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Seg, Jan

Todo nível de consumo de álcool faz mal, diz estudo

Saúde
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Segundo dados da INE, publicados em 2017, a população cabo-verdiana consome cerca de 20,2 litros de álcool por pessoa. 

 

A ideia de que o consumo de álcool pode ter efeitos negativos para a saúde está bem difundida. Os problemas podem ocorrer de várias formas: com o tempo, o consumo pode causar danos a órgãos, e grandes bebedeiras podem levar a envenenamento ou a comportamento de risco, como conduzir bêbado ou agir violentamente contra outros ou contra si mesmo. 

Há, no entanto, alguns estudos que apontam indícios de que o consumo moderado de álcool em certas circunstâncias poderia trazer benefícios, alimentando a máxima popular de que “uma taça de vinho por dia faz bem à saúde”. 

Um ambicioso trabalho publicado em agosto de 2018 na revista médica The Lancet buscou colocar essa ideia à prova e chegar a uma conclusão sólida sobre se há algum nível de consumo de álcool benéfico, ou ao menos não danoso. 

Para tanto, os pesquisadores analisaram 592 estudos já realizados anteriormente sobre o tema ao redor do mundo que, juntos, acompanharam 28 milhões de indivíduos em 195 países num período que vai de 1990 a 2016. 

A conclusão foi de que não há um nível de consumo de álcool benéfico, ou mesmo seguro:  

“Nossos resultados mostram que o nível mais seguro de consumo de álcool é nenhum. Esse nível está em conflito com a maioria das diretrizes de saúde, que apontam benefícios para a saúde associados ao consumo de até duas doses por dia” 

Há poucos casos em que o consumo poderia servir como proteção para determinadas populações a alguma doença específica, e os riscos associados a outros problemas fazem com que o hábito não compense. 

Por exemplo: há sinais de que níveis moderados de consumo podem servir como proteção contra a diabetes entre mulheres, mas ao custo de aumentar os riscos de câncer, lesões e infecção por doenças transmissíveis. 

O trabalho também investigou o nível de consumo de álcool entre a população de cada um dos países. 

A pesquisa faz parte do “Global Burden of Diseases Study”, um projeto da Universidade de Washington, nos Estados Unidos, que tem como objetivo sistematizar informações confiáveis sobre causas de doenças de impacto global. 

Veja abaixo detalhes sobre as conclusões a que o estudo chegou.

OS RISCOS ASSOCIADOS AO ÁLCOOL 

2,8 milhões de pessoas tiveram mortes ligadas ao consumo de álcool no mundo em 2016 

Isso equivale a 2,2% de todas as mortes de mulheres e 6,8% de todas as mortes de homens. Quando se considera apenas a população de 15 a 49 anos, a proporção foi de 3,8% das mortes de mulheres e 12,2% das mortes de homens. 

Em termos globais, álcool foi o sétimo fator a levar à morte ou invalidez prematura, em comparação com outros hábitos estudados pelo Global Burden of Diseases. Perda de qualidade de vida.

Outro indicador destacado pelos pesquisadores se chama "Daly", sigla em inglês para “anos de vida perdidos ajustados por incapacidade”. Ele mede não só anos de vida perdidos por morte prematura, mas também anos de vida sadia perdidos, nos casos em que a pessoa passa a viver com algum tipo de incapacidade que pode afetar sua independência e qualidade de vida, como demência ou redução de movimentos. 

A pesquisa apontou que 9% de todos os “anos de vida perdidos por incapacidade” da população masculina estão relacionados à bebida. Para mulheres, a proporção é de 2%. 

Em países com IDH (índice de desenvolvimento humano) alto, o principal problema ligado ao álcool foram tipos de câncer. Em países com baixo IDH, os problemas mais comuns são tuberculose, seguida por cirrose e outras doenças crônicas do fígado.

Nível de consumo de álcool por país

Os pesquisadores também estimaram o nível de consumo de álcool em cada país do mundo, tomando como base os estoques do produto em cada país, pesquisas sobre proporção de cada população que bebe e que é abstêmia, e sobre os hábitos de consumo por faixa etária de cada país. 

Nos casos em que as pesquisas reportavam os hábitos relativos a tipos específicos de bebida, como cerveja ou vinho, os pesquisadores converteram as informações em gramas de etanol puro, para padronizá-las. Eles também tomaram o cuidado de estimar o consumo por turistas e descontá-lo do consumo da população de cada país. Estimaram também a quantidade de álcool estocado ilegalmente, a partir de pesquisas disponíveis. Com base nesses dados, concluíram que:

PARCELA DA POPULAÇÃO MUNDIAL QUE BEBE 

32,5% Da população mundial total bebia álcool em 2016. Isso equivale a 2,4 bilhões de pessoas 25% Das mulheres bebiam. Isso equivale a 0,9 bilhão de mulheres que, em média, beberam o equivalente a 0,73 dose diária de álcool etílico 39% Dos homens bebiam. Isso equivale a 1,5 bilhão de homens que, em média, beberam o equivalente a 1,7 dose de álcool etílico

As implicações para as políticas públicas

A pesquisa ressalta que países com um índice de desenvolvimento humano mais alto tendem também a ter populações que bebem mais, em termos de média diária. Isso, afirmam, traz a necessidade de se pensar em políticas públicas. No caso de países com IDH mais baixo, elas devem buscar evitar que o consumo cresça. Países com IDH mais alto devem buscar fazer com que ele baixe.

“Dado que a maior parte dos locais com IDH baixo ou de baixo a médio atualmente têm uma média menor de consumo de álcool do que aqueles com IDH de alto a médio, é crucial que tomadores de decisões e agências governamentais implementem ou mantenham fortes políticas de controle de álcool hoje. Políticas efetivas agora podem levar a benefícios significativos à saúde da população por anos.” 

A própria pesquisa ressalta algumas de suas limitações. Apenas os Estados Unidos têm dados confiáveis sobre danos causados a terceiros ligados ao consumo de álcool e trânsito. E, por haver poucas pesquisas sobre o assunto, o trabalho não abordou o consumo de álcool por menores de 15 anos. Também é possível que as estimativas sobre produção e consumo ilegais adoptadas sejam modestas.

Além disso, os pesquisadores foram incapazes de encontrar dados sólidos a respeito da violência atribuível ao consumo de álcool, que também pode levar a lesões físicas e a mortes. O trabalho ressalta que, por seguir os critérios comparativos adoptados pelo Global Burden of Diseases Study, por isso não analisa o impacto do consumo de álcool sobre doenças importantes, como demência, apesar de haver indícios crescentes de associação com o álcool.

 

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