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Sex, Jan

A disputa entre o governo da China e o homem mais rico do país

Economia
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Bilionário Jack Ma não aparece em público desde 24 de outubro de 2020, quando fez discurso crítico a autoridades

 

Jack Ma, o homem mais rico da China, não aparece em público desde 24 de outubro de 2020. Em suas redes sociais, as últimas postagens também datam de outubro. O bilionário tampouco apareceu no último episódio de seu reality show, “Africa’s Business Heroes” (“Heróis empresariais da África”), gravado em novembro, sob a justificativa de um conflito de agenda.

O sumiço do empresário – que costuma ocupar os holofotes com frequência – alimenta rumores e especulações no início de 2021. Apesar das teorias conspiratórias sobre uma possível prisão de Ma ou até seu desaparecimento, relatos da imprensa internacional dão conta que o bilionário chinês está apenas “dando um tempo”.

O momento de Jack Ma é de confronto com o governo chinês. Em outubro, a última aparição pública do empresário foi marcada por um discurso crítico ao poder público da China. A corrosão de sua imagem frente ao governo e à opinião pública são apontados como o principal motivo para a decisão de Ma de passar um tempo longe das atenções.

Quem é Jack Ma

Jack Ma, nascido em 1964, começou sua carreira como professor de inglês. Em 1999, ele fundou o Alibaba, empresa de comércio virtual que se tornaria uma das maiores companhias da China. Diferentemente de outros fundadores de empresas de tecnologia, como Mark Zuckerberg, Steve Jobs e Bill Gates, Ma não tinha formação ligada à área de computação. O empresário é filiado ao partido comunista chinês desde os anos 1980.

O Alibaba cresceu em ritmo acelerado logo nos primeiros anos. Mas o crescimento da empresa esbarrava em limitações do próprio sistema financeiro chinês. A China foi por muito tempo um lugar onde o acesso da população a serviços financeiros como cartões de crédito era limitado. Também era comum que comerciantes rejeitassem vendas sem pagamento antecipado. Isso prejudicava empresas como o Alibaba.

A situação levou Ma a lançar em 2003 o Alipay, uma plataforma de pagamento digital que facilita as transações sem cartão de crédito e dá segurança tanto para compradores como vendedores. Aos poucos, o Alipay expandiu atividades e se tornou mais que uma plataforma de pagamentos, usada na venda a retalho no dia a dia.

A empresa passou a oferecer também serviços de microcrédito, agindo como intermediária entre consumidores e bancos. Pelo aplicativo do Alipay, é possível contratar rapidamente um empréstimo de banco. A plataforma fica com uma comissão de 2,5% do valor movimentado por ter intermediado a operação.

Em 2019, a maior parte do lucro do Alipay veio dessas operações de microcrédito. Segundo levantamento do Wall Street Journal, a empresa movimenta mais dinheiro que companhias como Visa e MasterCard. A empresa Alipay mudou o nome em 2014 para Ant Group. Mas a plataforma de pagamentos continuou com o nome antigo.

Com Alibaba – empresa apelidada de “Amazon do Oriente” – e Ant Group, Jack Ma tornou-se não apenas o homem mais rico da China, mas também o empresário mais influente do país. Ele consolidou-se como celebridade na China, fazendo aparições frequentes – e muitas vezes excêntricas – em grandes eventos de televisão e até em produções do cinema chinês.

 

Oficialmente, Jack Ma não é mais o CEO do Alibaba desde 2018. O motivo oficial para sua saída do topo da empresa foi a maior dedicação de tempo à filantropia. Mas Ma se manteve no conselho de direção e continua a ser o maior detentor de ações do Alibaba, empresa que também detém um terço do Ant Group.

O cerco às empresas de Ma em 2020

Em 2020, o governo chinês passou a aumentar os esforços de regulação dos ramos de comércio online e meios de pagamentos no país. As medidas atingiram fortemente Alibaba e Ant Group, que são os dois pilares dos negócios de Jack Ma.

Do lado do Ant Group, uma mudança nas regras para empresas que operam com microcrédito online na China forçou a gigante fundada por Ma a iniciar um grande processo de reestruturação. O Ant Group passou a ser tratado mais como um banco, e menos como um aplicativo de pagamentos.

Cerca de 98% dos empréstimos concedidos pela Ant no Alipay são feitos com capital de terceiros (principalmente bancos). Apenas 2% do crédito correspondem a capital próprio. Pela nova regulação, as empresas que oferecem serviços de crédito por meios digitais devem financiar ao menos 30% dos empréstimos com dinheiro próprio. Também foi estabelecido um teto para quanto crédito pode ser contratado por um usuário. Ou seja, toda a atividade da empresa teria que ser revista e alterada.

