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Sab, Ago

Alzheimer é mais comum entre mulheres dizem novos estudos

Saúde
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Pesquisas apresentadas durante conferência internacional em julho de 2019 tratam das diferenças que aumentam o risco e a progressão da doença entre elas.

Mais frequente entre pessoas acima dos 60 anos de idade, a doença de Alzheimer afeta mais mulheres do que homens. Além do risco maior de que elas a desenvolvam a condição, essa doença – que causa perda de funções cognitivas, como memória, atenção e linguagem – também parece avançar mais rapidamente em pessoas do sexo feminino.

Segundo a edição de 2017 do estudo Global Burden Disease, entre os casos de Alzheimer no Brasil, 59,2% estão presentes em mulheres e 40,8% em homens. Nos Estados Unidos 63,1% dos casos são verificados em mulheres e 36,9% em homens.

Dada a diferença de incidência do Alzheimer, pesquisas recentes têm se debruçado sobre as diferenças sexuais e de gênero que tornam a doença mais presente entre mulheres. Os fatores envolvidos são de ordem biológica, genética e social.

Até alguns anos atrás, pesquisadores acreditavam que mais mulheres viviam com Alzheimer pelo fato de terem expectativa de vida mais alta com relação aos homens, mas essa hipótese não explica totalmente o fenómeno.

Estudos apresentados na Conferência Internacional da Associação de Alzheimer de 2019, realizada entre 14 e 18 de julho em Los Angeles, nos Estados Unidos, identificam elementos ligados ao risco e à progressão da doença de acordo com o sexo. O Jornal Terra Nova lista e explica abaixo estas novas descobertas.

A proteína tau

O acúmulo anormal da proteína tau no cérebro é uma das causas associadas à perda de capacidades cognitivas do Alzheimer.

Pesquisadores da Vanderbilt University Medical Center, nos Estados Unidos, identificaram diferenças entre os sexos na forma como essa substância tóxica se espalha pelo cérebro.

Ela toma conta do tecido cerebral como uma infecção, passando de neurônio a neurônio e criando emaranhados proteicos que provocam a morte de células cerebrais. Pesquisas anteriores mostram que há diferenças na forma como as regiões do cérebro de mulheres e homens estão conectadas, o que pode resultar em um padrão distinto na disseminação da proteína pelo cérebro de cada sexo. 

O estudo contou com indivíduos saudáveis (178 mulheres e 123 homens) e pessoas com Comprometimento Cognitivo Leve, conjunto de sintomas que pode evoluir para a demência (60 mulheres e 101 homens), registradas na base de dados da Iniciativa de Neuroimagem da Doença de Alzheimer.

Por meio de tomografias por emissão de pósitrons, os pesquisadores analisaram a arquitetura das redes de proteína tau no cérebro dos indivíduos para entender os caminhos de propagação da substância e as diferenças entre homens e mulheres.

A rede de proteína tau no cérebro de mulheres com Comprometimento Cognitivo Leve tinham aspecto muito distinto com relação aos outros três grupos. Nelas, a densidade dessa rede era a maior e presente em todo o cérebro.

Nas participantes saudáveis do estudo, os pesquisadores descobriram regiões do cérebro que servem como polos e se conectam com diferentes áreas.

Eles acreditam que essa configuração possa favorecer uma propagação e acúmulo mais rápidos da proteína tau por todo o cérebro nas mulheres, aumentando o risco de desenvolver Alzheimer.

O trabalho remunerado

A participação menor, no passado, das mulheres na força de trabalho também tem ligação com a taxa de incidência do Alzheimer entre elas.

Pesquisadores da Universidade da Califórnia em Los Angeles e em São Francisco e da Boston College, todas nos Estados Unidos, verificaram que mulheres que haviam exercido um trabalho remunerado entre os 16 e os 50 anos apresentaram declínio de memória mais lento em relação às que não haviam.

Os cientistas estudaram mais de 6 mil mulheres nascidas entre 1935 e 1956, cadastradas no Health and Retirement Study, um estudo federal que observa a longo prazo o envelhecimento nos Estados Unidos.

A pesquisa fornece informações das participantes sobre emprego assalariado, estado civil e maternidade. Sua memória foi medida por meio de testes padronizados a cada dois anos, começando a partir dos 50.

A performance média de memória entre os 60 e 70 anos de idade decaiu 61% mais rápido entre mulheres casadas com filhos que nunca haviam tido um trabalho assalariado, e 83% mais rápido entre mulheres que viveram um período prolongado como mães solo sem trabalho remunerado.

Os pesquisadores acreditam que a participação na força de trabalho está associada a níveis mais altos de estimulação cognitiva, o que previne o Alzheimer.

Para as mulheres, há também os benefícios sociais e financeiros do exercício de um trabalho pago. Ao site da rádio pública NPR, Elizabeth Rose Mayeda, professora da Universidade da Califórnia em Los Angeles, explica que a independência financeira é importante para prevenir a doença porque a pobreza é um fator de risco para o declínio mental na idade avançada.

Os genes

A genética é outro aspecto que contribui para as diferenças no risco e na progressão do Alzheimer em mulheres e homens.

Pesquisadores da Universidade de Miami identificaram genes e variantes genéticas ligados especificamente ao desenvolvimento de Alzheimer em mulheres e em homens.

Em 11 genes, muitos dos quais podem ter funções relevantes no desenvolvimento do Alzheimer, foram encontradas ligações específicas de cada sexo com o risco da doença.

No que diz respeito aos genes encontrados apenas nos homens, estão relacionados ao risco de Alzheimer só aqueles envolvidos na endocitose. Dos genes exclusivamente presentes nas mulheres, estão relacionados ao risco de Alzheimer aqueles que têm papel central na imunidade.

O metabolismo cerebral

Testes orais de memória normalmente falham em identificar o Comprometimento Cognitivo Leve em mulheres, mesmo quando elas já apresentam um estágio inicial da doença de Alzheimer. Em geral, o desempenho delas é melhor do que o dos homens nesse tipo de teste, quando se compara pessoas de ambos os sexos com grau similar (e ainda pequeno) de alterações cerebrais. Isso faz com que, muitas vezes, o Alzheimer só seja detectado nas mulheres em estágios mais avançados da doença.

Essa diferença de desempenho está ligada à capacidade do cérebro de mulheres e homens de metabolizar a glicose em diferentes estágios do Alzheimer.

Num um estudo coordenado por Erin Sundermann, pesquisador da escola de medicina de San Diego da Universidade da Califórnia, foram analisados exames cerebrais de mais de mil adultos para medir os níveis de placas amiloides, um dos indicativos da doença, e também a capacidade dos cérebros dos participantes de metabolizar a glicose nas regiões afetadas pelo Alzheimer. A memória dos participantes também foi medida por testes orais.

Sendo a glicose a fonte primária de energia para o cérebro, a dificuldade de metabolizá-la pode indicar uma disfunção cerebral.

Mulheres têm um metabolismo cerebral de glicose mais eficiente, o que faz com que, no início da doença, sejam capazes de compensar a perda de capacidade cognitiva.

Essa vantagem deixa de existir conforme a doença avança, e ainda faz com que o início do Alzheimer seja menos detectável nelas, reduzindo a possibilidade de intervenção médica no estágio inicial.

TN (com informações do Nexo)

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