sílvia Delgado “alguns adolescentes e não só, estão acostumados a ter tudo o que querem. Mas mesmo assim não existe satisfação e precisam de experimentar novas coisas, de consumir de uma forma desenfreada para se sentirem felizes. Mas é tudo tão passageiro! Quantas vezes se compram sapatos, vestidos ou outros bens que depois servem apenas para ficar no armário e não são usados? Parece que tudo é facilmente substituído. Basta só ver as tecnologias que deslumbram os jovens mas que têm um prazo curto de duração. E o que antes trouxe muita alegria, porque era o topo de gama, hoje é algo ultrapassado e que me envergonho de ter. Tudo isso num curto espaço de tempo. Isso está acontecendo em relação às pessoas também, infelizmente. Os relacionamentos duram enquanto trazem só alegria. Diante da primeira complicação é melhor passar para outra”. 

Um tempo só para tudo

O Frei Claudino considera que “atrás da aparente multiplicidade, os tempos do amor se reduzem num único e indistinto período no qual não existem mais escansão e etapas, mas apenas um concentrado de experiências, emoções e situações que muitas vezes não ajudam os namorados a conhecer-se e a decidir-se”. Por conseguinte, o enfraquecimento dos laços afectivos que um dia serviram de enlace ao casal.

Paulo acredita “nos valores do amor tal como a fidelidade, a eternidade e a castidade” mas ao mesmo tempo reconhece que “hoje é difícil viver estes valores porque a sociedade nos pede que sejamos rápidos e concorrentes em tudo, inclusive no amor. Não podemos esperar muito porque podemos perder tudo”. 

“Namorar é benéfico já que nos ajuda a desenvolver valores como o altruísmo, o companheirismo, o respeito, a cumplicidade e a solidariedade, que são fundamentais para o carácter da pessoa. Quando se namora de uma forma responsável e séria desenvolvemos a empatia que é importante para a vida na sociedade: o conseguir colocar-se no lugar do outro” diz a psicóloga Sílvia Delgado.

Até uns anos atrás o percurso do amor entre um homem e uma mulher se desenvolvia segundo uma escansão de tempos bastante consolidada. Existia o momento da paixão e dos primeiros sinais seguidos dos primeiros encontros. Depois começava-se a namorar por alguns anos e, se as coisas corressem bem, chegava-se ao casamento e enfim morava-se juntos para sempre, se tudo desse certo. O casamento ou o ir morar juntos marcava o confim, simbólico e prático, entre dois tempos fundamentais da experiência amorosa: o tempo do conhecimento recíproco (namoro) e o tempo do compromisso para a formação de um novo núcleo familiar (matrimónio ou morar juntos).

Actualmente as coisas mudaram muito. Este itinerário clássico descombinou-se e, quiçá, caindo no esquecimento dos nossos subsequentes, dando origem a uma multiplicidade de novos tempos nos quais os jovens fazem a experiência do dizer-se e do dar-se o amor.

 

Porém, mais do que livres e desinibidos, hoje os jovens são muito mais frágeis diante da possibilidade de amar-se, assustados pela ideia de não ir de acordo, de não saber atingir um fantástico entendimento sexual, de ter carácter incompatível, de poder um dia divorciar-se, de não estar à altura de se tornarem pais, bem como não há um ideal voltado para as outras áreas que envolvem o amor e o (na)morar.

 

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Texto publicado pelo Jornal Terra Nova em Fevereiro de 2014