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Sex, Jan

Quem é Joe Biden, presidente eleito dos Estados Unidos

Internacional
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O democrata derrotou o presidente Donald Trump e irá assumir a Casa Branca em janeiro de 2021.

 

Presidente eleito dos Estados Unidos, o advogado Joe Biden, de 77 anos, nascido em Scranton, no estado da Pensilvânia, é um político moderado, que sofreu resistência de setores de seu próprio partido para virar candidato justamente por essa característica.

Até então mais conhecido por ter sido vice-presidente dos EUA entre 2009 e 2017, sob Barack Obama, ele iniciou sua carreira política no estado de Delaware, no nordeste dos EUA. O democrata foi eleito senador em 1972 e permaneceu no cargo por 36 anos, acumulando seis mandatos.

A atuação no Congresso

No Senado, Biden integrou e presidiu duas comissões importantes da Casa: a Comissão de Relações Externas e a Comissão Judiciária, responsável pela condução das análises de indicações para a Suprema Corte.

Também foi protagonista na aprovação de uma lei anticrime pelo Congresso em 1994, que, segundo especialistas, significou uma intensificação da política de encarceramento em massa nos EUA – afetando principalmente a população negra. Na campanha eleitoral de 2020, ele disse que a medida foi “um grande erro”.

A vice-presidência dos EUA

Na vice-presidência entre 2009 e 2017, Biden cumpriu papel importante como negociador do governo no Congresso. Entre as diversas medidas que ajudou a passar está a Lei de Proteção e Cuidado Acessível ao Paciente, na área de saúde – mais conhecida como Obamacare, foi uma das principais bandeiras da presidência de Obama.

Também se estabeleceu como um conselheiro próximo do presidente, sendo considerado um dos mais influentes vice-presidentes da história dos EUA.

Como vice-presidente, Biden também comandou campanhas contra o assédio sexual de mulheres, incluindo uma parceria com a cantora Lady Gaga. Em 2019, uma ex-assessora de Biden e outras sete mulheres o acusaram de assédio – o tema foi levantado na campanha eleitoral de 2020. Ainda em 2019, o ex-senador reconheceu que “precisava ser mais cuidadoso” com as pessoas e “respeitar mais o espaço pessoal” delas. Em maio de 2020, ele negou as acusações de assédio sexual de sua ex-assessora.

As tentativas de ir à Casa Branca

Antes de 2020, Biden tentou concorrer à Presidência dos EUA em outras duas ocasiões. A primeira tentativa começou em 1987, visando as eleições de 1988. Mas o então senador foi alvo de um escândalo por ter plagiado o discurso de um líder do Partido Trabalhador britânico. Biden não chegou nem à primeira votação das primárias.

A segunda tentativa aconteceu em 2008, e também não se sustentou por muito tempo. Ele participou do primeiro pleito das primárias democratas em Iowa, mas o mau desempenho – ficou em quinto – o fez desistir.

Em 2020, Biden chega à Casa Branca como o mais velho a assumir a Presidência na história dos EUA. Ele foi eleito com 77 anos e irá iniciar o mandato aos 78 anos.

Vida pessoal e a família na campanha

Em 1966, Biden casou-se com Neilia Hunter, com quem teve três filhos. Em dezembro de 1972, Neilia e a filha Naomi, de um ano, morreram em um acidente de carro. Os filhos Hunter e Beau, que também estavam no carro, sobreviveram.

Em 1977, o então senador se casou com Jill Biden, com quem teve uma filha, Ashley. O casal permanece junto em 2020, e Jill será a primeira-dama a partir de janeiro de 2021.

Beau Biden, filho mais velho do presidente eleito, serviu no exército americano no Iraque e foi procurador-geral do estado de Delaware por oito anos. Ele morreu aos 46 anos após uma batalha contra um câncer no cérebro em 2015.

Hunter, o outro filho de Joe Biden, virou assunto na campanha eleitoral de 2020. Ele acumula um histórico de dependência química de drogas e álcool desde a adolescência. Num dos debates, Trump mencionou um exame toxicológico positivo para cocaína que levou Hunter a ser dispensado da Marinha americana em 2014. Em resposta, Biden reconheceu que o filho, “assim como outras tantos americanos, tinha um problema com drogas”, mas que foi encarado e superado, o que era “motivo de orgulho”.

Hunter também virou tema da disputa presidencial por outro motivo. Entre 2014 e 2018 – em parte durante o período de Joe Biden na vice-presidência –, Hunter trabalhou como diretor da Burisma Holdings, uma empresa de gás natural na Ucrânia. Em 2019, Trump acusou Biden de ter exercido influência para impedir que a Burisma fosse processada por corrupção na Justiça ucraniana. Uma investigação do Senado americano concluiu que o ex-vice presidente não cometeu irregularidades em relações na Ucrânia.

A ação de Trump no caso motivou a abertura de um processo de impeachment contra ele em 2019. Uma das acusações sobre o republicano dizia respeito ao pedido para que o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, investigasse negócios da família de Biden no país do leste europeu. Para pressionar Zelensky a mover essa investigação, Trump teria retardado o repasse de US$ 391 milhões em ajuda militar à Ucrânia e teria prometido uma recepção a Zelensky na Casa Branca – ou seja, teria usado o cargo de presidente para obter vantagens pessoais contra um adversário político. O impeachment de Trump foi aprovado na Câmara mas rejeitado no Senado.

