06
Sab, Mar

Quem é a nova chefe da OMC. E qual o momento da entidade

Economia
Tipografia

Nigeriana Ngozi Okonjo-Iweala foi escolhida para dirigir a Organização Mundial do Comércio. Economista terá pela frente desafio de romper paralisia do órgão.

 

A economista nigeriana Ngozi Okonjo-Iweala foi escolhida na segunda-feira (15) para ser a nova diretora-geral da OMC (Organização Mundial do Comércio). Okonjo-Iweala foi eleita por consenso entre todos os países membros da entidade, como determina o processo eleitoral interno.

A 5 de fevereiro, a outra finalista do processo, Yoo Myung-hee, ministra do Comércio da Coreia do Sul, anunciou a retirada de sua candidatura, deixando o caminho livre para a eleição da economista nigeriana.

Criada em 1995, a OMC é uma organização internacional constituída por 164 membros, que respondem pela quase totalidade do comércio global. Com o objetivo mais amplo de liberalizar e incrementar o comércio global, realiza rodadas de negociações de acordos multilaterais (que envolvem todos os membros), supervisiona o cumprimento das regras estabelecidas e oferece um sistema de solução de resolução de disputas.

A OMC é herdeira e substituta do Gatt (Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio, na sigla em inglês), que foi criado nos anos 1940 para abordar a questão do comércio global no pós-guerra. Nos mais de 70 anos desde o surgimento do Gatt até o início de 2021, nunca uma mulher tinha chefiado a entidade máxima do comércio global. Okonjo-Iweala será também a primeira representante do continente africano no comando do órgão.

O perfil de Okonjo-Iweala

Okonjo-Iweala, de 66 anos, foi funcionária do Banco Mundial – outra importante entidade internacional – por 25 anos, ocupando lugar no alto escalão do órgão. Na Nigéria, foi ministra das Finanças em dois períodos diferentes, entre 2003 e 2006 e entre 2011 e 2015. Também assumiu o Ministério das Relações Exteriores por um mês em 2006, após sair do Ministério das Finanças.

No primeiro mandato no comando da economia nigeriana, Okonjo-Iweala focou em reduzir a dívida externa do país – ou seja, em diminuir quanto a Nigéria devia em moeda estrangeira, para minimizar a vulnerabilidade das finanças públicas aos movimentos do câmbio. Na segunda vez que ocupou o cargo, ostentou um discurso anticorrupção, buscando aumentar a transparência no setor de combustíveis – um dos mais importantes da economia nigeriana – e promovendo reformas para redução dos gastos públicos.

Na OMC, a candidatura de Okonjo-Iweala sofreu um bloqueio pela administração do ex-presidente dos EUA, Donald Trump, que dizia que a nigeriana não tinha experiência suficiente com comércio internacional. A eleição do cargo é feita em diferentes etapas até que os 164 países membros cheguem a um consenso – algo que precisou de meses até ser alcançado em fevereiro de 2021.

Mesmo com a economista tendo aprovação da maioria absoluta dentro do órgão, o governo de Trump insistiu em manter apoio à última opositora, a sul-coreana Yoo Myung-hee. No início de fevereiro, os EUA – já sob o comando do democrata Joe Biden, eleito em novembro de 2020 – retiraram o endosso à candidata sul-coreana, destravando o processo e abrindo caminho para Okonjo-Iweala.

A nigeriana assume a OMC na maior crise dos 26 anos de existência. O órgão está fragilizado desde 2017 e paralisado desde o fim de 2019 – os anos recentes foram marcados pelo tom conflituoso adotado pelo governo americano dentro da entidade.

O comércio internacional na pandemia

Diante das múltiplas crises enfrentadas pela OMC, Okonjo-Iweala já afirmou publicamente que irá focar em uma reforma da entidade. Não se sabe, entretanto, qual será o teor e o alcance das mudanças que serão promovidas. Os países membros elegeram a nigeriana em consenso, mas há discordâncias sobre quais partes da organização devem ser abordadas pela reforma.

Para além da crise da entidade, o mandato de Okonjo-Iweala tem início em um momento de crise econômica global causada pela pandemia do novo coronavírus. O comércio internacional não passou impune pela recessão mundial.

Os efeitos da pandemia sobre o comércio internacional foram sentidos mais fortemente no segundo trimestre do ano, quando os números de contágio pelo coronavírus se agravaram em boa parte dos países do mundo. Com muitas fronteiras adotando passagem restrita, o comércio global despencou 15% no primeiro semestre do ano.

A partir do terceiro trimestre de 2020, o comércio internacional acompanhou a recuperação da atividade económica em boa parte do mundo e voltou a crescer – mas de forma desigual. Um relatório publicado em 10 de fevereiro pela Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento mostrou que países do leste asiático, puxados pela China, têm tido ganhos no arranjo internacional, crescendo suas participações no comércio global. A expectativa da organização ligada à ONU é que a retomada do comércio perca força no primeiro trimestre de 2021, com os novos avanços da doença em diferentes países pelo mundo.

Além da desigualdade na retomada, o momento do comércio internacional é marcado pela escalada do protecionismo e do nacionalismo pelo mundo em anos recentes. O maior símbolo desse movimento é o governo americano de Trump, que aumentou tarifas de importação a produtos chineses como forma de tentar reduzir o poderio económico da China nos EUA.

Nesse sentido, não se sabe qual será o alcance da OMC para regular, autorizar ou retirar as crescentes barreiras ao comércio internacional. Isso porque a atuação da entidade depende, antes de tudo, do destravamento de suas atividades. Okonjo-Iweala já deixou claro que terá como prioridade descongestionar a entidade.

Na segunda-feira (15), Okonjo-Iweala também reforçou a importância do trabalho da OMC para ajudar a economia global a se recuperar da crise gerada pela pandemia.

 

TN - Redação 

 

BLOG COMMENTS POWERED BY DISQUS