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Qui, Jul

De Tiririca ao presidente eleito de Ucrânia: os comediantes na política

Sociedade
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Comediante de 41 anos vence a eleição presidencial prometendo mudanças, mas sem um roteiro claro para a recuperação do país. 

 

A eleição do comediante Volodymyr Zelenskiy para presidente da Ucrânia, após as eleições deste domingo (21), com 73% dos votos, marcou a história do país: nunca antes um político tinha obtido votação tão expressiva para o cargo. 

Além do mais votado, Zelenskiy será também, aos 41 anos, o político mais jovem a ocupar a presidência da Ucrânia, cargo no qual deve permanecer pelos próximos cinco anos de mandato, com direito a tentar a reeleição em 2024. 

Caberá a esse jovem e inexperiente presidente equilibrar a Ucrânia na fronteira geopolítica entre a Europa e a Rússia – potência com a qual os ucranianos permanecem em tensão militar desde a perda de parte de seu território, a Crimeia, para as tropas de Vladimir Putin, em 2014. 

A mistura entre ator e personagem 

Zelenskiy entrou para a vida político-eleitoral em 31 de dezembro de 2018, quando anunciou que disputaria a presidência pelo partido Servo do Povo, fundado menos de um ano antes. 

O nome do partido é o mesmo nome da série de televisão na qual Zelenskiy interpretava Vasyl Holoborodko, um simples e honesto professor de história que se torna presidente e passa a combater os velhos políticos corruptos da Ucrânia. 

Durante a campanha eleitoral, Zelenskiy não se esforçou para separar a identidade do político real e do personagem fictício. Ele participou de apenas um debate eleitoral com seu oponente no segundo turno e priorizou o contato direto com seus eleitores por meio das próprias redes sociais.

A entrada de um comediante para a vida política não é exclusividade da Ucrânia. Ela acompanha uma onda de políticos neófitos que fazem da inexperiência um trunfo. 

Em janeiro de 2016, a Guatemala também elegeu um comediante para presidente. Jimmy Morales – cujo personagem, seria próximo à figura do brasileiro Tiririca – derrotou políticos tradicionais e assumiu a presidência. 

Na Itália, o M5S (sigla italiana para Movimento Cinco Estrelas), fundado em outubro de 2009 pelo comediante Beppe Grillo, venceu as eleições parlamentares de março de 2018 e passou a formar o atual governo junto com a Liga, de extrema direita. 

Os três casos têm, no entanto, nuances importantes. A principal delas é que, na Guatemala e na Itália, os comediantes investiram num discurso populista de mão dura, com ênfase nas questões de segurança, enquanto na Ucrânia – único dos três países recentemente marcado por uma guerra, com a Rússia, que deixou 13 mil mortos – Zelenskiy esforçou-se por manter a imagem leve e o discurso vago. 

As nuances do novo populismo 

Alguns jornais europeus definiriam Zelenskiy como expoente de um “populismo simpático”, que não explora divisões, mas ressalta aspectos comuns da identidade ucraniana. 

O comediante recusou-se a fazer campanha com base no medo, e suas referências foram mais ao presidente francês, Emmanuel Macron, do que ao presidente americano, Donald Trump. 

A estratégia de não assumir um discurso forte e de se proteger atrás do personagem da série também teve um lado negativo para Zelenskiy. 

Ele é acusado por adversários de agir como marionete do magnata Ihor Kolomoïski, acionista de oito emissoras de TV ucranianas, incluindo 70% das ações do 1+1 Media Group, cujo canal, 1+1, presente em 95% dos lares nacionais, transmitiu a série de Zelenskiy. 

Por ser um novato completo na cena política, por ter feito uma campanha ideologicamente vaga e por não ter participado de muitos debates ao longo da disputa, é difícil precisar onde Zelenskiy situa-se ideologicamente. Mesmo assim, ele deixou pistas de que pretende seguir uma cartilha económica liberal, com promessas de privatizar empresas públicas, manter a independência do Banco Central e seguir o roteiro de recuperação econômica proposto pelo FMI (Fundo Monetário Internacional), que mantém programas de cooperação com a Ucrânia. 

