10
Sex, Jul

Morte de homem negro e os protestos raciais por todos os EUA

Internacional
Tipografia

Morte de homem negro, rendido em abordagem policial, desperta onda indignação, com marchas, saques e ataques a delegacias em várias cidades americanas.

 

Na quinta-feira (29), pelo terceira noite seguida, manifestantes saíram às ruas da cidade de Minneapolis, no estado de Minnesota, no centro-oeste dos EUA, para protestar contra a violência policial e o racismo.

Os protestos tornaram-se cada vez mais violentos e se espalharam por outras cidades do país, como Nova York, Denver, Phoenix, Columbia e Ohio.

A onda de protestos levou o presidente dos EUA, Donald Trump, a ameaçar convocar a Guarda Nacional, e usar munição real para disparar contra manifestantes envolvidos em saques e depredações. O post de Trump foi removido pelo Twitter por “glorificar a violência”, o que alimentou a guerra paralela que o presidente americano mantém com os administradores dessa rede social.

Em Minneapolis, epicentro dos distúrbios, um grupo de pessoas irrompeu numa delegacia de polícia da cidade, quebrando os vidros, destruindo os móveis e ateando fogo no local. Pessoas arremessaram objetos contra a delegacia, enquanto policiais disparavam “projéteis”, diz o jornal The New York Times, sem especificar se foi usada munição real.

A polícia retirou-se em seguida do local, advertindo a população pelo Twitter sobre o risco de explosões, por causa da rede de gás que passa pelo edifício. O fogo se alastrou por edifícios vizinhos durante a noite, enquanto os bombeiros diziam não haver condições ideais de segurança para se aproximar.

O ataque à delegacia de Minneapolis ocorreu depois de promotores de Justiça do local terem relutado em apresentar uma denúncia contra um grupo de policiais envolvidos na morte de um homem negro na segunda-feira (25) – episódio que deflagrou a onda de protestos.

O estopim dos distúrbios

A morte de George Floyd, um homem negro de 46 anos, foi o estopim dos distúrbios na cidade. Ele foi asfixiado até a morte por um policial branco numa abordagem ocorrida na segunda-feira (25). Transeuntes filmaram a cena e postaram o vídeo nas redes sociais, deflagrando uma campanha internacional de pessoas que se disseram ultrajadas com o ocorrido.

No vídeo, o policial Derek Chauvin imobiliza Floyd no chão, ao lado de uma viatura. O policial coloca todo o peso do corpo em seu joelho, que aparece apoiado contra o pescoço de Floyd. Rendido, sem esboçar reação, e com as mãos para atrás, o homem imobilizado avisa o policial que já não consegue respirar. A situação se mantém inalterada por oito minutos, até que Floyd é levado inconsciente por uma ambulância e, sem seguida, é dado como morto.

Os policiais envolvidos na ocorrência dizem que Floyd resistiu fisicamente à abordagem policial, mas o fato é negado por testemunhas. Quatro agentes envolvidos na ação – Chauvin e outros três, que formam um cordão ao redor da cena, impedindo as pessoas de se aproximar – foram afastadas enquanto o FBI, a Polícia Federal dos EUA, realiza as investigações, juntamente com promotores estaduais de Justiça, em duas frentes paralelas.

Destruição e repressão

O governador do estado de Minnesota, o democrata Tim Walz, declarou estado de emergência e pediu reforço de 500 membros da Guarda Nacional estadual – uma espécie de força de reserva ativada em casos nos quais as polícias estaduais se vêem sobrecarregadas nos EUA.

Quase 200 supermercados e pequenos negócios de bairro foram saqueados e destruídos só em Minneapolis e St. Paul – conhecidas como “cidades gêmeas” no estado Minnesota. A onda de ataques obrigou muitos comerciantes a manterem as portas fechadas, aumentando o clima tenso nas ruas.

A história do racismo nos EUA

A morte de Floyd não é um fato isolado. O debate sobre violência policial contra os negros nos EUA é tão antigo quanto a própria história do país, que, assim como outros países, é marcado pela escravidão de africanos, considerada uma prática legal até a segunda metade do século XIX.

Mesmo após a abolição da escravatura, os negros ainda viveram um século XX marcado por leis discriminatórias e perseguições protagonizadas por milícias que cometiam linchamentos públicos, em muitos casos sob anuência das autoridades.

O cenário de racismo persistente nos EUA colocou o movimento negro na vanguarda da luta por direitos civis nos anos 1960, que culminaram com a conquista de uma série de direitos que, embora tenham feito justiça ao passado, não foram suficientes para equalizar uma situação de desigualdade resultante de séculos de história.