O caso de Hunter Biden voltou à tona em outubro de 2020 quando o jornal The New York Post, apoiador de Trump, publicou uma reportagem dizendo ter tido acesso a um e-mail que comprovava o uso de influência por Biden na Ucrânia. Ao longo da campanha, Trump insistiu na ideia de que Biden tinha cometido crimes e se envolvido com os negócios do filho. O democrata negou as acusações e disse que se tratava de uma campanha de difamação.

O desempenho nas primárias em 2020

No início das primárias democratas de 2020, o ex-vice-presidente não parecia ter muita força para ganhar a indicação democrata – o favorito era Bernie Sanders, de uma ala mais à esquerda do partido.

Mas a campanha de Biden ganhou vida em março na chamada Super Terça, quando 14 estados votaram nas primárias democratas. Biden obteve resultados convincentes e venceu a maioria dos estados que foram às urnas, encaminhando a candidatura nas eleições de novembro.

Biden representou nas primárias de 2020 a ala moderada do Partido Democrata, fazendo contraposição a um grupo visto como mais radical, liderado por Sanders. Entre os eleitores da sigla, havia os que viam em Biden um candidato ultrapassado. O ex-vice-presidente buscou realçar sua experiência como político e sua ligação com o eleitorado afro-americano, associado ao simbolismo que Obama representou.

Os motes de Biden na campanha presidencial

Ao longo da campanha, Biden tentou passar uma mensagem anti-polarização – de que iria governar para todos os americanos, e não só para seus apoiadores políticos. Também adotou bandeiras de minorias políticas, como negros, mulheres. A escolha de Kamala Harris, senadora pela Califórnia, negra e filha de imigrantes, buscou acenar a esses temas, fortes entre os democratas.

Três principais questões ocuparam o centro da corrida presidencial americana em 2020: a pandemia, as tensões raciais e a recuperação da economia.

A campanha e a pandemia

Em relação à crise do novo coronavírus, Biden buscou firmar uma imagem de líder, seguindo e divulgando recomendações com base na ciência. Isso o diferenciou de Trump, que adotou atitudes anticientíficas em relação às recomendações sanitárias e minimizou a gravidade da doença, mesmo após contrair a covid-19 e passar por tratamento.

Conforme as mortes pelo vírus faziam dos EUA o país com mais vítimas da doença no mundo – são mais de 230 mil no início de novembro –, Biden reforçou a ideia de usar máscaras e evitar aglomerações. Já Trump minou, sem embasamento científico, o poder de proteção das máscaras e fez comícios com aglomerações.

O plano de Biden para conter a pandemia é baseado principalmente baseado em diagnóstico e rastreamento. O presidente eleito pretende implementar um programa nacional de testagem para reduzir o contágio no país.

A recuperação econômica

Entre economistas, o controle do novo coronavírus é considerado essencial para que as economias voltem a crescer de forma vigorosa. Portanto, a intenção de focar na redução do contágio de alguma forma ressoa na agenda econômica de Biden.

Para lidar com a recessão econômica de proporções históricas, Biden propõe estimular a criação de empregos principalmente via aumento de gastos do governo. A questão passa também pelas discussões sobre um novo pacote de estímulos – cuja negociação se arrasta desde outubro e pode ficar mais difícil com os resultados apertados das eleições do Congresso. O presidente eleito também fala em adotar um pacote de estímulos com base em princípios de economia verde e sustentável, tema que se tornou uma bandeira forte no Partido Democrata.

Na campanha, Biden também prometeu reverter parcialmente os cortes de impostos adotados por Trump para ampliar a arrecadação do governo. Ele fala ainda em aumentar o salário mínimo como uma forma de ampliar a proteção aos trabalhadores americanos.

Numa visão internacional, Biden não pretende se distanciar totalmente da política de oposição à China adotada por Trump. No entanto, ele propõe abandonar a tática do atual presidente de uso de tarifas para enfrentar o adversário geopolítico. A ideia do democrata é criar alianças com outros países para agir em bloco contra o crescente poder econômico chinês. Essa opção por relações diplomáticas multilaterais também se aplica a estratégia geral para negociação de acordos comerciais.

A questão racial nos EUA

A questão racial cresceu ao longo da campanha quando uma série de abordagens policiais violentas contra homens negros motivou grandes protestos de rua, mobilizados pelo movimento Black Lives Matter (vidas negras importam).

O caso mais emblemático foi a morte por asfixia de George Floyd, em maio, em Minneapolis, no estado de Minnesota. Enquanto Trump relutou em criticar a polícia e em condenar grupos racistas que o apoiam, Biden tentou mobilizar o movimento negro em favor de sua candidatura. Os negros representam 13% do eleitorado apto a votar nos EUA.

Biden enfatizou – e enfatiza – a intenção de se engajar para tornar os EUA um país igualitário racialmente. Como parte da estratégia, também afirmou que foi um erro apoiar o pacote anticrime em 1994, que afetou principalmente a população negra dos EUA e intensificou a política de encarceramento em massa.

Entre as propostas, estão programas de renda, crédito e seguro de saúde para aumentar o acesso e a capacidade financeira de comunidades negras. Ao longo da campanha, o Partido Democrata também promoveu projetos para reduzir as possibilidades de abuso policial – uma reforma que não chega a ser uma redução do orçamento da polícia, mas que aborda questões como punição de policiais e prevenção de má conduta dos agentes.

 

TN com informações do Nexo Jornal