10
Ter, Dez

Prática musical acelera o desenvolvimento do cérebro em crianças

Educação
Tipografia

Observando um pianista tocar num concerto – convertendo notas musicais em movimentos de seus dedos com tempos precisos no piano – pode ser uma experiência emocional poderosa. 

 

Como pesquisadora da neurociência e pianista, compreendo que refinar uma habilidade não apenas demanda prática, como também requer uma coordenação complexa de diferentes regiões do cérebro. 

Regiões do cérebro – que são responsáveis pela nossa capacidade auditiva, de percepção e de movimentos – se articulam e se engajam em uma extraordinária sinfonia para produzir música. Demandam a coordenação de ambas as mãos e a capacidade de comunicação emocional com outros instrumentistas e ouvintes para produzir um efeito mágico. 

A combinação de tais demandas provavelmente irá influenciar estruturas cerebrais e suas respectivas funções. No nosso laboratório, desejamos entender se a prática musical durante a infância melhora funções cerebrais relacionadas ao processamento de som de forma mais ampla. Tais funções são importantes para o desenvolvimento da linguagem e da habilidade de leitura.

Música treina o cérebro 

Nas últimas duas décadas, diversos pesquisadores têm indicado diferenças no cérebro e no comportamento de músicos comparados com não músicos. A prática musical foi identificada como tendo relação com melhores habilidades em matemática e de linguagem, QIs mais altos e melhor desempenho acadêmico. 

Além disso, diferenças entre músicos e não músicos também foram encontradas em áreas do cérebro relacionadas à audição e ao movimento, entre outras.

No entanto, a interpretação de tais descobertas permanece ainda não completamente esclarecida. Por exemplo, as diferenças identificadas entre adultos músicos e não músicos podem ocorrer devido à prática e treino intensos e por longos períodos ou serem resultado, primeiramente, de fatores biológicos hereditários, como parte da maquiagem genética. Ou ainda, como em muitos aspectos do debate sobre natureza e cultura, as diferenças podem também resultar de contribuições de ambos fatores, ambientais e biológicos. 

Um melhor modo de compreender os efeitos da prática musical no desenvolvimento infantil seria através do estudo de crianças antes de elas iniciarem qualquer prática musical e posteriormente acompanhar tais crianças sistematicamente, para verificar se seus cérebros e comportamentos sofreram alterações em razão da prática e treino musical. 

A pesquisa deveria envolver a inclusão de um grupo para comparação, uma vez que todas as crianças mudam com a idade. O grupo de comparação ideal seria formado por crianças que igualmente participam de interações sociais mas não musicais como, por exemplo, desportos.  

Verificações posteriores, após suas práticas, revelariam como cada grupo se transforma ao longo do tempo. 

Impacto da prática musical no desenvolvimento da criança 

Em 2012, nosso grupo de pesquisadores no Instituto do Cérebro e da Criatividade na Universidade do Sul da Califórnia iniciou uma pesquisa, com previsão de cinco anos de duração, que realizou exatamente isso. 

Nós começamos a investigar os efeitos da educação musical em grupo em 80 crianças entre seis e sete anos. Continuamos a acompanhar essas crianças para explorar os efeitos de tal prática musical nos seus cérebros, na sua capacidade cognitiva e no seu desenvolvimento emocional. 

Começamos o estudo quando um grupo de crianças estava prestes a iniciar aulas de música por meio do programa musical juvenil da Orquestra de Los Angeles. Esse programa de ensino musical comunitário e gratuito foi inspirado no chamado El Sistema, um programa musical que teve início na Venezuela e que demonstrou ser transformador ao mudar a vida de crianças em situação de vulnerabilidade. 

O segundo grupo de crianças estava prestes a iniciar aulas de prática desportiva num programa comunitário de aulas de futebol. Elas não estavam envolvidas com aulas de música. 

Um terceiro grupo era formado por crianças de escolas públicas e de centros comunitários na mesma área de Los Angeles. 

Os três grupos eram formados por crianças de minorias étnicas e vindas de comunidades de baixa renda na cidade. 

A cada ano, nos encontrávamos com o participante e a sua família no nosso Instituto para um período de testes que durava de dois a três dias. 

Durante essa visita, nós mensurávamos habilidades de linguagem e de memória, capacidade discursiva e de processar música e o desenvolvimento do cérebro de cada criança. Nós também conduzíamos uma entrevista detalhada com suas famílias. 