A tentativa de deixar o passado soviético

Após a independência da Ucrânia, nos anos 1990, os políticos pró-Rússia foram perdendo paulatinamente o controle sobre a porção ocidental do país e, em seguida, sobre sua porção central. Nessas regiões, os votos eram em sua maioria para candidatos pró-Europa, enquanto, do lado leste, o voto era mais ligado às vertentes simpáticas à conexão com Moscovo. 

Na eleição deste domingo (21), em que nenhum dos dois candidatos representava a vertente pró-Moscovo, Zelenskiy venceu em 26 das 27 regiões. 

A renovação da renovação 

O atual presidente, Petro Porochenko, tentava a reeleição, contra Zelenskiy, mas não passou dos 24,5% dos votos na segunda volta. 

Porochenko tinha assumido a Ucrânia em 2014 como uma figura de contraposição a seu antecessor, Viktor Yanukovych, que era visto como abertamente pró-Rússia. Assim como Porochenko foi visto como uma renovação a Yanukovych, agora Zelenskiy é visto como renovação a Porochenko – o que revela o desejo ucraniano de virar a página de Guerra Fria a todo custo, e, com isso, aproximar-se cada vez mais da Europa. Agora, “uma parte da população [que aposta por Zelenskiy] espera nada menos que um milagre, enquanto a outra [que não votou por ele e que desconfia dele] não espera nada além de uma catástrofe”, resumiu Benoît Vitkine, correspondente do jornal francês Le Monde para o Leste Europeu, que esteve a cobrir as eleições em Kiev, capital da Ucrânia. O ambiente de tudo ou nada descrito pelo analista do Le Monde também foi realçado por Porochenko, que, ao admitir a derrota, fez troça com a carreira de comediante de Zelenskiy, dizendo que os problemas militares que o país ainda enfrenta são coisa séria. 

A economia em dificuldade 

Zelenskiy apresenta uma agenda económica liberal, com referência a privatizações, anistia fiscal a grandes devedores e fortalecimento das agências anti-corrupção, como forma de superar o passado marcado tanto pela herança de uma burocracia soviética quanto pelos estragos de um capitalismo sem freios que entrou no Leste Europeu a partir dos anos 1990, ignorando regulações fiscais e ambientais. Dos 44 milhões de habitantes da Ucrânia – de acordo com dados do censo mais recente, de 2001 – entre 3 e 6 milhões de trabalhadores deixaram definitivamente o país desde 2014 ou fazem dele uma espécie de país dormitório, trabalhando em países vizinhos, principalmente na Polônia. Diferentemente do que ocorre nos países da Europa Central, na Ucrânia a preocupação é maior com quem sai do que com quem entra para trabalhar dentro de suas fronteiras, pois o país sofre com a evasão de jovens e de mão de obra qualificada. 

Hoje, 12% do PIB (Produto Interno Bruto) da Ucrânia vem de envios feito por cidadãos ucranianos no exterior. 

As incógnitas para o futuro 

O sistema político-eleitoral ucraniano mistura elementos do presidencialismo e do parlamentarismo. Por isso, tão importante quanto o resultado de domingo (21) é o que ocorrerá no dia 27 de outubro, quando serão escolhidos os 450 membros da próxima legislatura. Na Ucrânia, o presidente nomeia seu primeiro-ministro, que deve ter a nomeação confirmada pelo Parlamento. O presidente nomeia sozinho também os ministro da Defesa e das Relações Exteriores, além do procurador-geral e dos comandantes das forças de segurança. O restante das nomeações do gabinete são feitas em sintonia com o Parlamento, que aponta os nomes para que o presidente e o primeiro-ministro confirmem ou rejeitem em seguida.