A mudança na regulação foi um golpe forte para o Ant Group. A empresa estava a dias de abrir seu capital, entrando nas bolsas de valores de Xangai e Hong Kong. Por causa das alterações que deverão ser feitas no modelo de negócio da empresa – forçadas pelas novas regras do governo chinês –, o lançamento das ações foi suspenso indefinidamente. O lançamento teria sido a maior oferta pública inicial de ações da história.

O cerco ao império de Ma em 2020 também ocorreu pelo lado do Alibaba. Em 24 de dezembro de 2020, a Administração Estatal de Regulamentação do Mercado – um dos órgãos reguladores do governo chinês – anunciou a abertura de investigações antitruste contra a gigante de comércio eletrónico. O processo irá apurar se a companhia abusou de seu poder de mercado e exerceu práticas de monopólio, como supostas pressões para que comerciantes não vendessem seus produtos em plataformas concorrentes.

No mesmo dia, o governo chinês também anunciou uma reunião com executivos do Ant Group para discutir “novas medidas de supervisão” do negócio.

A crescente pressão das agências reguladoras chinesas sobre as empresas de Ma ao longo de 2020 geraram uma reação do empresário. Em seu último evento público em 24 de outubro – em que estavam presentes membros do alto escalão do partido –, o empresário fez críticas ao governo, dizendo que “não podemos usar a forma de administrar uma estação de trem para gerir um aeroporto”, em referência ao tratamento dado ao Ant Group, cada vez mais parecido com o de bancos.

Ma também disse que “não podemos regular o futuro com os meios de ontem” e que os bancos chineses mantêm uma “mentalidade de loja de penhores”. Especialistas avaliam que o discurso do empresário pode ter sido entendida como um desafio aberto à estratégia estatal de aumentar a regulação financeira no país.

Os embates entre Ma e o governo chinês

As iniciativas para regular as maiores empresas de tecnologia da China acontecem em paralelo a esforços semelhantes nos EUA e na Europa. Mas no caso do Alibaba e do Ant Group, há outros fatores que diferenciam a situação.

O entendimento mais disseminado é que o aperto do cerco contra Jack Ma é uma resposta do governo chinês ao desafio público do empresário. A mensagem do poder público seria que não há problemas em ser rico ou ter um império de tecnologia – desde que não se questione a atuação do governo.

A resposta do governo chinês ao embate público de Ma também mandaria um recado para outros empresários: a mensagem seria que o comando da economia chinesa continuaria a ser do Partido Comunista, e não da iniciativa privada. E não haveria grande margem de tolerância para quem discorda disso.

É nesse contexto que acontece o “sumiço” de Jack Ma – que adiciona a todas as outras incertezas sobre o futuro do império do empresário frente às novas regulações do governo chinês. De 24 de outubro de 2020 até 8 de janeiro de 2021, as ações do Alibaba caíram 23,8% na bolsa de Nova York. Mesmo assim, a agência de notícias Bloomberg coloca Ma como uma das 30 pessoas mais ricas do planeta.

A figura pública de Ma em meio à crise

Além do acirramento dos confrontos com o governo chinês, Jack Ma tem visto sua percepção na opinião pública chinesa desgastar-se cada vez mais. É o que destacou uma reportagem do jornal americano The New York Times, publicada em 24 de dezembro de 2020.

Segundo o jornal, Ma foi de “rockstar” a vilão e “capitalista maligno” em 2020. A piora da percepção de Ma é apontada como resultado indireto da crise económica atravessada em meio à pandemia do novo coronavírus. Por mais que a China deva ser a única potência global a registrar crescimento económico em 2020, isso não significa que a população não sentiu o impacto da crise.

O país asiático é o lugar onde há mais bilionários no mundo. Mas centenas de milhões ainda vivem em pobreza. Além disso, os salários estão em patamares baixos em boa parte do país, enquanto os custos de vida das maiores cidades vêm crescendo. Por fim, o nível de endividamento também está em alta, especialmente entre jovens.

A crise acentuou as desigualdades e ajudou a alimentar um sentimento de rejeição aos empresários mais ricos do país – que têm Ma como principal símbolo. O crescente embate entre o empresário e o governo chinês contribui para a piora de sua imagem pública.

Nesse contexto, a falta de aparições de Ma é vista também como uma tentativa de evitar desgastes maiores nas duas frentes: com a população e com o poder público da China.

TN - Com informações do Nexo Jornal 

 

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