No início do estudo, quando as crianças não tinham qualquer treino em música ou em desportos, descobrimos que aquelas que faziam parte do grupo de prática musical não eram diferentes das crianças nos outros dois grupos. Especificamente, não havia diferenças nas capacidades cerebrais intelectuais, motora, musical e social avaliadas entre os grupos. 

Como nosso cérebro processa som 

O “caminho auditivo” conecta nosso ouvido com o cérebro para processar o som. Quando escutamos algo, nossos tímpanos recebem o som na forma de vibrações de moléculas do ar. 

Isso é convertido em um sinal cerebral por meio de uma série de elegantes mecanismos localizados no ouvido interno. Este sinal é então enviado para a região auditiva do cérebro chamada de “córtex auditivo” localizada próxima às laterais do cérebro. 

Usando diferentes tarefas, medimos como os cérebros das crianças registravam e processavam som antes de elas terem participado de aulas de música e depois, ao longo de cada ano - quando elas já estavam no curso de música - com uma técnica específica de imagem do cérebro chamada EEG (eletroencefalografia). 

Essa investigação sistemática nos permitiu acompanhar a maturação do caminho auditivo. Numa tarefa, por exemplo, apresentamos pares de melodias musicais não conhecidas para as crianças enquanto gravávamos o sinal dos seus cérebros por meio do EEG. 

Os pares de música eram ou idênticos ou ocasionalmente tinham uma irregularidade quanto ao tom ou ritmo. Nós pedíamos para as crianças identificarem se o par era similar ou diferente. 

Verificamos com qual nível de sucesso as crianças conseguiam detectar se a melodia do par era diferente e as respostas do cérebro a essas diferenças ocasionais. Isso nos permitiu mensurar quão bem os cérebros das crianças eram sintonizados às melodias e ritmos. Em geral, o cérebro produz uma resposta específica quando detecta uma mudança inesperada em um padrão sonoro. 

Como a música treina e desenvolve o cérebro 

Depois de dois anos, o grupo de crianças que frequentava aulas de música tinha uma percepção mais acurada em detectar mudanças quando as melodias eram diferentes. Os três grupos de crianças foram capazes de identificar facilmente quando as melodias eram iguais.

Esse resultado indicou que crianças que frequentavam aulas de música eram mais atentas para as melodias. Crianças do grupo que praticava música também tinham respostas cerebrais mais fortes quanto às diferenças nas melodias comparadas a crianças em outros grupos. 

Nós também observamos que crianças com uma educação musical tinham um desenvolvimento mais rápido no caminho no cérebro responsável por codificar e processar som.

Os resultados obtidos até agora são promissores. Eles trazem suporte às descobertas prévias sobre o impacto positivo de aulas de música no desenvolvimento do cérebro. 

Nossas descobertas sugerem que a prática musical durante a infância, mesmo que por um breve período de tempo como dois anos, pode acelerar o desenvolvimento cerebral relacionado ao processamento de som. 

Nós acreditamos que isso pode ser benéfico para aquisição de linguagem em crianças dado que o desenvolvimento de linguagem e das habilidades de leitura envolvem áreas similares do cérebro. Isso pode beneficiar particularmente crianças em situação de vulnerabilidade em bairros com baixas condições socioeconómicas que experimentam mais dificuldade com o desenvolvimento de linguagem. 

Esperamos que as descobertas desse estudo contribuam não apenas para uma melhor compreensão dos benefícios que o ensino musical pode trazer, mas também gerem mais informações sobre as recompensas sociais e psicológicas da educação musical de crianças em comunidades vulneráveis.   

_________________

Assal Habibi é pesquisadora sénior da Universidade do Sul da Califórnia na Faculdade de Letras, Artes e Ciências Dornsife. 

 

ARTIGO ORIGINAL “Music training speeds up brain development in children” 

Fonte: The Conversation 

Publicação: 03 de agosto de 2016 

Autoria: Assal Habibi 

 

O JORNAL TERRA NOVA TRAZ UMA SELEÇÃO DE ARTIGOS E ENSAIOS CEDIDOS POR MEIOS DE COMUNICAÇÃO SOCIAL INTERNACIONAIS. 

 

 

 

BLOG COMMENTS POWERED BY DISQUS