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Sex, Jan

Merkel chega ao 15º ano de poder com popularidade renovada

Internacional
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Perto do fim de seu quarto e último mandato, chanceler da Alemanha se destaca na condução do combate à pandemia e consolida espaço de sua coligação de centro-direita.

A chanceler da Alemanha, Angela Merkel, completou 15 anos à frente do governo ontem, domingo (22), com seu índice de popularidade em 74%, de acordo com pesquisa da ARD-Deutschlandtrend.

A despeito da pandemia e das projeções de retração económica, Merkel vive seu melhor momento. Em março, quando a covid-19 começou a espalhar-se pela Europa, a popularidade da chanceler alemã era 21 pontos percentuais menor do que é agora. De lá para cá, não parou de subir.

O bom momento atual contrasta com a pior crise vivida por seu governo, quando Merkel decidiu, em 2015, abrir as portas da Alemanha para refugiados que fugiam da guerra na Síria. À época, a medida contrariou setores conservadores e nacionalistas, que deram força ao crescimento da extrema direita de forma inédita no pós-Segunda Guerra.

Em 2017, o partido nacionalista AfD (Alternativa para a Alemanha), cujos fundadores mantêm ligações ambíguas com o passado nazista, emplacou 94 dos 631 assentos no Bundestag. Foi a primeira vez que esse setor angariou postos no Parlamento alemão desde 1945.

O que parecia uma virada de mesa política histórica acabou perdendo força com o tempo, e Merkel, de centro-direita, logrou achatar o pico da onda conservadora que poderia ter feito a extrema direita avançar na Alemanha – o que teria dado impulso potente a ramificações dessa mesma vertente em outros países da Europa, com consequências negativas para o projeto de unidade de toda a União Europeia.

Merkel é chanceler alemã desde 2005 – a mais longeva da história alemã. Desde sua primeira eleição, ela disputou e venceu um total de quatro pleitos parlamentares, formando a coligação governamental que tem seu partido, a CDU (União Democrata-Cristã), à frente. Por nove vezes, ela foi eleita a mulher mais influente do mundo pela revista Forbes.

Aprovação ao governo, de maneira mais ampla

A popularidade de Merkel não é fruto de uma admiração personalista, de acordo com o analista político Thorsten Faas, ouvido pelo jornal francês Le Monde.

Faas chama atenção para o fato de os alemães demonstrarem satisfação, de maneira geral, com os rumos da coligação da qual faz parte o partido de Merkel.

Em novembro, 67% dos alemães diziam aprovar os rumos da aliança formada entre a CDU e o SPD (Partido Social-Democrata). A aprovação a ela reflete, portanto, uma boa vontade mais ampla do eleitorado em relação ao governo, embora a opinião positiva sobre Merkel, como líder, seja sete pontos percentuais mais alta que a aprovação à sua coligação de governo como um todo.

“Não dá para analisar a popularidade de Merkel de maneira independente em relação ao conjunto do Poder Executivo”, diz Faas, notando que outras figuras influentes do partido, membros do gabinete, também gozam de alta na popularidade.

Em março, a aprovação à coligação governamental como um todo estava 32 pontos abaixo do que está às vésperas do 15º aniversário do governo Merkel, o que demonstra que o momento político para esse setor de centro-direita é favorável.

Perfil confiável e estável

Faas considera que Merkel projeta uma identidade técnica e científica confiável durante a pandemia, dando a impressão de que ela está “intelectualmente armada” para conduzir o país neste momento.

A Alemanha tinha até 19 de novembro 867 mil casos de pessoas contaminadas com o vírus. Os mortos chegavam a pouco mais de 13 mil até a mesma data. Esses números são inferiores ao de países como França, Espanha, Rússia, Espanha, Reino Unido e Itália.

O receituário alemão foi simples, claro e direto: o país apostou massivamente em testes de detecção de infectados, impôs quarentenas quando necessário e logrou construir uma abordagem coesa com os governantes regionais. O jornal americano The New York Times resumiu assim a situação: “o vírus reconciliou os alemães com sua chanceler.”

O fato de Merkel ter decidido que não concorrerá a novos mandatos a partir do encerramento do mandato atual, em outubro de 2021, faz crescer a sensação de que sua gestão da crise é politicamente desinteressada, diz o analista ouvido pelo jornal francês.

Ao longo dos 15 anos à frente do país, a chanceler formou uma dobradinha de polos inversos com o presidente francês, Emmanuel Macron, para defender uma visão ambiciosa da Europa contemporânea – ele encarnando o perfil arrojado e imaginativo, enquanto ela faz as vezes de eixo imóvel e previsível, que dá um lastro menos flexível às ações do bloco.

Quando anunciou que pretendia se aposentar em 2021, a popularidade de Merkel estava em baixa, e sua coligação de governo estava ameaçada. À época, ela apostava as fichas em Annegret Kramp-Karrenbauer como sua possível sucessora, mas a então líder da CDU, apelidada pela imprensa alemã de “mini-Merkel”, acabou por renunciar o cargo e as pretensões futuras em fevereiro de 2020.

O atual ministro das Finanças, Olaf Scholz, do SPD, social-democrata, anunciou que pretende tomar a dianteira e lançar-se candidato no lugar de Merkel em outubro de 2021. A aprovação a ele também é alta – 63% de acordo com a ARD-Deutschlandtrend, um crescimento de 17 pontos percentuais em relação à pesquisa de março.

Panoramas para o futuro

Nas pesquisas de intenção de voto disponíveis até 16 de novembro, o partido de Merkel, a CDU, aparecia em primeiro lugar, com 36%. Os Verdes – vertente ambientalista que experimenta crescimento inédito em toda a Europa – tinham 18%, seguidos pelo social-democrata SPD, com 15%.

A AfD, de extrema direita, tinha 10% e o Linke, de esquerda, apenas 8%, o que indica uma tendência de acomodação do eleitorado nas vertentes centristas do espectro local.

Nas ruas, parte da oposição assumiu feições inusitadas durante a pandemia. Grupos de “coronacéticos” – formados por um amálgama não usual de conspiracionistas à esquerda e à direita – têm se manifestado em várias cidades alemãs contra as medidas sanitárias do governo, às vezes de forma violenta. Na manifestação desta quarta-feira (18), em Berlim, 190 pessoas foram presas.

 

TN - Com informações do Nexo Jornal