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Sab, Ago

Qual o risco da fricção entre Irão e EUA no Golfo Pérsico

Internacional
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Manobras militares, ataques com drones e atos de sabotagem elevam tensão num dos maiores pontos de escoamento de petróleo do mundo.

 

O governo da Arábia Saudita afirmou ontem, terça-feira (14), que duas de suas estações de bombeamento de petróleo foram atacadas por drones carregados com explosivos.

Na segunda-feira (13), os sauditas já tinham relatado que dois de seus petroleiros tinham sido alvos de “atos de sabotagem” no Golfo Pérsico. Os relatos somam-se a outros incidentes semelhantes, mas ainda nebulosos, ocorridos no sábado (11) e domingo (12).

Os sauditas não deram detalhes desses incidentes, não mostraram imagens nem apontaram suspeitos. Mesmo assim, a simples divulgação das ocorrências deu início a uma série de associações que apontam para o risco de uma escalada das tensões numa das regiões mais estratégicas e voláteis do mundo.

Os “atos de sabotagem” ocorreram, de acordo com a Arábia Saudita, no estreito de Hormuz. Esse estreito é um gargalo marítimo de apenas 39 km de largura. Ele está localizado entre as costas do Irão e os Emirados Árabes Unidos. É através do Estreito de Hormuz que passam todos os dias o equivalente a 20% de toda a produção mundial de petróleo e um terço da produção de gás natural.

Esse mesmo local tinha sido palco, dias antes, de provocações entre os EUA e o Irão. Os americanos tinham deslocado para Hormuz uma frota de navios de guerra. O movimento teve a intenção de projetar força sobre o governo iraniano, que é acusado pelo presidente dos EUA, Donald Trump, de desenvolver um programa nuclear ilegal com fins militares.

Como a Arábia Saudita é a maior aliada dos EUA na região, as suspeitas de sabotagem recaíram sobre o Irão. Perguntado sobre os eventos no estreito de Hormuz, Trump respondeu com a seguinte declaração: “Vamos ver o que acontece com o Irão. Se eles fizerem qualquer coisa, será um erro muito grande. Se eles fizerem qualquer coisa, vão sofrer muito”.

Além da denúncia de sabotagem feita pelos sauditas, uma empresa de navegação norueguesa também relatou que um de seus petroleiros sofreu avaria no casco, provocado por um “objeto desconhecido”.

A autoridade marítima dos EUA emitiu alerta segundo o qual “desde o início de maio cresceu a possibilidade de que o Irão ou seus proxies regionais cometam atos contra interesses dos EUA e de seus parceiros, incluindo a infraestrutura de produção de petróleo”.

“Nós estamos muito preocupados com o risco de que um conflito ocorra por acidente por meio de uma escalada indesejada”, disse o ministro britânico das Relações Exteriores, Jeremy Hunt, em Bruxelas, na Bélgica, logo após tomar conhecimento dos incidentes.

 

Iranianos culpam os EUA

O governo do Irão não apenas nega envolvimento com os incidentes como acusa os EUA de estarem por trás dessas ações, com o interesse de elevar deliberadamente a tensão política no Oriente Médio.

O ministro das Relações Exteriores do Irão, Abbas Mousavi, sugeriu que esses atos de sabotagem podem ser parte de uma conspiração para iniciar um conflito armado no Golfo Pérsico.

O fator nuclear

A tensão entre Irão e EUA recrudesceu depois que Trump chegou à Casa Branca e anunciou o rompimento de um acordo nuclear que tinha sido firmado por seu antecessor, Barack Obama, com o governo iraniano em 2015.

Além de retirar-se unilateralmente do trato, os EUA passaram também a ameaçar com sanções económicas as empresas que fizessem negócios com o governo iraniano.

Em resposta, o Irão anunciou que voltaria a enriquecer urânio, o que, na prática, anula completamente o acordo que tinha sido firmado em 2015.

Esse acordo regulava a quantidade de urânio enriquecido e o nível de enriquecimento desse urânio – dois fatores que definem a capacidade de um país produzir ou não armas atómicas. O urânio de baixo enriquecimento e em baixa quantidade só é útil para utilização em fins pacíficos. Era isso que o acordo pretendia regular, até os EUA acusarem os iranianos de burlarem o texto.

O papel do Irão na região

As raízes das disputas entre o Irão, os EUA e as potências europeias estão nos anos 1950, quando um projeto nacionalista que previa a estatização da exploração do petróleo foi atacado sobretudo por ingleses e americanos.

Porém, o ponto maior de inflexão ocorreu a partir de 1979, com a chamada Revolução dos Aiatolás. O evento marcou a ascensão dos clérigos xiitas ao poder e o rompimento das relações diplomáticas entre o Irão e os EUA.

Desde então, os interesses dos governos do Irão e dos EUA se cruzam em diversos contextos. Os iranianos, por exemplo, respaldaram o presidente da Síria, Bashar al-Assad, que os EUA fracassaram em derrubar.

Os iranianos também têm ligações com o Hezbollah, grupo libanês que é visto por Israel – histórico aliado americano – como uma ameaça permanente na região.

De acordo com o jornal americano The New York Times, o conselheiro da Casa Branca para Segurança Nacional, John Bolton, vem pedindo a Trump o envio de pelo menos 120.000 militares americanos para o Oriente Médio. O número é próximo do que foi usado na invasão de 2003 no Iraque.

TN com informações da Nexo